Poucas trajetórias no cinema mundial combinam rigor técnico, coragem artística e longevidade como a de Glenn Close. Aos 79 anos, a atriz estadunidense atravessa um dos períodos de maior visibilidade de sua carreira recente, transitando entre o cinema de autor europeu, grandes produções de apelo popular e o reconhecimento definitivo de uma indústria que, durante décadas, lhe concedeu prestígio sem lhe entregar a principal consagração.
O ano de 2026 começou com uma homenagem que simboliza sua permanência no imaginário cinematográfico. Em 1º de maio, durante o TCM Classic Film Festival, Close deixou suas marcas de mãos e pés no cimento do TCL Chinese Theatre, em Hollywood. O ritual, reservado a nomes de enorme relevância na história do cinema, celebrou uma carreira que já ultrapassa cinco décadas e reúne mais de cem créditos cinematográficos.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou que Glenn Close receberá o Oscar honorário no 17º Governors Awards, marcado para 15 de novembro, em Los Angeles. Será o reconhecimento pelo conjunto de uma carreira que inclui oito indicações competitivas ao Oscar, desde sua estreia em O Mundo Segundo Garp até A Esposa, passando por O Reencontro, O Natural, Atração Fatal, Ligações Perigosas, Albert Nobbs e Era Uma Vez um Sonho.
A distinção chega depois de uma das mais conhecidas sequências de indicações sem vitória na história da premiação. Mais do que corrigir décadas de injustiça no Oscar, o prêmio reconhece a amplitude de uma filmografia que nunca se limitou a um único tipo de personagem ou gênero. Close construiu uma carreira marcada tanto por papéis dramáticos quanto por figuras de personalidade extravagante, frequentemente transitando entre o cinema prestigiado e a cultura popular.

Esse segundo aspecto voltou ao centro das atenções em agosto. Durante a D23, convenção oficial da Disney realizada em Anaheim, a atriz surpreendeu o público ao reaparecer caracterizada como Cruella de Vil, personagem que interpretou nos filmes 101 Dálmatas, de 1996, e 102 Dálmatas, de 2000. Close entrou no palco durante a apresentação sobre as novidades dos parques da Disney e permaneceu em personagem para participar do anúncio relacionado à futura área dedicada aos vilões no Magic Kingdom.
A imagem recuperou imediatamente uma das personagens mais marcantes de sua carreira. A produção de 1996 transformou a Cruella de Close em uma figura de enorme impacto visual, ajudada pelo trabalho do figurinista Anthony Powell, vencedor do Oscar. Para a aparição na D23, a atriz usou um visual fornecido pela equipe de arquivos da Disney, com a característica peruca preta e branca, casaco e chapéu associados à personagem.

No cinema, entretanto, a atriz continua ampliando essa identidade. Um dos trabalhos mais singulares de sua fase atual é A Bola Preta (La bola negra), dirigido pela dupla espanhola Javier Calvo e Javier Ambrossi (criadores da minissérie “Veneno”). O longa integrou a competição do Festival de Cannes de 2026 e recebeu uma das recepções mais entusiasmadas da edição, com uma ovação que chegou a cerca de 20 minutos após a estreia mundial.
A repercussão não ficou restrita ao público. Calvo e Ambrossi dividiram o prêmio de Melhor Direção com Paweł Pawlikowski, de Fatherland, em uma das principais distinções do 79º Festival de Cannes. A conquista confirmou a força do projeto dentro da competição e colocou os chamados Los Javis entre os principais nomes do cinema espanhol contemporâneo.

A Bola Preta acompanha três homens em diferentes períodos — 1932, 1937 e 2017 — cujas histórias se conectam por desejo, perda, memória e uma obra inacabada de Federico García Lorca. Glenn Close integra o elenco ao lado de Penélope Cruz, em um filme que aborda a experiência homossexual em diferentes momentos da história espanhola e estabelece uma ponte entre passado e presente.
A participação em uma obra desse perfil reforça uma característica que acompanha Close desde o início da carreira: a capacidade de se adaptar a universos cinematográficos radicalmente diferentes sem perder a intensidade de sua presença em cena.

E a próxima grande transformação virá de um universo completamente diferente. Em novembro, Close estará em Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita, prequel da franquia baseada na obra de Suzanne Collins. O filme tem estreia nos cinemas marcada para 20 de novembro de 2026 e se passa durante o 50º Jogos Vorazes, também conhecido como Segundo Massacre Quaternário, 24 anos antes dos acontecimentos do primeiro filme da saga.

Close interpreta Drusilla Sickle, a acompanhante da Capital responsável pelos tributos do Distrito 12. É nesse contexto que a personagem cruza o caminho do jovem Haymitch Abernathy, protagonista da nova história, que aos 16 anos é lançado nos Jogos ao lado de outros tributos do distrito.
A escolha é particularmente interessante porque coloca uma atriz de enorme tradição dramática dentro de uma das franquias mais populares do cinema contemporâneo. Depois de viver Cruella de Vil e construir uma carreira associada a personagens de personalidade dominante, Close encontra em Drusilla mais uma oportunidade de explorar o universo exagerado, cruel e visualmente extravagante da Capital.

O conjunto dessas experiências exemplifica por que 2026 é um ano especial para Glenn Close. É uma combinação pouco comum de reconhecimento retrospectivo e atividade presente. Ela continua ocupando novos espaços, experimentando personagens distintos e encontrando maneiras de permanecer relevante para públicos de gerações diferentes.
Entre o prestígio de Cannes, a nostalgia de Cruella, a escala de Jogos Vorazes e o Oscar honorário que finalmente chegará em novembro, Close reafirma uma verdade que sua carreira vem demonstrando há décadas: algumas trajetórias não chegam simplesmente ao auge. Elas continuam se reinventando.
