Dolly Parton transcendeu as fronteiras da música country dos Estados Unidos para se tornar uma das figuras mais universais, autênticas e fascinantes da cultura popular mundial. Nascida em 19 de janeiro de 1946, em uma pequena cabana de um único cômodo nas montanhas do Tennessee, a quarta de 12 filhos de uma família extremamente pobre, ela transformou a experiência da escassez em matéria-prima para sua arte e construiu, ao longo de mais de seis décadas, um império que combinou música, cinema, negócios e filantropia.
Dolly morreu nesta terça-feira, 25 de agosto de 2026, aos 80 anos. A família anunciou o falecimento em uma mensagem publicada nas redes sociais da artista. A causa da morte foi uma breve batalha contra o câncer. A família e os assessores de imprensa da artista não detalharam publicamente o tipo específico de câncer diagnosticado. Nos dias que antecederam seu falecimento, familiares haviam mencionado que ela vinha lidando com problemas de saúde que priorizou postergar enquanto cuidava de seu marido, Carl Dean, falecido no ano anterior.

Sua trajetória musical foi a espinha dorsal de sua relevância. Com mais de 3 mil canções compostas ao longo da carreira, mais de 100 milhões de discos vendidos e 25 canções que chegaram ao primeiro lugar da parada country estadunidense — o maior número entre as artistas femininas do gênero —, Parton tornou-se uma das maiores referências femininas da história da música country.
Composições como Coat of Many Colors, Jolene e I Will Always Love You demonstraram sua extraordinária capacidade de transformar experiências pessoais — pobreza, amor, ciúme, perda e desejo — em canções de alcance universal. Sua obra lhe rendeu 11 prêmios Grammy, além do Grammy pelo conjunto da obra, reconhecimento que sintetiza a dimensão de uma carreira que atravessou gerações e gêneros musicais.
I Will Always Love You, escrita por Dolly em 1973, também produziu uma das histórias empresariais mais emblemáticas de sua carreira. Quando Elvis Presley demonstrou interesse em gravar a música, Dolly recusou-se a abrir mão de parte dos direitos de publicação exigidos para a gravação. A decisão preservou sua participação integral na obra. Anos depois, a versão de Whitney Houston transformaria a composição em um fenômeno mundial e ampliaria enormemente o valor de um patrimônio autoral que Dolly havia decidido não dividir.
Sua migração para o cinema e para a cultura pop de massa consolidou ainda mais sua imagem como uma força criativa. Em 1980, estreou em Hollywood com Como Eliminar seu Chefe (9 to 5), ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin. Além de atuar, Dolly compôs e interpretou a canção-tema do filme, que recebeu uma indicação ao Oscar e se tornou um símbolo associado à luta das mulheres por melhores condições e igualdade no ambiente de trabalho.

O cinema continuou sendo uma extensão natural de sua personalidade artística. Em A Melhor Casa Suspeita do Texas (The Best Little Whorehouse in Texas, 1982), voltou a combinar atuação e música, enquanto Flores de Aço (Steel Magnolias, 1989) mostrou uma faceta mais dramática e ampliou sua identificação com públicos que iam muito além do universo country.
Paralelamente ao sucesso artístico, Dolly revelou-se uma empresária perspicaz. Seu nome tornou-se associado ao Dollywood, parque temático criado em Pigeon Forge, no Tennessee, que se transformou em uma das principais atrações turísticas da região e em um dos pilares de seu império empresarial. A estratégia de Dolly foi transformar suas raízes, sua imagem e a cultura dos Apalaches em uma experiência comercial capaz de movimentar a economia local.

A filantropia, entretanto, talvez seja o aspecto que melhor explica a permanência de Dolly no imaginário popular. Em 1995, ela criou a Imagination Library, programa dedicado à distribuição gratuita de livros infantis. A iniciativa já ultrapassou a marca de 325 milhões de livros distribuídos, alcançando crianças em diferentes países. O projeto tornou-se uma das maiores expressões do compromisso pessoal da cantora com a educação e a alfabetização infantil.

Em 2020, Dolly também doou US$ 1 milhão ao Vanderbilt University Medical Center, em Nashville, para pesquisas relacionadas à Covid-19. O dinheiro ajudou a financiar pesquisas que posteriormente contribuíram para o desenvolvimento da vacina da Moderna.
No campo social, Dolly Parton também construiu uma relação particularmente forte com o público LGBTQ+. Em um gênero musical historicamente associado a valores conservadores, ela cultivou ao longo das décadas uma imagem pública baseada na tolerância, no amor ao próximo e na liberdade individual. Sua disposição para acolher pessoas de diferentes identidades e estilos, sem transformar diferenças em motivo de julgamento, contribuiu para fazer dela uma figura especialmente querida entre comunidades marginalizadas.
Essa identificação também dialogava com a própria persona de Dolly. As enormes perucas, os figurinos cobertos de brilho, a maquiagem exuberante e o humor autodepreciativo eram parte de uma personagem pública que ela controlava com extraordinária inteligência.
Por trás da aparência extravagante havia uma artista profundamente consciente do poder de sua imagem e, ao mesmo tempo, capaz de transmitir uma mensagem simples de aceitação e humanidade.

Talvez seja justamente essa combinação que explique a dimensão de seu alcance. Dolly conseguia ser simultaneamente uma estrela do country, uma celebridade de Hollywood, uma empresária milionária, uma compositora respeitada e uma figura admirada por públicos que raramente compartilhavam as mesmas referências culturais ou políticas.
