A teledramaturgia brasileira ganha um novo capítulo em sua história com a exibição da novela das seis da TV Globo, A Nobreza do Amor. Ao colocar no centro da narrativa o fictício e próspero reino de Batanga na África dos anos 1920, a produção propõe um deslocamento ainda pouco frequente na televisão aberta brasileira: representar uma sociedade africana marcada por soberania política, riqueza material e sofisticação cultural, em contraste com imagens historicamente associadas à escassez, ao colonialismo e à dependência econômica.

Esse universo ganha materialidade por meio de um trabalho elaborado de figurino e caracterização, no qual o design de joias assume papel decisivo na construção dramática. Personagens como a princesa Alika, a rainha Niara e, de forma ainda mais acentuada ao longo da trama, a princesa Kenya, transformam o adorno em linguagem narrativa. Gargantilhas rígidas que lembram armaduras, metais martelados e geometrias ousadas compõem uma estética que ultrapassa o luxo ornamental.
As joias tornam-se símbolos de continuidade histórica, dignidade dinástica e poder político, dialogando diretamente com uma das correntes estéticas e intelectuais mais influentes da contemporaneidade: o Afrofuturismo.

Para o grande público, a associação imediata entre tradição africana e imaginação futurista costuma remeter ao impacto global de Pantera Negra (2018). O filme dirigido por Ryan Coogler consolidou-se como um marco cultural e ampliou mundialmente o interesse por essa estética, impulsionado pelo trabalho de figurino de Ruth E. Carter, premiado com o Oscar e reconhecido por sua capacidade de fundir referências históricas africanas a projeções especulativas do futuro.
No entanto, localizar o nascimento do Afrofuturismo em Wakanda seria um equívoco histórico. O longa coroou e popularizou um repertório artístico, filosófico e visual que já vinha sendo construído havia muitas décadas.
O termo “Afrofuturismo” foi formulado em 1993 pelo crítico cultural estadunidense Mark Dery em seu ensaio Black to the Future. Porém, o conceito surgiu para nomear uma tradição intelectual e criativa que já existia anteriormente. Ao refletir sobre ficção científica, cultura visual e representações do futuro, Dery observou como corpos negros frequentemente eram excluídos das projeções de amanhã produzidas pelo imaginário ocidental.
Assim, o Afrofuturismo passou a designar práticas artísticas que utilizam tecnologia, fantasia e ficção especulativa para reposicionar pessoas negras como protagonistas do futuro, ao mesmo tempo em que reelaboram criticamente os impactos do colonialismo e da diáspora africana.
Muito antes de receber um nome acadêmico, a música já funcionava como laboratório vivo dessa linguagem.

Entre as décadas de 1950 e 1970, o lendário compositor e pianista de jazz Sun Ra rompeu radicalmente com os imaginários vigentes ao afirmar uma identidade cósmica e apresentar narrativas que transcendiam fronteiras terrestres. Ao lado de sua Arkestra, surgia nos palcos usando túnicas metalizadas, mantos bordados com constelações e referências ao Antigo Egito.
Mais do que um gesto performático, essa estética projetava novas possibilidades de existência. Com sintetizadores e cenários de atmosfera espacial, Sun Ra imaginava um futuro em que pessoas negras não estivessem restritas à sobrevivência histórica, mas ocupassem plenamente os territórios do porvir.
Seguindo essa trilha, George Clinton e o coletivo Parliament-Funkadelic transformaram os concertos dos anos 1970 em experiências visuais de exuberância política e imaginação radical. Com a chegada simbólica da icônica espaçonave Mothership, botas espelhadas, peles artificiais e figurinos monumentais convertiam o funk em uma plataforma de emancipação estética.

