A versão literária mais conhecida de “A Pele do Asno” foi publicada pelo autor francês Charles Perrault em 1694, inicialmente sob o título Peau d’Âne, escrita em versos.
A estrutura factual da narrativa estabelece que um rei e uma rainha vivem em um reino próspero, cuja riqueza provém de um burro que defeca moedas de ouro. A rainha adoece e, no leito de morte, faz o marido prometer que só se casará novamente se encontrar uma mulher que seja mais bela e melhor formada do que ela. Após a morte da rainha, os conselheiros pressionam o rei por um herdeiro.
Ao procurar pelo reino uma substituta, o monarca constata que a única pessoa que atende aos requisitos do juramento é sua própria filha. O rei decide, então, casar-se com A Princesa (La Princesse).
Quando ela toma conhecimento da decisão, entre em desespero profundo e decide buscar ajuda. Encontra uma fada numa gruta isolada, ricamente decorada com madrepérola e coral. As primeiras palavras da fada para a princesa ao recebê-la são: “Eu sei o que te traz aqui, sei da profunda tristeza do teu coração”.

Ela instrui a princesa a não confrontar o rei diretamente, mas sim a solicitar três presentes considerados impossíveis: um vestido da cor do tempo, um da cor da lua e um da cor do sol. O rei consegue confeccionar as três peças. Como último recurso, a princesa exige a pele do burro que gera o ouro do reino. O rei sacrifica o animal e entrega a pele à filha.

Na mesma noite, a princesa foge do castelo, cobre-se com a pele do animal para ocultar sua identidade e se refugia em um reino vizinho. Lá, ela assume o trabalho de lavadora de cochos e limpadora de chiqueiros, recebendo o apelido de “Pele de Asno” devido à sua aparência.
Aos domingos, ela se tranca em seu aposento e veste os trajes reais. Após observá-la em segredo usando roupas extraordinárias, um príncipe de outro reino passa a procurar a jovem e pede que ela prepare um bolo como forma de reencontrá-la. Durante o preparo, um anel da princesa cai na massa.

O príncipe encontra a joia e, para vencer a resistência de sua corte — que rejeitava a união com uma figura considerada repulsiva —, o príncipe transforma o teste do anel em um ritual público que legitima sua escolha diante da corte.
Após testes com todas as mulheres da corte, o anel serve perfeitamente em Pele de Asno, fornecendo a prova incontestável que o príncipe precisava. Ela deixa cair o disfarce, revela os vestidos e o casamento é realizado com a presença do pai da princesa, que comparece casado com outra mulher.
Sob uma leitura contemporânea, na corte do século XVII, a única salvação aceitável e imaginável para uma mulher vulnerável (mesmo que a própria tenha procurado a fada, arquitetado sua fuga, resistido ao casamento incestuoso paterno e sobrevivido à miséria absoluta usando a pele de asno como escudo) era a transferência da tutela do pai abusivo para um marido soberano.

Charles Perrault não inventou o enredo de “Pele de Asno”. A história tem raízes na tradição oral da Idade Média europeia e já havia sido registrada por outros autores antes de 1694.
O registro literário anterior mais notável pertence ao autor italiano Giambattista Basile, que publicou o conto sob o título The Bear (O Urso) em sua obra Lo Cunto de li Cunti (também conhecida como Pentamerone), entre 1634 e 1636.
Na versão de Basile, a rainha moribunda exige que o marido só se case com alguém tão bela quanto ela. O rei decide casar-se com a filha, que foge após usar uma varinha mágica dada por uma velha para se transformar em um urso. O restante da estrutura (o trabalho real em outro reino, o príncipe que a observa e o teste de identificação) permanece equivalente.
No âmbito dos estudos de folclore internacional, a estrutura dessa narrativa é catalogada sob o sistema Aarne-Thompson-Uther como Tipo ATU 510B (Heroínas Perseguidas), diferenciando-se do Tipo ATU 510A (Cinderela) especificamente pela identidade do perseguidor inicial, que na variante B é o pai, e não a madrasta.

Os Irmãos Grimm fizeram uma versão germânica dessa mesma tradição oral e a publicaram em 1812, no primeiro volume de Contos da Infância e do Lar (Kinder- und Hausmärchen). A história recebeu o título de Allerleirauh (traduzida comercialmente como Muitas-Peles ou Bicho de Mil Peles). Na versão dos Grimm, o rei faz a promessa de só casar com alguém que tenha o cabelo de ouro igual ao da falecida esposa. A filha é a única que possui essa característica. Em vez de pedir a pele de um asno, a princesa exige um manto feito com um pedaço de pele de cada animal do reino. A fuga ocorre para a cozinha de um rei vizinho, e o objeto de identificação final usado na comida é um anel de ouro, um fuso e uma roca em três ocasiões diferentes.
Nem Hans Christian Andersen nem The Walt Disney Company produziram adaptações conhecidas de Pele de Asno ou de suas variantes do tipo ATU 510B.
No caso da Disney, o catálogo clássico de animações de contos de fadas tornou amplamente popular uma estrutura narrativa mais próxima de Cinderela, associada ao tipo ATU 510A.
