Os Primeiros Grupos Femininos da história da música – Parte 4

A virada para a década de 1970 refletiu os impactos da contracultura e os desdobramentos de festivais como Woodstock. O mercado musical foi reconfigurado pela ascensão do rock britânico, alterando o formato de consumo da juventude estadunidense e europeia. Esse público passou a demandar produções associadas a questões sociais, distanciando-se dos moldes das décadas anteriores.
Nesse cenário de transição, a Motown mantinha papel ativo na indústria. Mesmo enfrentando a saturação de sua fórmula de produção, o selo preservava sua relevância comercial. O modelo estabelecido por The Supremes continuou como referência para artistas negras, servindo de base rítmica e vocal para o desenvolvimento do funk e da disco music.
Ao mesmo tempo, o mercado assimilava o impacto de cantoras solo como Janis Joplin e Joan Baez, que demonstraram que mulheres podiam ocupar o protagonismo artístico como intérpretes e compositoras, rompendo a dependência dos formatos vocais tradicionais.
Essa conjuntura provocou uma divisão estética na cultura pop. De um lado, artistas negras concentraram-se em sonoridades voltadas ao funk e à disco music. Essa vertente transferiu parte do fluxo de consumo dos estádios para os clubes urbanos, ancorada em propostas de liberdade corporal e diversidade.
Em paralelo, o segmento do rock registrou o surgimento de bandas compostas por mulheres que assumiram a execução dos instrumentos, composições e arranjos, modificando um território até então predominantemente masculino. Essa descentralização indicou que os grupos femininos alteraram suas dinâmicas para acompanhar as mudanças de mercado. Seguindo a cronologia de estreia fonográfica, a produção da década se estruturou por meio dos seguintes nomes.

Honey Cone (1970)

Honey Cone @ Divulgação

Formado por Edna Wright, Carolyn Willis e Shelly Clark, o trio de Los Angeles iniciou suas gravações na virada para os anos 1970, atuando diretamente no período de transição estética da indústria.
Estilo Musical: Soul, funk e proto-disco.
Canções de Sucesso: Want Ads (líder da Billboard Hot 100 em 1971), Stick-Up e One Monkey Don’t Stop No Show.

Impacto Cultural: O grupo marcou uma mudança nas temáticas líricas da época. Afastando-se das narrativas de vulnerabilidade comuns nos anos 1960, as composições abordavam a iniciativa e a independência das mulheres, antecipando discursos que se consolidariam nas décadas seguintes.

Fanny (1970)

Fanny 1971 @ Ed Caraeff

Liderada pelas irmãs June e Jean Millington, ao lado de Alice de Buhr e Nickey Barclay, a banda de San Francisco lançou seu álbum de estreia em 1970 pela gravadora Reprise Records.
Estilo Musical: Rock, hard rock e pop rock com foco na execução instrumental.
Canções de Sucesso: Charity Ball, Butter Boy e o cover de Badge.

Impacto Cultural: Foi a primeira banda de rock formada inteiramente por mulheres a assinar com um grande selo e a pontuar nos rankings da Billboard. O grupo modificou o papel tradicional da mulher como intérprete, assumindo o controle técnico das composições em um nicho dominado por homens.

Labelle (1971)

Labelle – Patti LaBelle, Nona Hendryx e Sarah Dash) veste Larry LeGaspi, 1975 @ Norman Seeff

As integrantes Patti LaBelle, Nona Hendryx e Sarah Dash, que atuavam nos anos 1960 como as Bluebelles, reformularam o grupo e mudaram o nome em 1971.
Estilo Musical: Glam rock, funk e referências de soul psicodélico.
Canções de Sucesso: Lady Marmalade (primeiro lugar nas paradas em 1974), What Can I Do for You? e Messin’ with My Mind.

Impacto Cultural: Promoção de mudança visual e comportamental no período. O trio aboliu os figurinos padronizados e as coreografias tradicionais herdadas do modelo das Supremes, adotando roupas de conceito futurista e maquiagem teatral. As apresentações e as letras passaram a abordar temas de política e comportamento de forma direta. Elas foram uma das primeiras formações negras a incorporar o Glam Rock.

