Filmes Fashion: Gilda

Com a principal frase promocional Nunca houve uma mulher como Gilda, o clássico filme noir de 1946, dirigido por Charles Vidor, faria a cabeça de homens e mulheres nos quatro cantos do mundo.
Nem a atriz Rita Hayworth imaginou a influência que sua personagem teria, não somente no público e na crítica (mais pelo seu sex-apeal que trama), como também em sua vida privada.
Num dos desabafos mais conhecidos, a atriz de origem espanhola contou: ‘Os homens dormiam com Gilda e acordavam com Rita’. Mesmo com este lamento, o culto em torno do filme nunca acabou.
Rita foi a primeira atriz hollywoodiana nomeada de superstar, numa expressão criada pelo crítico do New York Times, Bosley Crowther. A partir daí, esta palavra foi propagada como o vento para simbolizar grandes estrelas do cinema, música, literatura, enfim qualquer profissional que se consagre mundialmente em alguma coisa – seja pelo talento físico ou intelectual.
Gilda é uma produção americana sem grande densidade dramática, mas cheio de frases marcantes com proposital cinismo criativo. E entre elas, uma das mais famosas quando Gilda diz: “Johnny, nome difícil de lembrar e fácil de esquecer”. Falas espirituosas que seriam copiadas à exaustão por outros filmes e programas de humor, virando jargões populares por décadas. Mas esse drama romântico, pelo menos implicitamente, dá vazão ao nosso imaginário com relação à “amizade carinhosa” entre os personagens masculinos.
O roteiro adaptado foi escrito pelas mãos femininas de Marion Parsonnet e Jo Eisinger e produzido pela então poderosa Virginia Van Upp com grande habilidade persuasiva sobre o figurão Harry Cohn, dono da Columbia (um dos maiores estúdios da época), que lhe dava carta branca nas produções – daí a probabilidade de uma sutil apimentada na trama. As roteiristas deram uma personalidade forte, marcante e sensualíssima à Gilda que Rita soube explorar brilhantemente e uma dubiedade divertida aos dois homens.
A estória
O filme conta a história de um americano vigarista em jogos de cartas, Johnny Farrell (Glenn Ford), que se aventura na Argentina durante a Segunda Guerra Mundial. Depois de vencer num jogo ‘suspeito’, ele é abordado por um assaltante. Mas tem sua vida salva por Ballin Mundson (George Macready), dono de um famoso Clube noturno que oculta um Cassino (algo ilegal no país). Descobrem uma grande cumplicidade e, rapidamente se tornam amigos, a ponto de Ballin o contratar como seu gerente.
Tudo vai bem até Ballin viajar e voltar casado com a misteriosa e sensual Gilda que se depara com Johnny, seu antigo amante – por quem foi e continua apaixonada na mesma proporção que o odeia, sem que seja especificado seu motivo. A única certeza
: ela fará tudo para acabar com a amizade entre seu marido e seu ex-amante.
É nesse cenário que a estranha relação entre os três personagens se estabelece. E para colocar mais lenha na fogueira, entre Johnny e Ballin existe um carinho especial. Quando finalizam cada frase tratando-se pelo primeiro nome, incomum à época. Além disto, o empresário confiar tanto no subordinado e amigo emergente, ao ponto de entregar-lhe o segredo do seu cofre.
Finalmente, Ballin também aceita que Gilda o traia, mas somente se for com Johnny. Em contrapartida o amigo nunca o trairia com a ex-amante, mas também não se importa que ela tenha seus casos com outros desde que Ballin não fique sabendo e não se magoe.
Intrigante, embora no final tudo se ajuste entre o casal protagonista. Também não existe qualquer ideia dúbia – mesmo porque a censura hollywoodiana não permitiria tal ousadia para a época. Talvez esse motivo associado ao glamour simbiótico da diva Rita-Gilda, tenha dado ao clássico a aura de Cult, inclusive para o público gay.
Os figurinos
Na antológica cena em que Gilda entra no palco do Clube, levemente embriagada, vestindo um tomara que caia preto de cetim, começa a “cantar” Put The Blame On Mame (na realidade, ela foi dublada por Anita Ellis), culminando com um strip-tease de uma de suas longas luvas, é considerado um detonador explosivo de sensualidade. Tão envolvente que fez os homens desejarem Gilda e as mulheres desejarem ser Gilda.
O vestido criado pelo figurinista Jean Louis valorizou ainda mais a deusa que estava no auge de sua beleza, aumentando todo o fascínio gerado em torno dela. Ela foi a primeira mulher a usar o modelo (hoje conhecido por tomara-que-caia) que é uma variação dos corpetes de século 15. Depois disso o vestido foi exaustivamente copiado, virou um clássico e nunca mais saiu de moda.
Nos anos 1950, o estilista Balenciaga fez esse decote com corpo justo e saia rodada, que é copiado até hoje. “Por causa das barbatanas e da estrutura rígida, o tomara-que-caia afina a cintura e mantém a postura reta”, explica Fran Scheck, modelista da Escola Sigbol Fashion, de São Paulo.
“Atualmente, ele é o modelo preferido das noivas e das atrizes de cinema nos tapetes vermelhos” (site Manequim – Editora Abril)). E de uma forma bem feminina, o estilo traz sensualidade e pode ser usado como vestido de festa ou no dia-a-dia. Ele vem sempre se renovando de forma descontraída, mas continua como símbolo de elegância.
Impacto

