Agênero, Neutra e Fluida: futuro da moda sem fronteiras

A indústria do luxo atravessa uma de suas transformações estéticas e estruturais mais interessantes em séculos. O antigo conceito de “unissex”, durante décadas associado à simples adaptação de modelagens masculinas para corpos femininos ou à produção de moletons, camisetas e peças deliberadamente sem estrutura, vem dando lugar a uma investigação muito mais sofisticada sobre corpo, identidade, proporção e construção.

Na vanguarda dessa mudança, duas lógicas de design ajudam a interpretar o novo cenário: a moda agênero, ou genderless, que procura reduzir ou eliminar os marcadores tradicionais de gênero na roupa, e a moda de gênero fluido, que permite o trânsito deliberado entre códigos historicamente associados ao masculino e ao feminino.
Embora tratados como sinônimos pela grande mídia, os conceitos partem de premissas distintas. O agênero procura, em maior ou menor grau, retirar o gênero da equação formal da roupa. A fluidez, por outro lado, procura libertar a peça da obrigação de permanecer dentro de um único código de gênero. Essa diferença, longe de ser apenas semântica, traz consequências profundas para a criação, a modelagem, o varejo e a maneira como o luxo constrói valor.

Moda Agênero – Moda Gênero Fluído @ IA

O Guarda-Roupa Binário

Para compreender a dimensão dessa transformação, é preciso voltar no tempo. A ideia de que homens e mulheres sempre se vestiram segundo códigos opostos não corresponde à história do vestuário ocidental.
Durante o século 18, sobretudo entre a Aristocracia e a Burguesia europeias, o vestuário masculino era extremamente ornamentado: sedas, bordados, rendas, joias, meias, saltos, perucas e cores intensas faziam parte de uma cultura visual na qual riqueza, posição social e refinamento eram expressos pelo corpo vestido.
Isso não significa que não existissem diferenças entre as roupas de homens e mulheres — elas já se faziam presentes nas silhuetas, nas funções e em diversos códigos sociais. O que ainda não existia era a separação tão rígida e abrangente que posteriormente caracterizaria o sistema moderno de vestuário.
A transformação se intensificou entre o final do século 18 e o início do 19. Mudanças políticas e sociais, a ascensão dos valores burgueses, novas concepções de masculinidade e as transformações econômicas daquele período contribuíram para o abandono progressivo da ornamentação masculina.

Homens na corte francesa do século 18 @ IA

O fenômeno ficou conhecido na historiografia como “A Grande Renúncia Masculina”, expressão associada ao historiador John Carl Flügel. O homem rico passou gradualmente a abandonar cores, bordados e adornos em favor de roupas mais sóbrias, escuras e funcionais. O terno tornou-se o principal símbolo dessa nova masculinidade pública: disciplinada, racional, profissional e visualmente discreta.

A Era Vitoriana @ IA

A mulher, por outro lado, permaneceu vinculada a um sistema de vestuário no qual a ornamentação, o volume e a elaboração visual mantiveram papel central. Longe de ser um mero capricho estético, essa hiperestilização da roupa feminina cumpria uma dupla função social: servia como vitrine viva do status e da renda do marido — demonstrando que a família possuía recursos para mantê-la livre do trabalho produtivo — e impunha, através de espartilhos rígidos, armações pesadas e camadas de tecido, uma imobilidade física que a confinava a uma postura contemplativa e passiva no espaço doméstico. A roupa operava, na prática, como uma estrutura que moldava a mulher como um objeto ornamental do lar, desprovido da agência e da mobilidade reservadas aos homens no espaço público.

Mulher na corte francesa do século 18 @ IA

A divisão entre aparência masculina e feminina tornou-se, portanto, uma forma profunda de organizar e hierarquizar expectativas sociais sobre comportamento, trabalho, poder e autonomia.
Com a expansão da industrialização, da confecção em massa e das lojas de departamento ao longo do século XIX e início do XX, essas distinções passaram a ser reproduzidas em escala comercial. A indústria precisava classificar corpos, organizar estoques, estabelecer tabelas de medidas e estruturar o espaço de venda. O vestuário masculino e feminino consolidou-se, assim, também como uma eficiente arquitetura comercial.
É justamente essa estrutura secular de controle e classificação que a moda contemporânea começa a desconstruir.

A Neutralização da Forma

Moda Agênero – Moda Gênero Fluído @ IA

A moda agênero não deve ser confundida simplesmente com “roupa que serve para homens e mulheres”. Sua proposta mais radical está em deslocar a criação da pergunta “para qual gênero esta roupa foi desenhada?”. Em vez de começar pelo gênero, o designer pode começar pelo corpo, pela matéria, pelo movimento, pela proporção ou pela função.
Nesse sentido, o objetivo não é produzir uma estética neutra ou sem personalidade. Uma peça agênero pode ser minimalista, escultórica, extravagante ou sensual. O que muda é a tentativa de não fazer do gênero seu princípio obrigatório de construção.

Moda Agênero @ Divulgação

Na modelagem, isso significa o uso de sistemas de medidas corporais mais flexíveis, tabelas baseadas em dimensões específicas do corpo e soluções de ajuste que permitam diferentes anatomias sem depender exclusivamente das categorias tradicionais de “masculino” e “feminino”. Recortes, pences móveis, sistemas de regulagem, volumes controlados, ombros menos rigidamente definidos e construções modulares tornam-se ferramentas para ampliar a adaptabilidade da peça.

A questão deixa de ser “uma roupa masculina que também pode ser usada por uma mulher” e passa a ser: como construir uma roupa que não precise ser definida por essa oposição?