First Choice (1973)

First Choice – 1977 @ Norman Seeff

O trio da Filadélfia composto por Rochelle Fleming, Annette Guest e Wardell Piper (posteriormente substituída) iniciou sua trajetória de impacto com o álbum Armed and Extremely Dangerous em 1973, gravado nos estúdios Sigma Sound.
Estilo Musical: Philadelphia Soul e estruturas fundamentais de transição para a disco music, com foco em arranjos de cordas e cozinhas rítmicas aceleradas.
Canções de Sucesso: Armed and Extremely Dangerous, Smarty Pants, The Player, Guilty e Doctor Love.

Impacto Cultural: O grupo atuou como um dos alicerces na formatação da disco music. Gravado com a banda MFSB, o álbum de estreia introduziu a batida sincopada de bateria e as linhas galopantes de baixo que definiram o gênero fonográfico. Faixas como a música-título e Smarty Pants ganharam aderência imediata em clubes precursores de Nova York, como o The Loft, servindo de matéria-prima para os primeiros testes de remixes estendidos da história conduzidos por DJs como Tom Moulton. A consolidação desse modelo ocorreu logo em seguida, em 1974, com o álbum The Player. A faixa-título e o single Guilty ampliaram a presença do trio nas pistas, aliando letras realistas sobre o cotidiano urbano a arranjos instrumentais complexos que estabeleceram os padrões de produção de dance music para o restante da década.

The Pointer Sisters (1973)

The Pointer Sisters 1972 @ Herb Greene

As irmãs Anita, Ruth, Bonnie e June Pointer iniciaram sua discografia em 1973 pela Blue Thumb Records, com uma proposta que se diferenciava das tendências pop da época.
Estilo Musical: Jazz vocal, scat singing, be-bop, blues e country.
Canções de Sucesso: Yes We Can Can, Fairytale (vencedora do Grammy de música Country em 1974) e Fire (1978).

Impacto Cultural: Adotaram uma identidade visual baseada em roupas de acervo histórico e brechós, contrapondo-se ao estilo futurista dominante. O grupo demonstrou domínio técnico em harmonias complexas e obteve inserção no mercado de música country dos EUA, tornando-se o primeiro grupo de mulheres negras a se apresentar no Grand Ole Opry. No fim da década, elas incorporaram elementos da disco music, estabelecendo a base para os lançamentos de sucesso comercial nos anos 1980, como I’m So Excited, Jump (For My Love) e Automatic.

Silver Convention (1975)

Silver Convention @ divulgação

Idealizado na Alemanha pelos produtores Michael Kunze e Sylvester Levay, o projeto se consolidou publicamente em 1975 com a formação do trio integrado por Ramona Wulf, Penny McLean e Linda G. Thompson.
Estilo Musical: Eurodisco, caracterizada por arranjos de cordas e marcação rítmica eletrônica.
Canções de Sucesso: Fly, Robin, Fly (primeiro lugar global em 1975) e Get Up and Boogie.

Impacto Cultural: Atuou na expansão internacional da variante europeia da disco music. Diferenciando-se das produções estadunidenses focadas em narrativas extensas, o grupo priorizava letras minimalistas e repetitivas, priorizando o andamento das pistas e coreografias alinhadas aos formatos dos programas de televisão da época.

The Runaways (1976)

The Runaways 1976 @ divlgação

Formada na Califórnia sob coordenação do produtor Kim Fowley, a banda reuniu Joan Jett, Cherie Currie, Lita Ford, Sandy West e Jackie Fox, estreando em disco em 1976.
Estilo Musical: Punk rock, hard rock e glam punk.
Canções de Sucesso: Cherry Bomb, Queens of Noise e Rock & Roll.

Impacto Cultural: O grupo expressou o comportamento da juventude suburbana da segunda metade da década. Adotando visual de couro e composições sobre o cotidiano juvenil, demonstrou a viabilidade de bandas adolescentes femininas no rock pesado, abrindo precedentes para movimentos posteriores, como o Riot Grrrl dos anos 1990. No lançamento, enfrentou restrições comerciais nos Estados Unidos, onde programadores de rádio e a indústria resistiram à proposta do grupo, resultando em desempenho modesto na Billboard. Em contrapartida, a banda gerou forte apelo de consumo no mercado japonês em 1977, onde alcançou enorme sucesso comercial, com turnês em arenas lotadas e certificações de discos de ouro. O projeto serviu ainda como núcleo de formação para as carreiras posteriores de Joan Jett e Lita Ford.