A música estabeleceu, assim, parte dos fundamentos visuais do Afrofuturismo ao demonstrar que vestuário, performance e imagem pública também são instrumentos de soberania.
Com o passar do tempo, o movimento expandiu-se para os estudos acadêmicos e passou a ocupar lugar central em debates sobre cultura, história e representação.
Uma das ideias mais discutidas é a noção de “futuro ancestral”: a percepção de que inovação tecnológica não substitui o passado, mas pode coexistir com conhecimentos científicos, cosmológicos e espirituais desenvolvidos por diferentes povos africanos ao longo dos séculos.
Nesse modelo de pensamento, o corpo negro deixa de ser interpretado apenas pela ótica da violência histórica e passa a ocupar o centro de narrativas especulativas, tecnológicas e de poder.
Essa densidade conceitual influencia diretamente a moda contemporânea e a construção de imagem das maiores estrelas da música.
Janelle Monáe incorporou essa proposta desde o início da carreira ao criar a figura do androide Cindi Mayweather. A artista utilizou a metáfora da máquina para discutir racismo, exclusão social e alteridade. Sua trajetória estética evoluiu da alfaiataria rigorosa para composições mais fluidas e experimentais, usando o futuro como ferramenta para questionar também fronteiras rígidas de gênero.

Da mesma forma, Beyoncé consolidou o Afrofuturismo no topo do mercado pop e do luxo com o álbum visual Black Is King. Na obra, ficção especulativa e linhagem dinástica se entrelaçam em figurinos que unem silhuetas contemporâneas, texturas elaboradas, tranças esculturais e referências a tradições africanas.
A moda deixa de ser apenas ornamentação e assume função simbólica de autoridade econômica, estética e espiritual.
Essa mesma força narrativa hoje reorganiza estruturas historicamente eurocentradas do mercado global de luxo.

Uma nova geração de criadores vindos do continente africano vem ampliando os códigos tradicionais da alta moda e reivindicando protagonismo sobre suas próprias histórias.

Entre eles está o sul-africano Thebe Magugu, primeiro estilista africano vencedor do LVMH Prize, cuja produção articula alfaiataria precisa e investigação histórica. Também se destaca Laduma Ngxokolo, criador da marca Maxhosa Africa, que traduz elementos culturais e simbólicos do povo Xhosa em peças de tricô de elevado refinamento técnico.
No Brasil, esse movimento encontra ecos igualmente potentes.

A estilista cabo-verdiana Angela Brito consolidou sua marca como um dos nomes mais sofisticados do São Paulo Fashion Week ao desenvolver um luxo contemporâneo baseado em cortes assimétricos, linhas minimalistas e construção rigorosa de silhueta.

Ao lado dela, marcas como Dendezeiro, criada por Pedro Batalha e Hisan Silva, e o trabalho de Jal Vieira demonstram como referências afro-diaspóricas podem dialogar com linguagem urbana e projeção internacional.
Mais do que absorver referências africanas como repertório visual, o mercado contemporâneo passa gradualmente a reconhecer autores, criadores e direções estéticas originadas desses próprios territórios.

Essa transformação também se manifesta no design nacional de acessórios por meio das biojoias e da valorização do trabalho manual como linguagem de vanguarda.
Um exemplo aparece na marca Foi o Jorge Que Fez, que desenvolve colares a partir da combinação entre madeira, sementes, cordas e construções geométricas contemporâneas. Blocos minimalistas, formas assimétricas e contrastes cromáticos criam peças que dialogam com a ideia de futuro ancestral sem recorrer ao exotismo.

Mais do que artesanato decorativo, esses objetos assumem caráter escultórico e especulativo — adornos que poderiam habitar tanto a corte imaginária de Batanga quanto os palcos experimentais de Janelle Monáe.
Ao conectar o design de joias de A Nobreza do Amor aos mantos cósmicos de Sun Ra, à alta-costura contemporânea e ao trabalho dos novos criadores de luxo, o Afrofuturismo revela sua dimensão mais profunda.

Não se trata de uma tendência passageira nem apenas de um subgênero da ficção especulativa, mas de uma filosofia estética e política capaz de reimaginar o passado, disputar o presente e ampliar os horizontes do futuro.

