Como Marilyn Monroe se tornou um império bilionário após a morte

Os produtos associados oficialmente à marca Marilyn Monroe acumulam mais de US$ 1 bilhão em vendas no varejo global — um desempenho comercial que jamais esteve ao alcance de Norma Jeane Mortenson enquanto viveu.
Quando Marilyn morreu, em 4 de agosto de 1962, aos 36 anos, seu patrimônio foi estimado em aproximadamente US$ 800 mil. Embora representasse uma quantia significativa para a época, o valor estava muito distante da dimensão internacional de sua carreira. Poucas atrizes simbolizavam tanto o glamour de Hollywood quanto Marilyn, mas, por trás do mito, havia uma profissional que travou constantes disputas com o sistema dos grandes estúdios para conquistar melhores salários e maior controle sobre seus projetos.

Shot Sage Blue Marilyn – Andy Warhol @ reprodução

Na primeira metade da década de 1950, Marilyn tornou-se a principal estrela da 20th Century Fox, protagonizando sucessos como Os Homens Preferem as Loiras, Como Agarrar um Milionário e O Pecado Mora ao Lado. Ainda assim, continuava presa a contratos que lhe ofereciam remuneração inferior à de diversos colegas homens e limitavam sua participação nas decisões criativas. Insatisfeita com papéis estereotipados e com a rigidez do chamado studio system, rompeu temporariamente com a Fox em 1955 e fundou a Marilyn Monroe Productions, tornando-se uma das primeiras atrizes de Hollywood a criar sua própria produtora. A iniciativa representou um marco na busca por independência artística muito antes de esse movimento se tornar comum na indústria cinematográfica.

Ella Fitzgerald e Marilyn Monroe @ Reprodução

Essa preocupação com autonomia também se refletiu em seu testamento, assinado em janeiro de 1961. Nele, Marilyn destinou cerca de 75% de seu espólio ao seu mentor e professor de atuação, Lee Strasberg, figura central do Actors Studio e responsável por influenciar profundamente sua formação artística. Os 25% restantes foram legados à sua psiquiatra, a Dra. Marianne Kris, acompanhados do desejo expresso de que os recursos fossem utilizados em pesquisas e programas voltados à saúde mental infantil — uma causa particularmente sensível para a atriz, cuja infância foi marcada por sucessivas passagens por orfanatos, famílias adotivas e pela institucionalização de sua mãe, Gladys Baker.
Os desdobramentos dessa herança acabariam produzindo uma das mais curiosas histórias empresariais de Hollywood.

Marilyn Monroe em 1955 nas filmagens de O Pecado Mora ao Lado @ Fox

Lee Strasberg administrou o legado artístico da atriz por duas décadas. Com sua morte, em 1982, sua participação passou para sua terceira esposa, a atriz venezuelana Anna Strasberg. Já a Dra. Marianne Kris faleceu em 1980 e cumpriu integralmente o desejo de sua antiga paciente, transferindo sua parcela do espólio para a instituição criada por Anna Freud em Londres — atualmente conhecida como Anna Freud Centre — referência internacional em pesquisa e atendimento voltados à saúde mental de crianças e adolescentes.
Durante décadas, os direitos permaneceram fragmentados entre esses dois núcleos. Enquanto Anna Strasberg licenciava a imagem de Marilyn para campanhas publicitárias, colecionáveis e produtos diversos, a participação pertencente ao Anna Freud Centre era administrada de maneira muito mais discreta, sem a lógica empresarial que caracterizaria a etapa seguinte da história.

Livro Marilyn in Fashion @ Divulgação

Em janeiro de 2011, a Authentic Brands Group (ABG) assumiu o controle comercial da Marilyn Monroe LLC, por um valor estimado entre US$ 30 milhões e US$ 50 milhões. O Anna Freud Centre recebeu aproximadamente US$ 8 milhões por sua participação, destinando os recursos às suas atividades filantrópicas. Anna Strasberg, por sua vez, cedeu o controle operacional e comercial da empresa, preservando apenas uma participação econômica minoritária nos dividendos futuros.
A aquisição representou um ponto de inflexão na exploração econômica da imagem de Marilyn Monroe.
Fundada apenas um ano antes, em 2010, pelo empresário canadense Jamie Salter, a Authentic Brands Group nasceu com uma proposta que transformaria o mercado global de propriedade intelectual. Em vez de fabricar produtos ou operar lojas, a companhia passou a adquirir marcas consolidadas, celebridades, atletas e patrimônios culturais para licenciá-los a fabricantes em diferentes países, recebendo royalties e outras receitas contratuais sobre sua utilização.
Na prática, a ABG não produz perfumes, roupas, relógios, cosméticos ou acessórios. Ela licencia nomes e identidades visuais para empresas parceiras, que desenvolvem, fabricam e comercializam os produtos mediante rígidos contratos de uso da marca. Esse modelo de negócios permite que uma única propriedade intelectual seja explorada em dezenas de segmentos de mercado e centenas de países, sem que a holding precise manter estruturas industriais ou redes próprias de varejo.