Se fosse hoje, a influência desse furacão chamado Gilda, iria além do figurino, e certamente geraria um número substancial de produtos baseados no filme. Segundo artigo publicado na época: ”Seu impacto foi tão grande que pôde ser medido até em megatons. Pouco depois da estreia do filme, a bomba que os americanos explodiram no Atol de Bikini, no pacífico, na primeira experiência nuclear em tempo de paz, foi batizada de Gilda, pela equipe que a construiu e trazia um desenho de Rita na Carapaça”.
No Brasil, as coisas não foram diferentes. De fantasia de carnaval a apelido de travesti, o nome Gilda foi usado até por torcidas adversárias ao Botafogo para ofender o seu então craque de caráter ilibado, mas exuberante, Heleno de Freitas também jogador da seleção brasileira. Sem dúvida uma espontânea publicidade universal.
Como Influência mais contemporânea vale lembrar a indiscutível criatividade de Michael Jackson no show This is it, em que usou cenas do filme Gilda na montagem de seu clipe Smooth Criminal todo em preto e branco.
Em setembro de 2011, o famoso vestido de Gilda, assim como outros 866 figurinos usados nos filmes da época de ouro do cinema – que fazem parte do acervo de John LeBold, do site Hollywood Legends Collection – foi colocado à venda. O valor arrecadado com a venda do acervo poderá chegar R$ 20 milhões. O dinheiro será doado para instituições de incentivo a cultura.
Finalmente
Justiça seja feita, o filme Gilda tem todos os artifícios que os americanos se especializaram. A bela e impactante fotografia de filme noir, de ângulos ousados e bem colocadas sombras que enriquecem a narrativa, que dão grande plasticidade visual. Cenários com a simplicidade elegante da art déco e um guarda-roupa impecável.
Destaque também para a trilha sonora envolvente creditada a Doris Fischer e Allan Roberts, embora sites especializados afirmem pertencer a Hugo Friedhofer (compositor de vários filmes clássicos).
Gilda entrou para a história, eternizada pelo brilho incandescente de Rita Haywort, uma das atrizes mais lindas que Hollywood já produziu.
(Colunista: Elaine Luze Neto) 

4 comentários

  1. Amei a matéria!!!! Assisti o filme mais de uma vez e sem dúvida, é um dos clássicos do cinema!! Acredito que nenhuma outra atriz faria Gilda como Rita e isso tornou o filme inesquecível!
    Parabéns amiga!!
    Beijos

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