Em 1993, ganhei o livro Na Sala com Danuza, da escritora e ex-modelo Danuza Leão. Foi uma obra que devorei com entusiasmo. Li, reli e incorporei muitos de seus ensinamentos como referências pessoais. Naquele momento, a etiqueta não representava para mim uma barreira; ao contrário, parecia uma chave.
Conhecer aquelas regras de convivência, apresentadas com leveza e naturalidade, dava a sensação de compreender melhor espaços aos quais eu ainda não tinha acesso. Era como receber um mapa de um território desconhecido.
Li outros livros da autora e, durante bastante tempo, Danuza era alguém que eu considerava uma pessoa “bacana”. Eu admirava aquela ideia de elegância, de cuidado com o outro, de saber circular socialmente.

O tempo passou. No início dos anos 2010, li um artigo seu publicado na Folha de S. Paulo no qual ela criticava a proposta de reconhecimento do casamento entre pessoas LGBTQIAPN+. Seu argumento era que pessoas gays sempre haviam sido “de vanguarda” e que, por isso, não deveriam buscar uma instituição que ela considerava tradicional e conservadora, como o casamento civil.
Fiquei incomodado. Escrevi uma carta ao jornal argumentando que aquela visão desconsiderava uma questão fundamental: o direito de uma parcela da população ter reconhecida sua dignidade e seus vínculos afetivos perante a sociedade e o Estado. Foi publicada. No mesmo espaço, ela respondeu reafirmando sua posição e mencionando que seu pai havia sido advogado, como forma de reforçar que sabia do que estava falando.
Ou seja… A resposta me fez perceber algo importante: conhecimento sobre regras, leis ou costumes não significa necessariamente compreensão sobre igualdade, empatia ou direitos humanos.

Anos depois, em outra coluna, Danuza escreveu sobre como “ser rico tinha perdido a graça” porque alguns bens, serviços e experiências antes restritos às elites haviam se tornado mais acessíveis. Ela lamentava que, ao viajar para cidades como Nova York ou Paris, alguém pudesse encontrar pessoas que antes pertenciam a outros espaços sociais, inclusive trabalhadores de seu próprio cotidiano.
Em outra coluna, se posicionou contra a ampliação dos direitos das empregadas domésticas e, em 2018, ao comentar sobre o movimento #MeToo e as denúncias de assédio, publicou uma frase que gerou forte reação ao relativizar a violência sofrida por mulheres.
A contradição me marcou. A mesma pessoa que, nos anos 1990, me ensinava sobre comportamento, educação e convivência social, revelava uma visão de mundo profundamente atravessada pelos privilégios de uma classe que não enxergava a realidade fora da sua bolha.
O problema, talvez, não estivesse na etiqueta em si, mas naquilo que ela frequentemente escondeu ao longo da história: a diferença entre civilidade e distinção social.
Como surgiram as ‘regras de etiqueta’?

A palavra ganhou força na corte francesa de Luís XIV, especialmente no Palácio de Versalhes. Naquele ambiente, os códigos de comportamento tinham uma função política: organizar a vida da nobreza, disciplinar gestos e estabelecer hierarquias.
As pequenas etiquetas distribuídas na corte continham instruções sobre comportamentos, posições e protocolos diante do soberano. Saber interpretar esses códigos significava compreender as regras de aproximação do poder. Um gesto inadequado poderia representar perda de prestígio ou afastamento dos círculos privilegiados.
A etiqueta, portanto, nasceu menos como uma ferramenta de igualdade e mais como um sistema de diferenciação. Ela ajudava a definir quem pertencia e quem permanecia do lado de fora.
Essa lógica não desapareceu com o fim das monarquias absolutas. Ela apenas mudou de forma.

Nos espaços institucionais contemporâneos, os protocolos de cerimonial continuam organizando relações de poder. Definem quem ocupa determinados lugares, quem fala primeiro, como autoridades devem ser apresentadas e quais distâncias simbólicas precisam ser preservadas.
O problema não está na existência de protocolos. Toda sociedade precisa de formas de organização. A questão surge quando o protocolo deixa de facilitar a convivência e passa a reforçar a ideia de que algumas pessoas merecem mais respeito, atenção ou acesso do que outras.
A mesma lógica aparece no mercado privado de festas, eventos e consultorias de comportamento. A etiqueta, que poderia ser uma ferramenta de comunicação e acolhimento, muitas vezes é transformada em produto de distinção.
Nas redes sociais, essa dinâmica ganhou uma nova dimensão. Alguns discursos de elegância passaram a funcionar pela criação constante de inseguranças: o que vestir, como falar, como receber convidados, como organizar uma celebração, como demonstrar sucesso.
O problema não está em ensinar boas práticas. Aprender formas de comunicação, organização e convivência pode ser enriquecedor. O problema surge quando essas práticas são apresentadas como uma espécie de senha de pertencimento social, acessível apenas a quem pode pagar por determinados padrões.

A verdadeira civilidade, porém, não depende de origem familiar, patrimônio ou treinamento especializado. Ela é horizontal. Ser civilizado é compreender que outras pessoas possuem a mesma dignidade que nós. É respeitar diferenças, ouvir, evitar constrangimentos e reconhecer que o espaço público pertence a todos. Existe uma diferença profunda entre etiqueta e ética.
A etiqueta pode ensinar qual garfo correto usar em um jantar. A ética ensina que a pessoa ao seu lado merece respeito independentemente de qual for sua escolha.
A etiqueta pode ensinar como falar em determinado ambiente. A ética ensina que todas as vozes merecem ser ouvidas.
A etiqueta pode ajudar alguém a circular em certos espaços. A ética questiona por que alguns espaços foram construídos para excluir tantas pessoas.

O problema começa quando códigos de convivência são transformados em mecanismos de seleção social. Quando a educação vira um pedágio de classe, quando o desconhecimento de regras invisíveis é tratado como falta de valor pessoal, a etiqueta deixa de ser uma ponte e passa a funcionar como uma barreira.
A mudança constante desses códigos também cumpre uma função: quem está fora nunca consegue alcançar completamente o padrão exigido. O modelo de comportamento considerado “adequado” se movimenta continuamente, garantindo que alguns permaneçam sempre como referência e outros como aprendizes.
O surgimento dos novos fiscais da elegância nas redes sociais revela o desconforto de determinados grupos diante de uma sociedade em que privilégios antes exclusivos passaram a ser questionados.
Quando a presença de pessoas diferentes em determinados espaços é vista como perda de qualidade; quando direitos iguais são interpretados como ameaça; quando a diversidade é percebida como invasão, fica evidente que aquele modelo de elegância estava baseado menos no respeito e mais na separação.
A etiqueta perde sua humanidade quando deixa de perguntar “como podemos conviver melhor?” e passa a perguntar “quem merece estar aqui?”.

A verdadeira sofisticação de uma sociedade não está na quantidade de talheres alinhados à mesa, no rigor de um cerimonial ou na capacidade de seguir códigos invisíveis de comportamento. Ela está na capacidade de garantir que todos possam sentar-se à mesa com os mesmos direitos e a mesma dignidade.
Todo o restante é apenas aparência tentando ocupar o lugar da humanidade.
