Exaustão me define neste momento sobre a eleição de 2026

Por Jorge Marcelo Oliveira

Aos meus 59 anos, não me lembro de uma campanha política de tão baixo nível quanto a que assisti nos últimos meses no Brasil. Os candidatos desceram ao fundo mais nojento de uma caixa de gordura entupida para desferir ataques aos seus opositores sem um pingo de ética.

Sei que a disputa dura faz parte do jogo político. O problema é que todos descenderam ao nível mais rasteiro da depravação pública com o único objetivo de destruir seus adversários diante de uma plateia sedenta de sangue. O espetáculo me lembrou os combates de gladiadores no Coliseu de Roma — cujas lutas se estenderam por quatro séculos a partir de 80 d.C. —, as multidões que se aglomeravam nas praças medievais para assistir a decapitações e enforcamentos, ou o delírio coletivo das fogueiras que queimavam pessoas acusadas de bruxaria.

Isso revela algo sombrio na própria condição humana: a facilidade com que impulsos primitivos de violência e punição são despertados e instrumentalizados sempre que o outro é reduzido à condição de um párea a ser exterminado.

Exaustão politica eleitoral 2026 @ IA

Quem acompanha a política brasileira com alguma bagagem histórica assistiu às eleições deste ano não com o entusiasmo do debate democrático, mas com o nó na garganta de quem presencia um espetáculo de degradação sem precedentes.

A disputa pública transformou-se em um show de horrores. Ainda que planos e propostas tenham sido formalmente apresentados, eles foram sumariamente atropelados pela violência dos ataques. De um lado a outro do espectro, o que se destacou foi o abandono prático de qualquer projeto de país em nome do espetáculo. O escrutínio de metas econômicas e a discussão sobre saúde, educação ou o futuro do trabalho foram varridos de cena pelo ruído do confronto. Em seu lugar, estabeleceu-se a tática da destruição mútua: vence quem consegue arrastar o adversário para o lamaçal mais fundo e gerar a réplica mais agressiva no corte das redes sociais.

O que testemunhei em 2026 foi o ápice do marketing político da rejeição. Sabendo-se incapazes de oferecer soluções reais para os gargalos estruturais do Brasil, os comitês de campanha entenderam que inflamar a rejeição ao oposto exige muito menos esforço técnico do que formular políticas públicas sustentáveis.

A violência verbal, os apelidos chulos, os ataques pessoais e o desrespeito aberto às instituições não são desvios de percurso ou impulsos incontroláveis; são escolhas calculadas. São ferramentas desenhadas para manter o eleitor em estado permanente de choque, impedindo-o de raciocinar com clareza.

Para os raros eleitores conscientes, o resultado desse ecossistema é o esgotamento. Sentir-se enojado diante das transmissões de rádio, TV e internet é uma reação humana e higiênica diante de tanta baixaria. É a recusa em aceitar que a gestão do Estado brasileiro seja decidida na base da lacração e do insulto.

Banalização da violência eleitoral @ IA

Quando o processo eleitoral se reduz a uma escolha forçada entre o ressentimento e o medo, a própria democracia perde o seu sentido formativo. O cidadão vai à urna não para construir o futuro, mas para tentar estancar uma ferida, anestesiado pelo cansaço e frustrado por ver que seu direito de escolha virou uma chantagem emocional.

Sabemos que o jogo político sempre teve seus bastidores duros e seus golpes baixos. No entanto, normalizar o fundo do poço como regra de convivência civilizatória é o maior risco que corremos enquanto sociedade.

A exaustão que senti em 2026 precisa ser canalizada não para a apatia — que é exatamente o que os operadores do caos desejam —, mas para uma exigência intransigente de resgate do nível do debate público.

Exigir respeito à inteligência do eleitor, cobrar propostas viáveis e recusar a infantilização das torcidas organizadas são os únicos caminhos possíveis para evitar que as próximas eleições sejam, novamente, uma disputa para ver quem desce mais fundo no esgoto da política nacional.

Sua opinião

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.