O legado de Gloria Steinem na defesa da liberdade das mulheres

A perda de Gloria Steinem na quarta-feira, 02 de setembro, nos obriga a encarar o significado profundo de uma vida inteira dedicada à transformação social. Em um momento de tanto ruído, em que a própria palavra “feminismo” é intencionalmente esvaziada, distorcida e encarada com desdém por parcelas de uma sociedade profundamente patriarcal, resgatar sua trajetória não é um exercício de nostalgia. É uma necessidade urgente de memória e consciência histórica.

Gloria Steinem na sua residência em Manhattan para Architectural Digest – 2024 @ Douglas Friedman

Nascida em um contexto de facilidades sociais, Gloria Steinem reunia atributos idolatrados pelo padrão hegemônico: era uma mulher branca, educada em boas instituições e dona de uma estética alinhada ao ideal ocidental de beleza. A estrutura social oferecia a ela a aceitação das regras do jogo, a promessa do sucesso individual e a acomodação na zona de conforto reservada aos donos do poder.
No entanto, por trás da aparência ajustada aos padrões, sua formação foi marcada por fraturas invisíveis. Criada em uma infância itinerante dentro de um trailer, ela viu a estabilidade familiar desaparecer aos dez anos. Passou a juventude morando sozinha com a mãe, Ruth, uma ex-jornalista que sofria de crises graves de depressão e ansiedade, incapacitada pelo sistema de exercer sua profissão. Ver uma mulher talentosa ser anulada e abandonada pela sociedade sem autonomia financeira foi a primeira grande lição de Gloria sobre o peso da estrutura patriarcal.

Gloria Steinem – 1967 @ Bettmann – Getty Images

Após se graduar em Ciência Política (na época conhecida como Government Studies) no Smith College em 1956, passou quase dois anos na Índia vivenciando o ativismo comunitário pós-Gandhi. Caminhando de aldeia em aldeia ao lado de mulheres locais para mediar conflitos de casta, Steinem aprendeu que a transformação política não nascia em gabinetes, mas na escuta atenta e na capacidade das pessoas de se reunirem para contar suas próprias histórias.
Ao retornar a Nova York para trabalhar como jornalista freelancer, encontrou um mercado dominado por homens, que reservava às mulheres apenas pautas sobre moda e estilo de vida. Recusando o papel de mera espectadora, colocou o próprio corpo em risco em uma célebre reportagem de 1963 sobre o Playboy Club, onde se infiltrou como “coelhinha” para desnudar a exploração e a precarização vividas por trabalhadoras sem proteção social.

Gloria Steinem – Revista Time @ Susan Wood – Getty Images

Anos mais tarde, em 1972, ao cofundar a revista Ms., provou que a imprensa feita por e para mulheres podia pautar o debate político nacional, trazendo para o centro da cena temas tabus como autonomia reprodutiva, assédio e igualdade salarial. Gloria compreendeu cedo que a beleza e o acesso social funcionavam apenas como uma gaiola dourada e transformou sua visibilidade em ferramenta de combate e alavanca para abrir espaço às suas semelhantes.
Ela nunca aceitou o papel de “rosto único” do feminismo. Consciente de suas origens, usou sua voz para construir pontes interseccionais, dividindo palanques e lutas com lideranças negras, indígenas e trabalhadoras. Entendia que o feminismo não é uma cartilha acadêmica distante, mas a busca fundamental pelo direito humano de existir com liberdade e soberania sobre os próprios passos.

Gloria Steinem no Doral Hotel em Miami Beach durante a convenção do partido Democrátido – Julho 1972 @ AP

É preciso dizer com todas as letras: o feminismo é o movimento social que permitiu que mulheres tivessem o direito de trabalhar, de votar, de assinar o próprio nome em um contrato, de se divorciar e de romper com ciclos históricos de violência. O machismo tenta, cotidianamente, demonizar esse termo porque sabe do seu poder desestabilizador sobre o status quo.

Ao se despedir na gravação de seu depoimento para a série documental da Netflix “Famous Last Words”, Gloria Steinem deixou um apelo simples, que carrega a força de um manifesto: “Por favor, contem a sua própria história/ Please tell your own story”.
Há uma potência transformadora nesse recado final. Contar a própria história é o antídoto mais eficaz contra a desumanização. É na narrativa em primeira pessoa, na exposição das dores, das buscas e das recusas de cada mulher que o discurso sem conteúdo perde força e a empatia se concretiza.
Quando uma mulher decide contar quem é — seja na linha de frente de um movimento internacional, seja na aridez do cotidiano doméstico ao lutar por autonomia —, ela desenha um mapa para as próximas gerações.
Aos 92 anos, Gloria Steinem deixou a certeza de que a conquista de direitos não é um serviço que Delivery de conquistas, mas o fruto de alianças e coragem coletiva. Sua vida nos lembra que o verdadeiro privilégio não está em se proteger do mundo, mas em usar todas as forças disponíveis para torná-lo mais justo para quem vem depois.

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