Desde cedo, mesmo sabendo que não tinha o rosto mais bonito, nem o cabelo mais incrível, Bette Davis sabia de uma coisa: seria uma atriz. Para isto, contava com quatro coisas: garra, persistência, talento e uma língua muito ferina.
Sua primeira experiência ocorreu em 1923 na peça off-Broadway “The Earth Between”. Mas só chegou a Broadway, 1929, na peça “Broken Dishes”. Depois, viajou de trem para Hollywood, onde participou de vários testes. Só ganhou um pequeno papel em ‘The Bad Sister’, uma produção da Universal de 1931, porque o diretor de fotografia, Karl Freund, afirmou que ela tinha ‘lovely eyes’. Carl Laemmle, o poderoso chefão do estúdio, comentou com outro executivo, que ela tinha tanto sex appeal quanto o feioso comediante Slim Summerville. Ou seja, foi um balde de água fria. Seus próximos quatro filmes também não chamaram a atenção.
Quando se preparava para voltar para Nova York, o ator George Arliss indicou seu nome para atuar ao seu lado em ‘O Homem Deus’. O jornal The Saturday Evening Post escreveu: ‘ela não é exatamente bonita, mas borbulha com seu charme’. Foi o que precisava para a Warners Bros. a contratar por cinco anos, ao longo dos quais fez pequenas aparições em quase 20 filmes. Até que, em 1934, conseguiu o papel de Mildred Rogers, uma garçonete amoral e sem escrúpulos, em ‘Escravos do desejo’, sucesso de público e crítica. Ela tinha certeza que seria indicada ao Oscar, contudo, isto não aconteceu. No ano seguinte, com o papel de Joyce Heath em ‘Perigosa’, veio sua primeira indicação e vitória no Oscar.
O Oscar e o Sucesso
Louca da vida por perder o papel de Scarlett O’Hara para a inglesa Vivien Leigh, exigiu do estúdio um bom filme. Ele chegou em ‘Jezebel’, onde interpretou Julie, uma aristocrata altiva (a cena mais famosa acontece quando ela chega a um baile usando um vestido vermelho, enquanto todas as moças usavam cores claras e delicadas). Recebeu seu segundo – e último – Oscar. Seria indicada mais oito vezes. Com o sucesso da produção, entrou para o seleto grupo das mais bem pagas de Hollywood.
Na década de 40, foi a atriz mais lucrativa da Warner, tendo estrelado ‘Tudo Isto e o Céu Também’, o campeão de bilheteria em toda a carreira. Em 1941, foi a primeira mulher a se tornar presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Foi também uma das fundadoras do Hollywood Canteen, programa que arrecadava fundos e levava entretenimento aos soldados durante a Segunda Guerra Mundial. Pelo trabalho, recebeu uma medalha de honra do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
No início dos anos 50, interpretou Margot Channing, uma premiada atriz da Broadway, envolvida numa teia de conspiração de uma perigosa fã, Eve Harrington, em ‘A Malvada/All About Eve’. Depois de receber o convite, Bette aceitou fazer o filme e disse que era um dos melhores roteiros que já tinha lido. O filme foi aclamado pela crítica (ganhou 14 indicações ao Oscar, levou seis, incluindo o principal) e muitos consideram Margo Channing um dos grandes destaques de sua carreira (rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes), que, pouco depois, entrou em declínio.
A última indicação ao Oscar aconteceu no terror ‘O que teria acontecido com Baby Jane?’, foi em 1962. Dois anos depois, ela estrelou ‘Com a Maldade na Alma’, ao lado de Olivia de Havilland, Mary Astor e Agnes Moorehead (que conheceria o sucesso anos depois no papel de Endora, a mãe de Samantha, na série ‘A Feiticeira’). Este foi seu último grande papel.
Nos próximos anos, dividiu seu tempo entre papéis na TV e em peças off-Brodway.
A Decadência, a Televisão e outro reconhecimentos
Em 1977, Bette tornou-se a primeira mulher a receber do American Film Institute pelo conjunto de sua obra. Após o prêmio, recebeu algumas propostas de trabalho. Em 1978, atuou na minissérie para televisão, ‘The Dark Secret of Harvest Home’ e no filme ‘Morte sobre o Nilo’, baseado no livro Agatha Christie. Em 1979 ganhou o Emmy por sua atuação no telefilme ‘Strangers: The Story of a Mother and Daughter’.
Em 1981, seu nome voltou a mídia com a canção ‘Bette Davis Eyes’, na voz de Kim Carnes, que se tornou um sucesso mundial. Isto a apresentou a uma nova geração.
Depois da gravação do piloto da série de TV, ‘Hotel’, foi diagnosticada com câncer de mama e fez uma mastectomia. Duas semanas depois, sofreu quatro derrames, causando uma paralisia na parte esquerda rosto e braço. Com intensas sessões de fisioterapia, praticamente, voltou ao normal.
Aos 79 anos, ela participou do delicado ‘As Baleias de Agosto’, de Lindsay Anderson, no papel da irmã cega de Lillian Gish (atriz do cinema mudo, que estava com 94 anos). O filme recebeu ótimas críticas.
Sua última atuação foi no trash ‘A Madrasta’, em 1989. Era uma estória de mãe e filha que são descendentes de bruxas, que resolvem trocar de corpo para garantir a vida eterna. No meio das filmagens, mesmo com a saúde frágil, Bette se desentendeu com o diretor, afirmando que seu papel era pequeno em detrimento a Barbara Carrera e simplesmente foi embora.
Depois disto, com a língua mais ferina do mundo, divertiu os fãs – velhos e novos – participando de diversos talks shows, como Joan Rivers, Johnny Carson, Larry King e David Letterman.
De 1988 a 1989, foi celebrada em diversas premiações internacionais, incluindo uma na Espanha. Na época, já diagnosticada com câncer, fez enorme esforço para receber o prêmio, contudo, sem forças para voltar aos EUA, morreu em 08 de outubro de 1989 na França, aos 81 anos.
Na sua lápide, em Forest Lawn, cemitério de Hollywood Hills, Los Angeles, está escrito: ‘Ela fez o caminho mais difícil’.



Você precisa fazer login para comentar.