MONDO MODA entrevista Costanza Pascolato

Um dos nomes mais respeitados da história da moda nacional, a empresária, consultora e colunista de moda, Costanza Pascolato veio para o Iguatemi Campinas, na quarta-feira, 19 de outubro, em celebração dos 30 anos da Spezzato.
Com muito bom-humor, inteligência e lucidez (no alto de seus 78 anos), ela conversou com o Publisher MONDO MODA, Jorge Marcelo Oliveira. (entrevista transcrita na íntegra, sem cortes).

Jorge Marcelo Oliveira e Costanza Pascolato - Outubro 2016 @ Flávio Casagrande
Jorge Marcelo Oliveira e Costanza Pascolato – Outubro 2016 @ Flávio Casagrande

MONDO MODA: Qual a pergunta que nunca te fizeram?
COSTANZA: Gente… Sei lá… Pera aí… Pra ser engraçadinha, eu preciso lembrar do Oscar Wilde. Ele sabia… Não tenho ideia. Eu lembro das coisas que ele falou, mas eu não posso plagiar deste jeito. Então… Ah! Esta pergunta nunca me fizeram… Me fizeram muita pergunta, mas quase tudo igual.
MONDO MODA: Então… É sempre aquela coisa… Você é uma pessoa que trabalha com moda há tantos anos… Com o título de Papiza da moda e tal… Não tem uma hora que você fala assim ‘tipo’… ‘é’…
COSTANZA: A coisa que ninguém entende, sobretudo o pessoal que é jovem, é que como base… Eu nunca fiz um estudo de moda, mas como base eu fiz história da arte. Que é um negócio a partir da estética que eu me guiei. Eu tive a sorte e o privilegio de… Isto ninguém me perguntou jamais… Eu trabalhei com os melhores artistas dos anos 60 e 80, como Darel Valença Lins, (Gregório) Gruber, (Marcelo) Grassman, que fazia gravuras, o pai de Gruber (Mário), Aldermir (Martins), Wesley (Duker Lee), (Luis Paulo) Baravelli… Toda esta eu conheci… Eu fazia gravura, mas seu sou muito ruim. Quer dizer, eu nunca mais fiz, mas quando vejo hoje… Eu acho bacana, mas eu não faria mais.
MONDO MODA: Como você faz a relação Arte e Moda?
COSTANZA: Estética… Você tem noção de… Ainda mais daquela época e não de hoje. Você faz um ‘instalation’ e você fala que está tudo feito e conta uma estória. Não é bem assim. Eu nasci na Itália, na Toscana. E eu fiz História da Arte durante… Sei lá, todas minhas férias de adolescência, eu fazia História da Arte. Tudo que é clássico, renascentista, Idade Média… Eu gostava de Flamengos e tudo. Eu aprendi… O olhar é muito treinado desde pequena. A moda começou com uma estrutura escultural em volta do corpo. Depois que foi ficando uma coisa mais próxima… O corpo cada vez mais revelado e assim por diante. Mas entenda que… São 50 anos de profissão. Quando eu comecei, eram os anos 70, na revista, eu já tinha quase 15 de experiência com minha mãe. Eu assistia todos os desfiles. A gente fazia seda pura aqui e exportava para Dior e para Chanel. E eles proibiam… Não era para por Made in Brazil. Entendeu?
MONDO MODA: Não podia?
COSTANZA: Não, pois eles queriam vender como francês. Na época.

Jorge Marcelo Oliveira e Costanza Pascolato - Outubro 2016 @ Flávio Casagrande
Costanza Pascolato – Outubro 2016 @ Flávio Casagrande

