A nova temporada da franquia de antologia criminal de Ryan Murphy e Ian Brennan, intitulada Monstro: A História de Lizzie Borden (Netflix), escolheu um oportuno caminho para discutir o peso do controle social sobre o gênero feminino. A partir dos eventos sombrios ocorridos em 1892 na cidade estadunidense de Fall River (Massachusetts), a narrativa vai além do sensacionalismo habitual de tribunal. Pelo contrário, o roteiro utiliza a absolvição controversa de Lizzie Borden como o eixo central para costurar as existências de outras duas figuras históricas complexas.
O ponto de partida é o confinamento asfixiante da casa na Second Street. A trama constrói o ambiente familiar dos Borden como uma panela de pressão emocional. Lizzie (Ella Beatty, filha de Warren Beatty e Annette Bening) e sua irmã (Billie Lourd, filha de Carrie Fisher e neta de Debbie Reynolds) viviam sob o controle financeiro rigoroso do pai e lidavam com uma profunda animosidade em relação à madrasta. Quando os assassinatos acontecem e Lizzie vai a julgamento, o que se revela não é apenas a busca por um culpado, mas também o retrato de uma sociedade incapaz de conciliar a imagem idealizada da mulher com a possibilidade de que ela seja violenta.

Dentro da lógica apresentada pela minissérie, a própria absolvição de Lizzie passa a simbolizar essa contradição. A narrativa sugere que sua aparência, sua posição social e o papel que se esperava de uma mulher branca de sua classe dificultavam que os homens do júri a enxergassem como alguém capaz de cometer uma violência tão brutal. Mais do que uma questão de provas ou de dúvidas jurídicas, a série transforma o julgamento em um confronto entre a mulher que Lizzie era e a mulher que aquela sociedade acreditava que ela deveria ser.

É justamente essa fúria reprimida que serve de ponte para a entrada de Aileen Wuornos na narrativa (a sensacional Sarah Paulson). O salto temporal para a Flórida do fim dos anos 1980 introduz uma mulher situada no extremo oposto da posição social ocupada por Lizzie. Aileen surge como alguém marcada por décadas de abusos, abandono e marginalização.

Se Lizzie está presa dentro de uma casa confortável, Aileen vive exposta à violência das ruas. São formas distintas de aprisionamento, mas a série encontra entre elas uma mesma lógica: mulheres submetidas a circunstâncias que lhes negam autonomia, segurança e dignidade. A conexão se estabelece, então, pela violência como consequência de uma existência marcada pelo cerco. Aileen é condenada à morte pelos assassinatos de homens que cruzaram seu caminho, mas a narrativa enfatiza que o julgamento de sua humanidade começou muito antes de ela chegar ao tribunal.

Ao contrário de Lizzie, que é beneficiada pelo modo como a sociedade a enxerga, Aileen é confrontada justamente com o preconceito provocado por sua pobreza, sua marginalização e sua aparência. A minissérie coloca as duas em extremos diferentes da mesma estrutura social: uma é protegida pela imagem que os outros construíram dela; a outra é condenada pela imagem que construíram sobre ela.
O ápice dessa construção dramática ocorre no sexto episódio, quando a série promove um encontro hipotético entre Lizzie Borden e Aileen Wuornos. Ao colocar lado a lado duas mulheres separadas pelo tempo, pela classe social e pelas circunstâncias de vida, mas unidas pelo estigma da violência, a narrativa alcança uma de suas sequências mais significativas. A liberdade criativa do encontro permite que a minissérie abandone momentaneamente a cronologia para aproximar duas personagens que, em condições completamente diferentes, foram transformadas em símbolos de uma mesma transgressão: mulheres que ultrapassaram os limites que a sociedade havia estabelecido para elas. E a escolha da canção “Small Town Boy”, da banda inglesa de Synth-Pop Bronsky Beat na cena de dança foi muito oportuna.
O diálogo entre as duas também reforça uma das ideias centrais da temporada: a violência não surge no vácuo. Dentro da interpretação proposta pela obra, os atos de Lizzie e Aileen são apresentados como resultado de histórias de opressão, abuso, medo e ressentimento acumulados ao longo do tempo.

É justamente nesse ponto que Elizabeth Báthory, interpretada por Vicky Krieps — que também assume o papel da criada Bridget/Maggie — completa o triângulo construído pela minissérie. Recuando para o fim do século 16 e início do século 17, a narrativa apresenta a condessa húngara como uma mulher que, apesar de sua posição privilegiada, também está submetida às engrenagens de uma sociedade dominada por homens. Acusada de torturar e assassinar jovens camponesas em sua busca por juventude, Báthory é retratada pela série não apenas como uma figura de crueldade, mas como alguém cuja influência e autonomia passam a representar uma ameaça para aqueles que a cercam.
A trajetória de Báthory, porém, estabelece uma diferença fundamental em relação às de Lizzie e Aileen: ela não chega a enfrentar um julgamento formal. Seu status social a coloca acima desse tipo de exposição pública. A minissérie transforma justamente essa ausência de tribunal em parte importante de sua história. Báthory possui riqueza, título e autoridade suficientes para escapar da lógica que coloca mulheres comuns diante de um júri, mas isso não significa que esteja protegida das estruturas de poder. Quando sua influência deixa de ser conveniente e sua brutalidade passa a ameaçar os interesses dos homens ao seu redor, outras formas de punição são acionadas.

Enquanto Lizzie é levada ao tribunal e absolvida, e Aileen é julgada e condenada, Báthory é neutralizada sem que precise ocupar o banco dos réus. A diferença revela como classe e poder determinam não apenas a maneira como uma mulher é julgada, mas até mesmo se ela será submetida ao julgamento formal. No caso de Báthory, o poder que inicialmente a protege também se transforma em sua prisão: quando ela deixa de conseguir controlar as estruturas ao seu redor, é isolada e punida por aqueles que passam a deter a força necessária para fazê-lo.

Essa distinção torna a conexão entre as três personagens ainda mais interessante. Lizzie é protegida pelo privilégio de ser vista como uma mulher respeitável; Aileen é condenada pelo estigma de ser uma mulher marginalizada; e Báthory é protegida, durante algum tempo, pelo poder que possui, até que esse mesmo poder se torna uma ameaça ao status quo. São destinos diferentes, mas a minissérie os aproxima ao mostrar que a posição ocupada por uma mulher dentro da hierarquia social determina as regras do julgamento — e também as formas disponíveis para silenciá-la.