Baccara (1977)

Baccara 1977 @ divulgação

O duo espanhol formado por Mayte Mateos e María Mendiola iniciou suas gravações em 1977 a partir da intermediação de produtores alemães.
Estilo Musical: Eurodisco com foco em melodias pop.
Canções de Sucesso: Yes Sir, I Can Boogie (com estimativa de mais de 15 milhões de cópias comercializadas) e Sorry, I’m a Lady.

Impacto Cultural: Estabeleceu um padrão de identidade visual no continente europeu pautado pelo contraste de figurinos fixos em preto e branco. O duo converteu a produção pop de origem espanhola em item de exportação, combinando elementos da música regional a arranjos eletrônicos que atingiram posições de destaque no Reino Unido e na Europa continental.

High Inergy (1977)

High Inergy 1977 @ divulgação

Apresentado por Gwen Gordy Fuqua e editado pela Motown em 1977, o quarteto de Detroit foi composto por Vernessa Mitchell, Barbara Mitchell, Linda Howard e Michelle Rumph.
Estilo Musical: Soul e R&B com inserções de disco music comercial.
Canções de Sucesso: You Can’t Turn Me Off (In the Middle of Turning Me On).

Impacto Cultural: O grupo representou o encerramento de um ciclo de produção na Motown, buscando aplicar as diretrizes tradicionais de comportamento e técnica vocal do selo a um contexto de mercado dominado pelas demandas das pistas de dança no fim dos anos 1970.

Sister Sledge (1979)

Silver Sledge @ divulgação

Embora as irmãs Debbie, Joni, Kim e Kathy Sledge registrassem gravações desde o início da década, a repercussão internacional ocorreu em 1979 com o álbum We Are Family, produzido por Nile Rodgers e Bernard Edwards.
Estilo Musical: Funk, R&B e disco music.
Canções de Sucesso: We Are Family, He’s the Greatest Dancer e Lost in Music.

Impacto Cultural: Introduziu uma temática focada em conceitos de união e cooperação feminina no final da década de 1970. Apoiado em arranjos de baixo e execuções vocais alinhadas, o grupo marcou o período final da era de ouro da disco music com mensagens que preservam inserção na cultura pop.

O Veredito do Tempo

A análise sobre os grupos femininos dos anos 1970 demonstra como a posteridade frequentemente inverte os critérios de sucesso estabelecidos pelo mercado fonográfico. O êxito comercial imediato nem sempre se converte em legado duradouro, enquanto artistas que desafiaram convenções estéticas ou sociais acabam reconhecidos como referências pelas gerações seguintes.
O contraste entre diferentes trajetórias daquela década ilustra essa dinâmica. As integrantes do The Runaways enfrentaram barreiras comerciais em 1976, sendo preteridas pelas paradas estadunidenses e recebidas com ceticismo por parte da crítica. Ainda assim, a energia, a crueza e a postura contestadora da banda garantiram sua reavaliação histórica. Hoje, o grupo é reconhecido como pioneiro e uma das principais referências do protagonismo feminino no rock.
No extremo oposto, o duo espanhol Baccara simbolizou o auge da produção industrial da era disco europeia, comercializando mais de 15 milhões de cópias de seu principal single e conquistando grande popularidade na televisão e nas pistas de dança. Com o declínio da disco music no início dos anos 1980, porém, sua estética altamente coreografada e suas interpretações minimalistas passaram a ser frequentemente associadas ao conceito de kitsch, reduzindo parte de seu impacto cultural.
Entretanto, a própria década também demonstra que sucesso comercial e permanência histórica não são conceitos incompatíveis. Grupos como Sister Sledge conseguiram unir enorme repercussão nas paradas a um repertório que permaneceu relevante muito além de seu contexto original. Assim, os anos 1970 revelam que o mercado era capaz de produzir fenômenos passageiros, mas também de consagrar artistas cuja influência atravessou gerações, seja pela inovação, pela qualidade de sua obra ou pela capacidade de representar transformações culturais que permaneceram vivas no imaginário da música popular.

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