MONDO MODA: E falando sobre isto… O que te cansa, hoje, em moda?
COSTANZA: O que cansa é… Nada. Eu ainda me interesso… Sabe por quê… No fundo, é reflexo de comportamento de época. Então, através do que eles fazem, que acontecem na moda, eu entendo a minha época que estou vivendo neste momento. Isto me rejuvenesce a beça. Me deixa mais ligada com o contemporâneo. Entende? Mesmo porque, ainda hoje, eu tenho o privilegio de poder assistir tudo lá fora.
MONDO MODA: E o que você desta dança das cadeiras que está acontecendo no cenário internacional? Quando você começa a se acostumar com o estilo de um estilista, ele já está sendo trocado. Como você enxerga isto?
COSTANZA: Eu enxergo… Até já falei um pouco sobre isto… Porque na Vogue eu não posso falar… Eles têm…
MONDO MODA: Eles têm interesses comerciais…
COSTANZA: Você sabe que revista ficou demodê por causa disto também (risos)… Com a liberdade que a gente tem na internet ficou meio… Mas a questão é o seguinte: a dança das cadeiras acontece porque não tem mais imposição do estilo de ninguém. Eles vão atrás do mercado com um todo. E o luxo que é representado, não digo aqui no Brasil, mas no mundo… Por estas passarelas… Expandiu demais. Expandiu a tal ponto que hoje eles precisam ter um lucro X, Y e Z, e não conseguem mais ampliar o mercado, porque o mundo está todo meio que encolhendo. Depois destes anos passado que, não só a Rússia comprava, a China, a Europa continuava comprando um pouco… Brasil emergente que comprava um pouco também… Então, eles tinham feito um boom ali, que eles programaram para mais uns 10 anos. Na verdade, não é isto, né?
MONDO MODA: Esta velocidade de informação de moda também seja responsável por esta troca de cadeiras?
COSTANZA: A troca de cadeiras… Porque eles estão testando novas maneiras de fazer o mesmo… Nem que seja com cara de novo. Eles, hoje, devem fazer os contratos que um jeito que não fiquem tão presos como foi com… Eles inventaram aquela coisa do John Galliano…
MONDO MODA: Pois é… Ele foi genial… Continua genial.
COSTANZA: Não é mais. Mas ele foi. Aquilo lá foi um truque, né? Para tirar ele de lá… Pois eles estão testando outros caminhos que também não deram certo.
MONDO MODA: Raf Simons ficou uns quatro anos.
COSTANZA: Nem isto, parece.

Jorge Marcelo Oliveira e Costanza Pascolato - Outubro 2016 @ Flávio Casagrande
Jorge Marcelo Oliveira e Costanza Pascolato – Outubro 2016 @ Flávio Casagrande

MONDO MODA: Mudando de assunto, você lançou o livro há seis anos.
COSTANZA: Seis? Não. Mais… A gente lançou em 99 e a gente relançou em 14.
MONDO MODA: O que você trouxe de novo?
COSTANZA: A introdução da internet que mudou tudo. Tirei os capítulos que não tinham mais nada a ver com esta lentidão toda… E opiniãozinha… Porque na época não tinha internet, nem blogueira.
MONDO MODA: E você é uma pessoa que está no YOUTUBE. É uma pessoa antenada com isto.
COSTANZA: Eu tive aquele programa porque adorava fazer com a Marilu. E eu tenho só… Ah, sei lá… Eu estou sempre tem todo o lugar.
MONDO MODA: Mas não é bom ter esta agilidade?
COSTANZA: Eu adoro. Eu vou fazendo. Eu preciso testar.
MONDO MODA: Você acha que o fenômeno da blogueiras continua…
COSTANZA: Têm umas que… Deu uma encolhida, porque não é tudo mundo que… Eu acho que tem algumas que continuam sim. Que elas entenderam como se promover e como ser a imagem ideal para certas marcas. E têm umas que estão aparecendo aí para marcas pequenas que funcionam no mercado delas… Ganham dinheiro… Interior de Minas… Interior de Mato-Grosso… Têm as meninas próprias para aquele mercado, pois obviamente é uma coisa de pulverização.

Livro Essencial Costanza Pascolato @ Divulgação
Livro Essencial Costanza Pascolato @ Divulgação

MONDO MODA: E… 30 anos de Spezzato… E você está em Campinas, inclusive, fazendo esta homenagem…
COSTANZA: Eu os conheço há 20, né? Quer dizer… Eles são meus clientes também, então…
MONDO MODA: Fala rapidinho sobre um painel da moda nacional do que você enxerga hoje.
COSTANZA: Painel?
MONDO MODA: Não, painel não que fica um negócio longo. Uma visão rápida sobre a moda nacional atual.
COSTANZA: Então… Eu acho que a vocação brasileira é varejo. Não é assim… ‘ah, criação…’ Mesmo porque isto não tem mais em lugar nenhum. Hoje em dia é varejo mesmo. É como você vai conseguir alcançar uma linguagem própria para o momento… As pessoas que você… Para quem pensou esta roupa toda.
MONDO MODA: Tá. Muito bem. Muito obrigado. Foi um prazer te rever.
COSTANZA: Que bom!
MONDO MODA: Posso pedir uma foto com nós dois?
COSTANZA: Claro.
(Fotos: Flávio Casagrande)