O momento em que os homens abandonaram o salto alto

A sobriedade que caracteriza o vestuário masculino formal no Ocidente não é uma preferência biológica, mas o resultado de uma transição ideológica e econômica ocorrida entre o final do século XVIII e o início do século XIX.
O fenômeno marcou o período em que os homens abandonaram progressivamente tecidos ornamentados, maquiagem, saltos e joias em favor de um uniforme funcional. Essa transição redefiniu as fronteiras de gênero, os códigos de consumo e a estrutura da sociedade moderna.

Masculinidades – Século XVIII @ IA

Até meados do século XVIII, o vestuário das classes dominantes europeias era pautado pela ostentação visual, independente do gênero. Homens da aristocracia utilizavam sedas, veludos, perucas polvilhadas, saltos altos e fragrâncias florais intensas como indicadores diretos de poder político e privilégio de classe. Como a tecelagem mecânica ainda não existia, a roupa era um dos bens mais caros e cobiçados do mundo, funcionando como uma demarcação visual de casta: quem governava exibia o luxo impraticável para o trabalho; quem trabalhava vestia tecidos rústicos nas cores naturais das fibras, como o linho grosso e o cânhamo.

Masculinidades – Século XVIII @ IA

Lentamente, essa dinâmica começou a se transformar a partir da segunda metade do século XVIII, com o avanço da Revolução Industrial na Inglaterra. Economicamente, o poder migrou da nobreza rural para a burguesia urbana.
A nova elite financeira derivava seu status do trabalho, da gerência de indústrias e das transações comerciais. O ambiente fabril e corporativo nascente exigia roupas pragmáticas, que permitissem mobilidade e resistissem à fuligem do carvão que passava a cobrir as cidades.
A Revolução Francesa, a partir de 1789, consolidou e acelerou esse processo no campo político. A indumentária suntuosa da corte foi alçada à categoria de símbolo de opressão, parasitismo e decadência moral.
O novo regime republicano exigia símbolos visuais de igualdade entre os cidadãos, o que impulsionou o despojamento estético e transformou a cor e o brilho em traços de futilidade anti-republicana.
Nesse cenário de transição econômica e política, o homem burguês adotou o terno escuro, de corte geométrico e tons neutros (preto, cinza e marinho), feito de lã ou algodão. A indumentária masculina deixou de ser um ornamento para se transformar em uma ferramenta de trabalho.

Religião

Masculinidades – Era Vitoriana @ IA

Para sustentar a nova organização econômica nascida com as indústrias, a burguesia do século XIX buscou na moral protestante e na literatura doméstica a legitimação para a divisão social do trabalho.
O arranjo industrial passou a ser respaldado por leituras literais de textos bíblicos promovidas pelas igrejas protestantes, com destaque para as vertentes puritanas e evangélicas na Inglaterra e nos Estados Unidos. Essas instituições transformaram o trabalho em um dever moral e a sobriedade em sinal de virtude, ditando papéis rígidos para a manutenção da ordem social por meio da consolidação da Doutrina das Esferas Separadas.
A Esfera Pública pertencia ao Homem Provedor. Esse ambiente dos negócios, da política e da indústria era classificado nos sermões como competitivo e moralmente hostil. O homem deveria habitar esse espaço para garantir o sustento material, e sua vestimenta escura e desprovida de adornos passou a funcionar como uma espécie de armadura de sobriedade e seriedade necessária para enfrentar o mundo exterior, alinhando-se à aversão puritana aos excessos visuais.
A Esfera Privada era reservada à Mulher Cuidadora. O lar era tratado na literatura moralista e nos púlpitos como um santuário de pureza isolado da selvageria do mercado. À mulher, reservou-se a função divina de proteger a moral familiar, gerenciar a esfera doméstica e cuidar dos filhos, submetendo-se à autoridade do marido provedor e materializando essa imobilidade social e física através de vestimentas restritivas impostas pela etiqueta da época.

A Era Vitoriana @ IA

Um século após a consolidação prática dessas mudanças estruturais no guarda-roupa ocidental, o psicólogo e psicanalista britânico John Carl Flügel realizou a análise histórica e científica do fenômeno. Em sua obra fundamental The Psychology of Clothes, publicada em 1930, ele cunhou o termo “Grande Renúncia Masculina” para explicar os mecanismos psicológicos por trás da transição ocorrida no século anterior. Embora Flügel não tenha criado o fenômeno, foi ele quem lhe deu nome e sistematizou sua interpretação histórica.
Ele demonstrou que o processo estabeleceu um embate direto entre a utilidade e a estética, no qual o homem abriu mão do direito à beleza e à exibição ornamental em troca do monopólio do poder político e econômico na esfera pública. A indumentária masculina passou a sinalizar, de forma absoluta, a racionalidade, o foco e a produtividade necessários para o novo ordenamento social.
Esse movimento provocou uma transferência direta do consumo, onde a responsabilidade pela exibição de riqueza e status social foi transferida predominantemente para a aparência feminina.
No modelo familiar consolidado ao longo da Era Vitoriana, a esposa tornou-se a consumidora oficial de bens de prestígio, utilizando roupas complexas, volumosas e fisicamente restritivas para demonstrar, indiretamente, a capacidade financeira do marido provedor.
Enquanto os homens mantinham o consumo focado em bens utilitários de alto valor, como relógios de bolso, alfaiataria fina, cavalos e charutos, a vaidade e o interesse pela moda foram institucionalizados pelo sistema como características exclusivamente femininas.

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