Cynthia Erivo, Ariana Grande, Danielle Brooks, Andra Day, Lady Gaga, Mary J. Blige, Queen Latifah, Bette Midler, Diahann Carroll, Diana Ross, Doris Day, Peggy Lee e Judy Garland chegaram perto. Porém, até o momento, Julie Andrews, Barbra Streisand, Liza Minnelli, Cher, Jennifer Hudson e Ariana DeBose são as únicas cantoras que venceram o Oscar de atuação — as quatro primeiras na categoria de Melhor Atriz e as duas últimas como Atriz Coadjuvante.
O fato é que existem atrizes que sabem cantar, mas são raras as cantoras que dominam a arte de atuar. Trata-se de campos de expressão distintos. Por mais que uma artista da música domine os atalhos do seu ofício, incorporar uma personagem e distanciar-se de si mesma exige um esforço técnico e dramático complexo.
Construir a imagem de uma mulher empoderada, ambiciosa e dona do próprio destino é a cartilha básica de uma estrela pop, mas o patamar de maturação que consolida uma grande artista na música não garante sua versatilidade cênica. Acreditar que o topo das paradas seja um passaporte automático para o êxito cinematográfico é um equívoco. Quanto mais consolidada estiver a persona pública da cantora, mais difícil se torna convencer a plateia e a crítica de que ela não está apenas interpretando a si mesma.

As seis vencedoras do Oscar exemplificam origens e caminhos opostos na indústria. Julie Andrews e Barbra Streisand construíram carreiras sólidas na música tradicional e no teatro antes de dominarem o cinema.
Julie venceu de primeira por “Mary Poppins” (1964) trazendo a precisão técnica da escola britânica, e tornou-se a única cantora da história a acumular três indicações ao Oscar de atuação, sendo reconhecida posteriormente por “A Noviça Rebelde” (1965) e “Victor/Victoria” (1982).

Já Barbra triunfou logo em sua estreia em “Funny Girl: A Garota Genial” (1968), unindo sua força vocal ao papel de Fanny Brice. Anos mais tarde, em “Nosso Amor de Ontem” (1973), Barbra voltaria a ser indicada ao Oscar de atuação, provando seu alcance dramático máximo ao viver uma ativista política sem precisar cantar uma única nota em cena. A artista ainda conquistaria uma segunda vitória em 1977, desta vez como compositora da canção-tema “Evergreen”, da terceira versão de “Nasce uma Estrela” (1976).

Liza Minnelli e Ariana DeBose representam a formação clássica do teatro cênico, em que o canto e a dança funcionam como extensões da atuação dramática. Liza atingiu o ápice com sua icônica Sally Bowles em “Cabaret” (1972).

Décadas depois, Ariana DeBose repetiu o feito ao vencer como Anita no remake de “Amor, Sublime Amor” (2021), papel que já havia rendido a estatueta a Rita Moreno na versão de 1961.

No universo da música pop e R&B comercial, Jennifer Hudson e Cher quebraram a resistência histórica de Hollywood contra as estrelas das paradas de sucesso. Jennifer Hudson estreou com um impacto avassalador em “Dreamgirls: Em Busca de um Sonho” (2006), interpretando a talentosa e injustiçada Effie White.

Já Cher é a grande exceção do grupo: venceu o Oscar de Melhor Atriz pela comédia romântica “Feitiço da Lua” (1987) sem recorrer ao canto na tela. A vitória não foi um acaso, mas a coroação de uma trajetória dramática que já acumulava atuações aclamadas em “Silkwood: Retrato de uma Coragem” (1983) e “Marcas do Destino” (1985), pelo qual foi premiada no Festival de Cannes.
Quase lá… As indicadas

Se vencer a estatueta é um feito raro, a lista das indicadas que bateram na trave demonstra o alto nível exigido pela Academia. No ano passado, Cynthia Erivo roubou as atenções no papel de Elphaba em “Wicked” (2024), garantindo sua segunda indicação ao Oscar de atuação. Pelo mesmo filme, outra cantora Ariana Grande também foi indicada.
Danielle Brooks impressionou pela força de sua entrega em “A Cor Púrpura” (2023), enquanto Andra Day viveu a intensidade de Billie Holiday em “Estados Unidos Vs. Billie Holiday” (2021).
A primeira indicação de Cynthia Erivo havia ocorrido por “Harriet” (2019), quando, em uma performance austera e sem apoio de números musicais, ela provou que a verdadeira transição entre o palco e as telas acontece quando a força dramática se sobressai a qualquer acorde.
Lady Gaga colocou sua vulnerabilidade em cena em “Nasce uma Estrela” (2018), e Mary J. Blige impressionou a crítica por “Mudbound: As Lágrimas sobre o Mississippi” (2017).
Na década de 2000, Queen Latifah garantiu sua vaga entre as indicadas pelo ritmo e presença em “Chicago” (2002). Bette Midler, indicada duas vezes, já havia demonstrado seu domínio absoluto de cena em “Para Eles Com Muito Afeto” (1991) e uma entrega visceral em “A Rosa” (1979).
Nos anos 1970, Diahann Carroll abriu caminhos históricos ao disputar a estatueta por “Claudine” (1974), mesmo período em que Diana Ross brilhou ao encarar a cinebiografia de Billie Holiday em “O Ocaso de uma Estrela” (1972).
Voltando às décadas clássicas de Hollywood, Doris Day garantiu sua única indicação ao prêmio por “Confidências à Meia-Noite”. Peggy Lee recebeu uma indicação a Melhor Atriz Coadjuvante por Um Traz o Outro (1955) e Judy Garland entregou uma das atuações mais dolorosas e aclamadas do cinema em “Nasce uma Estrela” (1954), protagonizando uma das derrotas mais comentadas da história do prêmio.