Telfar Clemens e Ashton Sanders, ator do filme Moonlight, no Met Gala 2019, com a bolsa em mãos @ Getty Images

O designer de acessórios liberiano-americano Telfar Clemens é um dos exemplos mais claros dessa mudança de perspectiva. Sua proposta comercial e estética rejeita a ideia de que determinados produtos devam pertencer exclusivamente a um público masculino ou feminino. A célebre filosofia da marca — “não é para você, é para todo mundo” — sintetiza essa virada: a identidade do consumidor não precisa ser pré-determinada pela categoria do produto. Tamanho, caimento e styling tornam-se decisões individuais, e não extensões de uma classificação de gênero.

Rick Owens Spring 2027 Menswear @ Brand

O estadunidense Rick Owens leva a discussão para o território da arquitetura corporal. Suas túnicas, casacos, malhas e estruturas monumentais trabalham com peso, gravidade, comprimento e volume. Em vez de enfatizar uma anatomia convencionalmente masculina ou feminina, o designer transforma o corpo em suporte para uma construção escultórica. A questão passa a ser menos “qual gênero veste esta roupa?” e mais “qual relação esta roupa estabelece com o corpo?”.

Gênero Fluido

Se a lógica agênero procura diminuir a importância dos marcadores de gênero, a moda de gênero fluido parte de uma premissa diferente: os códigos existem, mas ninguém precisa permanecer preso a apenas um deles. Alfaiataria e transparência. Ombros estruturados e saias. Corselets e ternos. Renda e gravata. Seda e couro. Plissados e casacos de corte masculino.
A fluidez não elimina o repertório histórico do vestir. Ela o coloca em circulação.
Nesse modelo, uma peça pode preservar deliberadamente um código tradicionalmente associado à feminilidade e ser combinada com outro associado à masculinidade. O resultado não precisa ser neutro; pelo contrário, pode ser extremamente afirmativo. O agênero procura retirar o gênero da arquitetura da roupa; a fluidez de gênero permite que diferentes arquiteturas de gênero coexistam no mesmo guarda-roupa e no mesmo visual.

Gucci @ Getty Images

A Gucci foi uma das casas que mais contribuíram para popularizar a dissolução dos códigos rígidos de gênero na moda contemporânea. Ao longo de diferentes fases criativas, a marca colocou alfaiataria, seda, estampas, ornamentação e referências históricas em circulação entre diferentes propostas de styling, tornando menos relevante a antiga separação entre “elementos masculinos” e “elementos femininos”. O aspecto mais significativo não está em vestir homens com roupas femininas ou vice-versa, mas em transformar esses códigos em um repertório compartilhado.

Loewe @ Getty Images

Sob a direção criativa de Jonathan Anderson, a Loewe tornou-se outro laboratório importante para essa discussão. A combinação de couro, tricô, construção artesanal, volumes escultóricos e silhuetas inesperadas permite que elementos historicamente classificados como masculinos ou femininos coexistam sem que a roupa precise explicar sua identidade. Saias, casacos estruturados, superfícies trabalhadas e formas ampliadas passam a integrar uma linguagem de moda na qual o objeto é mais importante do que a categoria tradicional de quem deveria usá-lo.

Harris Reed @ Getty Images

Harris Reed representa uma vertente mais teatral e dramática da fluidez. O designer combina alfaiataria britânica, corselets, saias, volumes amplos e construções de grande impacto visual. Seu trabalho demonstra que a fluidez de gênero não precisa significar minimalismo ou neutralidade — pode, ao contrário, significar excesso. Nesse território, o corpo torna-se palco para uma negociação explícita entre masculinidade e feminilidade, sem a necessidade de escolher definitivamente entre as duas.

Desafios do Varejo

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas cultural e se torna técnica. Uma verdadeira transformação do vestuário sem divisão rígida não pode depender apenas de campanhas publicitárias ou da alocação de um mesmo produto em dois setores do e-commerce. Ela exige pesquisa de modelagem.
Corpos não são versões menores ou maiores uns dos outros. As diferenças de proporção entre tórax, cintura, quadril, ombros, braços e pernas exigem soluções específicas de construção. Por isso, o desenvolvimento de roupas para públicos mais amplos envolve pences e recortes estrategicamente posicionados, sistemas de ajuste, construção modular, ombros menos rígidos, cavas cuidadosamente dimensionadas, volumes controlados e tecidos cuja elasticidade, peso e queda permitam maior adaptação.
O desafio está em produzir inclusão sem transformar a roupa em uma peça sem formas. Essa é a grande diferença entre a nova geração do design e o antigo conceito de “unissex”: o unissex frequentemente buscava um denominador comum; o novo design procura encontrar mais de uma possibilidade de corpo dentro da mesma arquitetura.
Essa transformação desafia também a arquitetura comercial do luxo. Durante décadas, a organização das lojas reproduziu a lógica binária: uma área masculina, outra feminina; campanhas separadas; tabelas de tamanho distintas; equipes especializadas por departamento; vitrines com códigos visuais específicos.
A progressiva integração de coleções indica uma mudança de mentalidade, mas é importante não confundir desfile misto com transformação completa do varejo. A verdadeira mudança acontece quando a classificação deixa de ser o principal mecanismo de navegação do consumidor.
Em uma loja contemporânea, isso significa organizar produtos por categoria, material, silhueta, ocasião ou coleção, em vez de simplesmente por gênero. O consumidor deixa de entrar em um espaço que lhe diz antecipadamente o que ele deveria procurar.

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