Na arte, estilo é um conceito amplo. Mais do que uma questão estética, ele reúne marcas visuais, simbólicas e comportamentais capazes de identificar uma época, uma corrente ou um criador. Poucas figuras da cultura pop conseguiram transformar o estilo em uma linguagem tão reconhecível e duradoura quanto Cher.
Nascida Cherilyn Sarkisian em 20 de maio de 1946, a artista completa 80 anos consolidada como uma das figuras mais influentes do entretenimento contemporâneo. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, construiu uma trajetória rara ao atravessar música, cinema, televisão e moda sem perder relevância cultural.

Dona de um carisma singular e de uma disposição permanente para reinvenção, Cher ultrapassou o status de celebridade para se tornar um ícone visual global. Na história da moda pop, seu repertório estético passou por brilhos, transparências, pedrarias, franjas, silhuetas dramáticas, cabelos ultralongos e uma sucessão inesquecível de perucas e transformações de imagem. Grande parte dessa assinatura visual nasceu de sua colaboração histórica com Bob Mackie, parceiro criativo responsável por alguns dos figurinos mais marcantes da televisão e dos tapetes vermelhos.
O MONDO MODA relembra os elementos que explicam por que o estilo “Cher” continua sendo uma referência quando se fala em cultura pop.

No campo das premiações, sua trajetória permanece excepcional. Cher venceu o Oscar de melhor atriz por “Feitiço da Lua/Moonstruck”, recebeu Grammy pela carreira musical, conquistou Emmy na televisão e acumulou diversos Globos de Ouro ao longo das décadas. Também foi reconhecida em festivais internacionais e permanece entre as raras artistas que alcançaram reconhecimento expressivo em diferentes áreas do entretenimento.

Sua influência ultrapassou os prêmios. Ao longo dos anos, tornou-se presença constante na imprensa e em listas de popularidade e celebridade nos Estados Unidos. A permanência de sua imagem no imaginário coletivo revela algo incomum: poucas artistas conseguiram permanecer visualmente identificáveis por tantas gerações sem depender de nostalgia.
Ao observar sua trajetória sob a ótica da comunicação de massa, esse impacto se torna ainda mais evidente.
Com mais de 100 milhões de discos vendidos mundialmente, Cher também ampliou sua presença por meio da televisão. Seus programas de variedades dos anos 1970 ajudaram a transformar sua imagem em um produto cultural contínuo, consumido independentemente do lançamento de álbuns ou filmes.

Como criadora de tendências, ela antecipou movimentos que depois seriam absorvidos pela moda comercial. Popularizou cabelos extremamente longos e lisos, ajudou a consolidar o uso de pantalonas e contribuiu para tornar o corpo feminino mais presente na estética pop televisiva décadas antes da linguagem contemporânea do “cropped”.
Seu diálogo com o universo fashion chamou atenção de Diana Vreeland e abriu portas para editoriais importantes. Fotografada por Richard Avedon, passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante entre moda e entretenimento e estampou diversas capas da edição norte-americana da Vogue durante os anos 1970.

Na televisão, Cher frequentemente tensionou os limites estéticos do período. Os figurinos desenhados por Bob Mackie tornaram-se conhecidos pela combinação entre teatralidade, sensualidade e exagero visual — uma linguagem que ajudou a redefinir o que uma artista feminina podia vestir diante das câmeras sem abrir mão do protagonismo.
Essa ousadia também gerou controvérsias. Em 1989, no videoclipe de If I Could Turn Back Time, gravado a bordo do USS Missouri (BB-63), o figurino provocativo gerou restrições iniciais de exibição na MTV antes de o canal ampliar sua circulação em horários específicos.
Outro momento emblemático aconteceu no tapete vermelho do Oscar de 1986, quando surgiu usando um figurino preto vazado com um grande cocar criado por Bob Mackie — visual que entrou para a história como um dos exemplos mais memoráveis de ruptura estética em premiações de Hollywood.
Suas transformações visuais continuaram sendo parte essencial da identidade artística nas décadas seguintes. No álbum Living Proof, por exemplo, a multiplicidade de cabelos, referências e personagens reforçou algo que acompanha sua carreira desde os anos 1960: para Cher, imagem nunca foi complemento da música — foi parte da própria obra.

O reconhecimento institucional dessa influência chegou também à moda. Em 1999, o Council of Fashion Designers of America concedeu uma homenagem especial à artista por seu impacto cultural. Desde então, criadores como Tom Ford, Anna Sui e Dolce & Gabbana mencionaram sua importância como referência criativa.
Embora parte da crítica musical tenha argumentado durante certos períodos que sua imagem exuberante competia com a percepção de seu talento vocal, o tempo acabou produzindo outra leitura: em Cher, estética e performance nunca estiveram separadas.

Essa fusão entre música, moda e atitude transformou a artista em uma figura central da cultura pop e, especialmente, em um ícone para a comunidade LGBTQIAPN+. A relação atravessa gerações e ajuda a explicar por que, aos 80 anos, Cher continua ocupando um espaço raro: o de alguém que não apenas acompanhou transformações culturais, mas ajudou a defini-las.

Que beleza de texto, Jorge Marcelo! Você abarcou a amplitude da personalidade e da obra dela, o impacto cultural, com muito mais profundidade do que vi hoje nos grandes portais de notícias! Excelente!
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