“Quero apenas pessoas que tenham paixão pelas coisas, que sejam loucas para viver, loucas para falar, loucas para serem salvas… É bonito amar e ser livre ao mesmo tempo.”
As palavras avassaladoras da escritora francesa Anaïs Nin em sua obra “Henry e June” servem como um portal para adentrarmos a atmosfera sensível e libertadora de “Minha Querida Senhorita” (Mi querida Señorita, Netflix), longa-metragem de 2026. No filme, essa mesma literatura transgressora funciona como o farol que ilumina os caminhos da protagonista, Adela Castro, quando o peso do mundo e das aparências parece sufocante demais para se carregar.
A trama nos transporta para a cidade espanhola Pamplona no final de 1999, às vésperas da virada do milênio. É nesse ambiente tradicional e católico que conhecemos Adela, uma jovem de 26 anos que divide seus dias entre o trabalho na loja de antiguidades da família e as aulas de catequese que ministra. Criada sob uma superproteção materna sufocante, ela vive uma rotina estável e de aparências, alheia às verdades ocultas sobre sua própria biologia. No cotidiano pacato da cidade, suas referências de afeto são sua avó, Adelina, e seu amigo, o padre José Maria.
Essa calmaria é abalada após um acidente de carro que envolve neta e avó. Como ajuda, ela reencontra Santiago, um antigo colega de escola que passou uma temporada morando em Londres e que nutre por ela uma paixão platônica nunca revelada. O retorno traz um sopro de novidade para aquele marasmo, que será quebrado de uma vez com a chegada de Isabel, uma jovem fisioterapeuta contratada para auxiliar na recuperação de sua avó.
Logo no primeiro dia, ao se oferecer para ajudar Adela numa dor no pescoço, o toque desperta um desconforto inesperado. Até então, além da mãe, seu corpo nunca tinha sido tocado por qualquer pessoa. Se antes havia uma suspeita de algum estranhamento com seu corpo, agora, ela percebe que precisa entender o que está acontecendo.
Elas se aproximam. Pela primeira vez, Adela pisa num bar para se divertir, beber e dançar. Em seguida, aceita o convite de Santiago para um encontro, finalizado com um rápido beijo, interrompido pela garota. Em busca de apoio emocional, ela visita a casa do padre José Maria.
Após ouvir seu relato, ele pega o livro “Henry e June’ e pede para a amiga ler em voz alta o trecho sobre a beleza de amar e ser livre ao mesmo tempo. Na mesma noite, ele compartilha uma confidência sobre seu passado. Esse momento de profunda vulnerabilidade e escuta fortalece o laço entre os dois, fazendo com que Adela se sinta acolhida.
Mais tarde, em casa, a avó Adelina mostra umas fotografias de duas mulheres do seu passado (uma delas sua tia e a outra sua irmã). Altas como a neta e detentoras de uma sexualidade que as diferenciava dos padrões rígidos daquela época, aquelas figuras eram um mistério afetivo para a matriarca. Em desabafo, a avó confessa que somente através do convívio com Adela, finalmente, compreendeu e enxergou com empatia aquelas duas existências que o tempo tentou apagar.

Confrontada por esse espelho de ancestralidade e pelo desejo latente, pressiona a mãe para leva-la a um ginecologista. Diante da recusa, decide buscar respostas médicas por conta própria. É no consultório que descobre a verdade mantida em segredo desde o seu nascimento, revelando suas características intersexo que foram cirurgicamente ocultadas durante sua infância e adolescência.
Munida dessa verdade, Adela se muda para a vibrante Madri do início de 2000. Na capital, longe dos julgamentos e dos fantasmas de Pamplona, começa a reconstruir sua história sob seus próprios termos. É nesse novo território de liberdade que a personagem compreende que viver plenamente exige, acima de tudo, cercar-se do acolhimento e do afeto das pessoas que escolhemos para se tornar nossa própria família — aquela que nos acolhe, nos ama e não nos julga ou condena.
A produção

“Minha Querida Senhorita” (Mi querida Señorita), lançada pela Netflix, é uma livre adaptação de um longa-metragem espanhol de 1972, que chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Na obra original, realizada ainda sob a sombra da ditadura franquista, a trama acompanhava uma mulher de província que descobria ser biologicamente um homem e se mudava para a capital para assumir uma identidade masculina. Era uma abordagem ousada para a época, que carregava as limitações e os olhares binários de seu tempo. O protagonista era um famoso comediante cis e hétero.
Com direção de Fernando González Molina e roteiro assinado pela escritora Alana S. Portero, a nova versão deixa de focar no corpo como um “erro” biológico e passa a denunciar a violência médica e familiar dos silenciamentos e das intervenções cirúrgicas impostas a crianças intersexo.

Trazer a história para o final de 1999 cria uma metáfora perfeita: Adela vive o limiar de um novo milênio, onde o conservadorismo asfixiante de Pamplona colide com a urgência de liberdade que a espera em Madri. A produção é da dupla Los Javis (Javier Ambrossi e Javier Calvo), conhecidos por produções queer emblemáticas como “Veneno ” (HBO) e “La Mesías”.
O papel principal de Adela marca a estreia da atriz intersexo Elisabeth Martínez. Sua escalação foi uma exigência da direção desde as primeiras conversas, sendo considerada a chave para que o filme retratasse a realidade intersexual com respeito e sem o olhar patologizante do passado.
Ao seu lado, Anna Castillo brilha como Isabel, a fisioterapeuta cujo toque inicial desperta o corpo e os desejos de Adela. A eletricidade e o afeto construídos entre as duas atrizes humanizam o debate e transformam a autodescoberta em um processo lírico. O elenco ganha ainda mais robustez com Paco León, que entrega uma atuação cheia de camadas na pele do padre José Maria.
No panorama do cinema queer contemporâneo, esta nova versão de “Minha Querida Senhorita” chega em um momento oportuno. Enquanto as discussões sobre orientação sexual e identidades de gênero ganharam espaço na cultura de massa, a vivência de pessoas intersexo segue amplamente invisibilizada e cercada por desinformação. Mais do que revisitar um clássico do cinema espanhol, o filme dá voz a corpos que a história e a medicina tradicional tentaram normatizar à força.
