Filme Fashion: The Matrix

Em março de 1999 estreava mundialmente o filme de ficção científica mais influente da década – The Matrix (EUA).
Consagrado pela crítica e público e fortemente influenciado pela cultura cyberpunk, inovou com seus efeitos especiais – principalmente o Bullet – que virou clichê por ter sido inúmeras vezes copiado por outras produções.
Tamanha façanha fez o longa arrecadar U$ 463,517 milhões de dólares no mundo todo e vários prêmios, incluindo quatro estatuetas das indicações ao Oscar de 2000.  E como é de praxe, comercialmente falando, mais duas sequências foram levadas às telas em 2003. Não tiveram a aura de “obra-prima” do primeiro, mas de igual sucesso e cifras altíssimas (no total, a trilogia arrecadou U$ 1.632.994 bilhões (nota do editor).
A bilheteria milionária não é apenas justificada pela parte técnica de tirar o fôlego, mas também pelo ótimo roteiro cheio de diálogos bem sacados e direção primorosa dos irmãos Watchowski, pouco conhecidos até então.
O filme chegou aos cinemas sem muito alarde, mas rapidamente conquistou uma legião de fãs que o faria entrar para a lista dos 15 filmes mais vistos da história.
Argumento
Na trama, Thomas Anderson ou Neo (Keanu Reeves) é um entre os bilhões de seres humanos adormecidos através de conexão neural à Matrix, sem sequer imaginar que vive num mundo simulado. No universo do filme, por volta de 2199, a Terra fica devastada por causa de uma guerra ocorrida entre humanos e máquinas.
Nesse insólito cenário, os seres humanos derrotados tornam-se uma espécie de escravos em forma de “biobaterias” fornecendo, assim, a energia de que as máquinas precisam para substituir a função do Sol.
Em uma das falas mais significantes do filme, Morpheus (Lawrence Fishburne) pergunta: “Você já teve um sonho, Neo, em que você estava tão certo de que era real? Em que você fosse incapaz de acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre o mundo do sonho e o real?”.
Entre perguntas que geram mais dúvidas que respostas, o personagem de Neo, que afirma não acreditar em destino por não gostar da ideia de não estar no controle de sua vida, começa a encarar os fatos quando decide entre ingerir a pílula azul (representando ilusão) ou vermelha (a realidade) oferecida por Morpheus; optando pela segunda.
É quando Neo “acorda” para se tornar não apenas parte dos rebeldes remanescentes da guerra contra as máquinas, mas também “o escolhido” para salvar a humanidade desse simulacro.
Filosofia
A partir daí a trama cheia de referências como física quântica, pós-moderna, filosófica, budista, hinduísta entre outras no gênero, é direcionada para muitas perguntas e poucas respostas.
Assim, somos levados a crer que elas encontram-se dentro de nós e, por isso mesmo, o filme foi definido por muitos como niilista. Mas paradoxalmente tem forte analogia ao cristianismo na pele de Neo como “salvador” e seus seguidores. E contrapondo ao herói do filme, num contexto simbiótico de yin/yang ou como algozes do messias, temos um dos melhores personagens de vilão dos últimos tempos – o agente Smith – vivido pelo ótimo Hugo Weaving, em favor da Matrix.
Figurinos
Mas como todo filme de ficção que se preze, o visual é tão importante quanto um bom roteiro. E as qualidades visuais da trilogia foram acentuadas pela forte influência do figurino criado por Kym Barrett.
Os figurinos desenhados exibiram uma estética do pós-modernismo fashion, agradando um público ligado à inovação e estilo. Segundo especialistas, a moda Matrix motivou desempenho e criatividade, chegando a sugerir ideias de fetichismo e androginia. Como as roupas confeccionadas com vinil elastizado (material imitando o couro com ultra-brilho), que sempre simbolizam força, proteção, poder (masculino), sem esquecer o lado feminino e sensual.
As roupas justas da personagem de Trinity (Carrie-Anne Moss) serviram de inspiração para a calça Skinny. Os óculos escuros, botas, capas de couro e roupas de vinil remeteram aos punks e ao visual new age dos anos de 1960 e 70. É claro, com um toque ajustado aos novos tempos – embora Barrett não goste de afirmar essa influência.
Futurismo
No final da década de 1960 os filmes de ficção científica começaram a ganhar maior projeção em sucessos de bilheteria como Barbarella de Roger Vadim (1968) e 2001 – Uma Odisséia no Espaço e Laranja Mecânica, ambos de Stanley Kubrick, respectivamente produzidos em 1969 e 1971, entre outros. E vale ressaltar que, coincidência ou não, houve um aumento expressivo de avistamentos de OVINIs nesse período. Com tudo isso, o estilo de moda futurista emplacou não só nas vestimentas e acessórios, mas também na arquitetura e objetos de decoração da época. Blade Runner (Ridley Scott/1982) veio mais tarde e também deixou sua marca com o Trench Coat (herança da Segunda Guerra Mundial) usado pelo personagem de Harrison Ford, inspirado em clássicos dos anos 1940 e 50.
Matrix inspirou a indústria têxtil, que vem cada vez mais envolvendo pesquisas e criando tecidos com novas matérias-primas tecnológicas voltadas para roupas de ultra-elasticidade, com materiais que protegem contra os raios UV, de função anti-bactericida.
Tecnologia melhor aproveitada nos artigos esportivos proporcionando mais conforto e ajudando no desempenho dos atletas. E muitas pesquisas continuam sendo desenvolvidas e lançadas no mercado, principalmente nas semanas de moda.
Influências
Após o sucesso estrondoso do filme a influência no estilo visual das pessoas era fato. Nas baladas era comum encontrar os casacos escuros e longos, além dos famigerados óculos estilo Matrix estampados nos rostos dos mais descolados da época.
E vale lembrar também que enquanto os protagonistas com visual ultra-fashion lutavam no mundo virtual de Matrix, os resistentes rebeldes de Zion, cidade do único lugar restante e civilizado do planeta viviam com vestuário de fibras naturais, como se fosse criado por humanos e não máquinas.
Nas palavras da figurinista Barret: “Imaginamos que eles praticavam o cultivo hidropônico (…). Então, fizemos roupas que poderiam ter sido feitas de linho, de fibras naturais, fibras vegetais. Pesquisamos a China e a Mongólia antigas e olhamos as múmias (…) antes do advento da seda. (…)”. (extraído do site Notas da Produção.)
Música
Em 1999, a música eletrônica estava no auge e com muitas misturas de gêneros. E os irmãos Wachowski se saíram melhor no quesito combinação entre rock, metal e música eletrônica para a trilha sonora cheia de adrenalina do filme. Entre os destaques, estão Propellerheads, Rage Against the Machine e Marilyn Manson.
Para finalizar, não podemos esquecer que Matrix deixou o mundo virtual para entrar no real com todas as influências possíveis e imagináveis transformadas em dinheiro.
Não só com os produtos já citados nesta matéria, mas também com games, curtas-metragens de animação – Animatrix (coleção de nove contos sobre o mundo de Matrix), bonecos e afins.
E na gíria atual podemos facilmente dizer que Matrix causou!
(Colunista: Elaine Luze Neto)