“Dona Marilda”, minha professora mais importante

Na minha memória afetiva mais profunda sobre o Dia do Professor, não há uma lição de gramática ou uma chatíssima fórmula matemática na lousa. Há Dona Marilda, professora de Educação Artística da sexta da série do ensino fundamental.
Com sua pele muito clara, cabelos escuros e olhos azuis marcantes, ela parecia ter escapado das páginas de uma fábula clássica para habitar o cotidiano escolar, lembrando inexoravelmente a Branca de Neve. Até mesmo a voz dela, de uma delicadeza extrema que nunca gostei, parecia se encaixar perfeitamente naquele encanto particular. Combinava com ela.

Dia do Professor @ IA

Dona Marilda não exercia o poder pelo medo ou pela distância; ela cativava pela leveza das suas aulas. Mais do que isso, foi sob sua tutela e a sensibilidade que despertou o meu interesse pelas artes. Eu já trazia comigo o amor pela música e pela televisão — paixões que, com o tempo, desembocariam no cinema e na literatura, além de outras vertentes da criatividade humana. Se hoje, a arte e comunicação ocupam o primeiro lugar de interesse da minha vida, foram nas aulas daquela professora que isso germinou.

Eu me lembro de uma lição no qual precisávamos criar uma arte usando algum elemento caseiro. Não pensei duas vezes quando vi a colcha de chenille laranja da cama de meus pais. Sem piedade, puxei uma boa quantidade de fios das franjas que caiam, cortei, coloquei numa grande flor num papel de sulfite. Adorei o resultado.

Assemblage com tampas de garrafas @ IA

Outra lição foi outra colagem (digamos que eu já gostava da Assemblagem, mesmo sem conhecer o nome desta técnica) de tampinha de garrafas envolvidas em papel laminado verde. Tinha que ser transportada com muito cuidado para não descolar.

Jorge Marcelo – Técnica de Assemblagem no ouro velho @ Acervo Pessoal

Foi justamente essa professora singular que protagonizou o instante mais marcante da minha infância escolar. A partir do segundo semestre, sob a batuta e a sensibilidade dela, começaram as aulas de canto de canções natalinas. Naquela época, escolas do interior do estado de São Paulo escolhiam alunos para formar corais, que iriam representar a cidade numa apresentação num estádio de futebol na capital. Eis que… Entre os escolhidos por ela… Eu!
Um ônibus fretado saiu de frente à escola para levar os alunos cantores para o imponente Estádio do Pacaembu, na capital. Para um menino do interior, a dimensão daquele estádio lotado era de uma monumentalidade avassaladora, quase incapaz de ser inteiramente processada na época. A apresentação aconteceu em um domingo e teve transmissão ao vivo pela TV Cultura, eternizando o momento em rede estadual.

Dia do Professor @ IA

Quase cinquenta anos se passaram desde aquele dia, e o sentimento exato daquela tarde de domingo está guardada na caixinha de memórias do meu subconsciente. Mas o que realmente me marcou reside no fato de ser escolhido. Talvez tenha sido a primeira vez na vida em que me senti verdadeiramente importante.
Enquanto a estrutura escolar tradicional tentava me enquadrar na obediência sem questionamentos, Dona Marilda me deu a mão, abriu as portas para o vasto mundo da criação e me permitiu cantar no centro de um estádio colossal. Não era sobre a autoridade de um mestre severo, mas sobre o afeto e o vislumbre estético de quem enxergava um aluno para além da carteira.
É por isso que, quando penso no real significado do Dia do Professor, a imagem que me acode não é a de um quadro negro, mas a de uma professora com olhar de princesa dos contos de fadas que me ensinou, pela primeira vez, que a arte importava e que eu cabia no mundo.

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