Em um tempo em que discursos de ressentimento masculino ganham terreno em fóruns e redes sociais sob a alcunha de redpill — prometendo a homens inseguros a retomada de uma suposta autoridade perdida —, o cinema de horror ofereceu um dos diagnósticos mais perturbadores desse fenômeno. Obsessão (Obsession), do cineasta Curry Barker, não é apenas um fenômeno comercial sem precedentes para uma produção independente recente; é também uma parábola cirúrgica sobre o que acontece quando a fantasia da posse absoluta finalmente se realiza.
Com um orçamento enxuto de US$ 750 mil, a produção independente arrecadou US$ 258,7 milhões no mercado estadunidense e US$ 184,1 milhões no cenário internacional, somando impressionantes US$ 442,9 milhões em todo o mundo. Com isso, alcançou uma das maiores relações entre custo de produção e bilheteria da história do cinema de horror. Ao contrário de outras obras do gênero, não foram demônios, serial killers ou fantasmas que chamaram a atenção do público, mas sim a capacidade da obra de tocar em uma ferida aberta da contemporaneidade: a violência velada do cara legal (nice guy) e o horror da anulação do consentimento feminino.

A trama acompanha Oliver (conhecido como Bear pelos amigos), um jovem que se enxerga como uma figura vulnerável, romântica e injustiçada pela falta de reciprocidade afetiva de sua amiga Nikki (Inde Navarrette, ótima). Diante da rejeição e da incapacidade de lidar com a autonomia da mulher que deseja, Oliver recorre a um artefato sobrenatural capaz de atender a desejos. Trata-se da clássica estrutura narrativa da Pata do Macaco (The Monkey’s Paw), arquétipo imortalizado no conto de W. W. Jacobs publicado em 1902. A premissa é simples e cruel: o pedido será atendido em sua literalidade, mas deve ser formulado com absoluta precisão, pois toda realização carrega uma maldição destinada a punir a ambição e o egoísmo do requerente. O desejo de Oliver é igualmente simples: tornar-se o maior e mais incondicional amor da vida de Nikki.

O horror em Obsessão ganha contornos humanos quando o feitiço entra em ação. Nikki não passa a amar Oliver de forma saudável; ela tem sua subjetividade, seus contornos morais, suas vontades e seus limites completamente apagados. É reduzida a um autômato romântico, uma presença oca cuja única função passa a ser a subserviência irrestrita às necessidades dele. A dor da rejeição do mundo real é substituída pelo pesadelo de uma simulação grotesca.
É nessa virada que o roteiro (assinado pelo próprio diretor, Curry Barker) desconstrói com maestria a retórica da masculinidade ferida. A cultura redpill e os ecossistemas da manosfera vendem a ideia de que o relacionamento ideal exige a eliminação da subjetividade feminina para garantir a validação permanente do ego masculino. Obsessão funciona como um experimento de pensamento ao conceder a Oliver exatamente aquilo que essa utopia patriarcal promete.

O resultado, porém, é a aniquilação da própria conexão humana. Sem alteridade — isto é, sem reconhecer o outro como um sujeito autônomo, dotado de desejos, recusas e liberdade —, não existe amor possível. Quando o não deixa de existir, desaparece também a possibilidade de uma escolha genuína. O que resta é uma convivência assustadora com uma inteligência artificial programada para agradar, incapaz de amar porque foi privada da liberdade de não amar.
A crueldade de Oliver revela-se ainda mais perversa nas entrelinhas. Em uma cena crucial, assustado com o comportamento perturbador de Nikki, o protagonista liga para a empresa responsável pelo artefato. Ele não é alguém arrependido por ter violado a alma de outra pessoa; é um consumidor frustrado diante de um produto defeituoso. A primeira frase que profere é: “Gostaria de mudar algumas coisas“. Ao ser informado de que não existem ajustes de fábrica e que a única solução seria o cancelamento total — o que devolveria a vida, a saúde mental e a autonomia a Nikki —, Oliver recusa a proposta. Diante da escolha entre libertar a mulher que afirma amar ou mantê-la aprisionada a um feitiço degradante, o “cara legal” opta pela manutenção da posse.

Outro momento revelador ocorre enquanto o corpo enfeitiçado dorme. A voz da Nikki original emerge para implorar que Oliver ponha fim à sua vida, pois já não suporta o sofrimento de permanecer presa dentro de si mesma. Oliver finge não ouvir. O choro, o desespero e a dor reais da mulher que diz amar transformam-se apenas em um ruído inconveniente que ele escolhe ignorar para não encarar o próprio fracasso emocional e a realidade da rejeição.
Essa escolha expõe a verdade mais dolorosa da obra: o desejo dela jamais fez parte da equação. Oliver nunca esteve apaixonado pela Nikki real — uma mulher viva, livre e capaz de dizer não —, mas pela fantasia narcísica de possuí-la. O objeto do seu amor nunca foi uma pessoa; foi uma projeção construída para satisfazer suas carências e confirmar sua identidade. O feitiço apenas materializa aquilo que já existia em seu imaginário: uma mulher sem autonomia, cuja existência gira inteiramente em torno dele.

É justamente por isso que Obsessão transcende os limites do horror sobrenatural. Ao mostrar que um homem prefere assistir à destruição psíquica da mulher que diz amar a enfrentar a rejeição e aceitar a igualdade em uma relação, o filme transforma o terror em crítica social. O verdadeiro horror não reside no objeto mágico, mas na incapacidade de aceitar que o outro não nos pertence.
Afinal, a ilusão do controle — apresentada no início como a maior das armadilhas narcísicas — revela-se também como a negação da própria possibilidade de amar. Quando o controle vence, o amor desaparece. O que resta é apenas a posse. E é precisamente nela que o horror encontra sua forma mais assustadora.
O filme está no catálogo da Prime Video.