Marilyn Monroe vale um bilhão de dólares @ IA

A compra de Marilyn Monroe tornou-se uma das primeiras grandes demonstrações dessa estratégia. Nos anos seguintes, a companhia expandiu seu portfólio, incorporando os direitos de Elvis Presley e Muhammad Ali, além de marcas tradicionais do varejo e do esporte, entre elas Reebok, Forever 21, Juicy Couture e Sports Illustrated.
Atualmente, o conjunto de marcas administradas pela empresa movimenta mais de US$ 29 bilhões em vendas anuais no varejo em todo o mundo.
Sob essa estrutura empresarial, Marilyn Monroe se transformou em uma marca global cuidadosamente administrada. Perfumes, cosméticos, joias, roupas, artigos de decoração, colecionáveis e campanhas publicitárias integram um universo de produtos licenciados que movimenta mais de US$ 80 milhões por ano em vendas associadas à atriz.
A estratégia, entretanto, vai muito além da simples comercialização de produtos.
Ao contrário do que muitos imaginam, a Authentic Brands Group não é proprietária da história de Marilyn Monroe nem detém exclusividade sobre todas as representações da atriz. A legislação estadunidense estabelece uma distinção entre liberdade de expressão e exploração comercial da imagem.

Marilyn Monroe Chanel n 5 @ Reprodução

Biografias, livros, documentários, reportagens e obras de ficção inspiradas em sua trajetória são protegidos pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos e, em regra, não dependem de autorização do espólio. Além disso, o chamado right of publicity — o direito de explorar comercialmente o nome, a imagem e outros atributos de identidade — varia de acordo com a legislação de cada estado dos EUA, tornando esse campo jurídico particularmente complexo.
Em contrapartida, produtos de consumo, campanhas publicitárias, coleções de moda, linhas de cosméticos e projetos que desejem utilizar oficialmente a marca Marilyn Monroe ou ostentar o selo de aprovação do espólio precisam negociar licenciamento com a Authentic Brands Group. É justamente essa distinção que explica como diferentes interpretações da atriz podem coexistir na cultura contemporânea enquanto a exploração comercial oficial permanece rigidamente controlada.

Marilyn Monroe no teste de cabelo para o filme Something’s Got To Give, de 1962 @ Reprodução

A imagem de Marilyn é administrada segundo critérios semelhantes aos empregados por grandes empresas globais de consumo. Antes de chegar ao mercado, cada novo contrato de licenciamento é submetido a uma análise criteriosa para verificar se está alinhado aos atributos considerados essenciais da marca: glamour, sensualidade, elegância, sofisticação e uma estética associada ao imaginário clássico de Hollywood. O objetivo não é apenas gerar receitas, mas preservar um posicionamento premium capaz de manter o valor comercial da propriedade intelectual ao longo das décadas.
Ao mesmo tempo, a administração do espólio vem ampliando sua estratégia para além do licenciamento tradicional de produtos de consumo.

Dakota Johnson e Ellen Burstyn em Flesh Impact @ Genesis

Um dos exemplos mais significativos dessa mudança é Flesh Impact, curta-metragem de 17 minutos escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal para celebrar o centenário de nascimento de Marilyn Monroe, em 2026. Produzido com a aprovação oficial da Authentic Brands Group e apresentado pela montadora de luxo Genesis, o projeto representa uma nova etapa na forma como o espólio pretende posicionar a marca perante o público contemporâneo.
O filme propõe uma abordagem inédita da atriz ao explorar duas versões de sua existência. Dakota Johnson interpreta Marilyn no auge da fama, enquanto a veterana Ellen Burstyn dá vida a uma versão fictícia da estrela que sobreviveu ao verão de 1962 e teve a oportunidade de envelhecer. A narrativa imagina aquilo que jamais aconteceu: uma Marilyn capaz de atravessar as décadas, amadurecer e reinventar sua identidade.
A escolha de Ellen Burstyn reforça justamente essa hipótese narrativa. Pela primeira vez em uma produção autorizada pelo espólio, Marilyn deixa de ser retratada apenas como o símbolo eternamente jovem congelado na memória coletiva para assumir uma dimensão humana raramente explorada: a de uma mulher que poderia ter vivido além da tragédia que encerrou sua trajetória aos 36 anos.

Marilyn Monroe vale um bilhão de dólares @ IA

Mais de seis décadas depois, Marilyn Monroe transformou-se em um ativo global administrado por executivos, advogados, especialistas em propriedade intelectual e profissionais de licenciamento. Sua imagem é protegida como uma das marcas mais valiosas da indústria do entretenimento, gerando receitas contínuas por meio de contratos cuidadosamente negociados em diferentes mercados ao redor do mundo.