Há uma insistência cansativa em tratar a cinefilia como uma experiência de fé dogmática, cuja única catedral válida seria a sala escura de um cinema.
Em entrevista publicada nesta sexta-feira, 21 de agosto, pelo jornal The Guardian, Pedro Almodóvar, um dos cineastas mais consagrados do cinema europeu, volta a bater na tecla de que a ascensão dos streamings e o consumo doméstico estariam empobrecendo a relação com a arte e anestesiando o público. Tais declarações, contudo, soam cada vez mais anacrônicas.
Em pleno 2026, vivendo plenamente a autonomia que a tecnologia nos proporciona, a constatação é simples: amar o cinema nunca dependeu de pagar caro por um ingresso, tolerar o barulho de embalagens de pipoca ou suportar a falta de civilidade alheia que sempre habitou as salas de exibição. Afinal, quem hoje se incomoda com as luzes e os barulhinhos de notificações dos aparelhos portáteis, culpando exclusivamente as novas gerações pela suposta decadência do espaço coletivo, esquece que, no passado, o público já se comportava como se estivesse na própria sala de casa. Ou seja, a falta de educação e o desrespeito ao outro nunca foram invenção da era digital; sempre fizeram parte da experiência coletiva do cinema.

Essa romantização saudosista ignora completamente o que era o consumo audiovisual nas décadas de 1990 e no início dos anos 2000. Naquele período, as salas comerciais eram fortemente orientadas pelo produto hollywoodiano, e raríssimos eram os filmes nacionais ou ‘estrangeiros’ (leia-se “tudo o que não era produzido pelos EUA”) que conseguiam romper essa bolha. Para quem buscava produções autorais — como as obras do próprio Almodóvar —, a alternativa real eram os cineclubes. E, sinceramente, nem todos eram confortáveis ou possuíam boas qualidades técnicas de som e imagem.

A fita de videocassete e o DVD já haviam provado, décadas atrás, que o filme podia habitar a sala de estar. O que o streaming e a multiplicidade de telas fizeram foi apenas expandir essa liberdade de forma radical e democrática, permitindo acessar obras audiovisuais de qualquer lugar do planeta no conforto da própria casa, sem que isso diminua em absolutamente nada a potência de uma direção de arte primorosa, a precisão de um roteiro cortante ou a complexidade técnica de uma montagem. Entre os preços abusivos dos ingressos e do estacionamento dos complexos multiplex de hoje, e o passado de salas excludentes ou cineclubes precários, a tecnologia devolveu ao público a soberania sobre a sua própria fruição.
Mas por que a insistência em manter vivo o dogma de que o filme só tem valor se consumido na tela grande?
Desmistificar essa narrativa exige perguntar a quem realmente interessa a manutenção dessa ideia. Em primeiro lugar, esse pensamento atende aos grandes conglomerados exibidores e aos estúdios de Hollywood, cujo modelo de negócio depende da urgência do consumo imediato e do apelo artificial da bilheteria. Transformar o ato de ir ao cinema em um atestado moral de verdadeiro cinéfilo é uma engrenagem engenhosa de marketing para continuar lotando complexos multiplex com produtos padronizados.

Paralelamente, essa retórica é alimentada por uma elite cultural e artística que historicamente monopolizou a crítica, a curadoria e o cânone. Diretores consagrados e distribuidores tradicionais muitas vezes operam sob a lógica de que o espectador precisa ser tutelado. Para esse circuito tradicional de legitimidade cultural, a autonomia do público — que pode pausar, refletir, pesquisar sobre a obra, trocar de tela ou simplesmente escolher o que ver sem passar pelo crivo da exibição comercial — representa uma perda de controle simbólico e hierárquico.
Se a fruição da arte deixa de depender da liturgia imposta pelo autor e passa a pertencer inteiramente à intimidade e ao repertório de quem assiste, a estrutura tradicional desmorona.
Por fim, insistir na supremacia da sala escura também significa desqualificar a revolução promovida pelos arquivos globais e pelas plataformas digitais. Rotular como indolente ou superficial quem prefere a intimidade do lar é uma forma de deslegitimar uma nova geração de espectadores e cinéfilos que já compreendeu que a sensibilidade artística não se mede pelo tamanho da tela, mas pela bagagem, pela atenção e pelo olhar de quem assiste.
O verdadeiro amor pela cultura começa justamente quando somos livres para escolher como, quando e onde queremos nos emocionar. O cinema não perde sua grandeza quando deixa a sala escura; ao contrário, permanece vivo porque já não depende de um único espaço, de um único ritual ou de uma única forma de ser experimentado.
