Se é o fim da ‘tendência’… O que vem depois?

A cada dia, comprova-se que a palavra tendência perde seu sentido original. Daquilo que ‘irá acontecer’, tornou-se aquilo que ‘está acontecendo’. Para pior, começaram a usar ‘aquilo que já aconteceu’. Ou seja, a coisa ficou surreal.
Que lojista não precisa entender de moda para vender produto, sabe-se há anos. Até por que, vamos admitir, com raras exceções quem entende de moda não sabe vender alguma coisa. Para lojista, é impossível pensar em qualquer outra palavra no universo da moda que não seja ‘tendência’.
O desgaste da palavra deve-se a sua ineficácia enquanto significado atual. No passado, um ou dois criadores de moda determinavam os rumos da moda – numa época que eram conhecidos como ‘Ditadores da Moda’. Assim, todo mundo ‘copiava’ ou ‘inspirava-se’ nestes gritos. Porém, os tempos são outros.
Menosprezar o que um Marc Jacobs, Miuccia Prada, Tom Ford, Stella McCartney, Karl Lagerfeld, Alber Elbaz, Nicolas Ghesquière ou Giorgio Armani têm a dizer, é perigoso. Eles têm estilos completamente diferentes e dialogam com vários setores da moda. Como acreditar que apenas o que um deles criou terá importância numa indústria tão milionária, quanto à moda?
A questão é muito simples: fora bureaux de estilo – que trabalha com pesquisas para determinar os caminhos da moda, tendência virou palavra que empresário de moda usa para embutir no lojista a ideia que determinado produto é a ‘coisa mais quente do momento’. E consegue. O negócio piora em época de lançamento, quando lojista quer explicar a coleção, o qual, de cada três frases, duas contém a palavra ‘tendência’. Afff…
Agora, e o consumidor final? Então… 
Primeiro ponto: ele não é o mesmo do passado. A enxurrada de informação que recebe é muito grande. Ela chega via internet (a cada segundo), jornais (diários), programas de TV (semanais) e revistas especializadas (mensais). Hoje, é possível acompanhar a exibição de um desfile em Paria na tela do computador, no exato momento que ele acontece. Minutos depois, todas as fotos da coleção estão disponíveis para qualquer um.
Segundo ponto: aumentou a quantidade de revistas especializadas em moda no Brasil. Entre as mais conhecida, Vogue, ELLE, L’Officiel e Harper’s Bazaar brigam à foice para se destacar como formadoras de opinião. Pode-se não concordar com a linha editorial de alguma delas, contudo, é inegável entender sua importância. Acompanha-las mensalmente tornou-se cansativo. Numa mesma edição, editoriais de moda mostram peças da temporada de inverno ao lado de artigos sobre o verão internacional. Detalhe: ambos acontecem ao mesmo tempo! A leitora, coitada, precisa ter um filtro para separar uma coisa da outra e não sair por aí usando casaco, cachecol, rasteirinha e brinco de plástico em formato de abacaxi!
Terceiro ponto: a compreensão sobre seu estilo pessoal. Uma vez que a palavra ‘tendência’ se esgota, então, o que comprar? Roupas que combinem com você! Este é ponto. Percebeu a quantidade de ‘personal stylists’ que surgiu nos últimos tempos? É um reflexo do final da ditadura da moda. São profissionais que trabalham em cima do estilo individual, respeitando a identidade pessoal e propondo uma ampliação das possibilidades para um guarda-roupa mais funcional e elegante. Um bom profissional vai abrir o guarda-roupa da cliente, entender qual é seu estilo e, a partir daí, traçar um perfil daquilo que realmente funciona ou não. É um trabalho de ‘dentro para fora’, ou seja, primeiro, é na casa da pessoa. É igual decoração. Não adianta o profissional querer empurrar um móvel clássico para um cliente moderno e minimalista. É perda de tempo! O ‘personal stylist’ trabalha com o mesmo ponto de partida. Ele vai trabalhar com o ‘estilo’. Assim, a consumidora de moda consumirá as ‘novidades’ das marcas/lojas que melhor representam o que ela é. Não importa se é ‘tendência’ ou não. Mas ela estará moderna e elegante.
(Colunista Jorge Marcelo Oliveira)