Sobre o cancelamento da exposição Queermuseu e o fascismo

Jorge Marcelo Oliveira @ Selfie

Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira

Fazia um bom tempo que não encontrava o assunto ARTE sendo comentado tanto quanto nos últimos dias, graças ao infame cancelamento da exposição Queermuseu no Santander Cultural, em Porto Alegre. Infame, claro. ARTE é um campo tão reduzido no cenário nacional, que, se não fosse o conceito Queer, a exposição passaria em brancas nuvens pelos reacionários, religiosos e homofóbicos munidos pelos conceitos fundamentais do fascismo.
Qual outra explicação para todo esse barulho a não ser fascismo? Duvido que os apoiadores desses movimentos das direitas mais radicais pisaram numa galeria de arte ou num museu para se apropriar dos argumentos mais rasteiros para condenar a exposição. Impossível que alguém em plena ciência de suas faculdades mentais acreditaria que a ARTE tem a força para estimular Pedofilia, Zoofilia ou qualquer outra Parafilia. Infelizmente, meus caros, ARTE é fundamental na existência da humanidade, mas ela não tem esse poder modificador social.
ARTE não tem que ser ‘bonitinha’, ‘limpinha’ ou ‘colorida’ para combinar com o sofá da sala ou a mesa da cozinha. ARTE é uma manifestação feita pelo homem que transforma em imagem uma emoção. Seja alegria, tristeza, medo, coragem, mentira ou verdade. ARTE é para provocar uma reação. Não para ser usada como objeto da suposta simetria do perfeito conhecida como ‘beleza’.

Obra de Bia Leite @ divulgação

O quadro da Monalisa de Leonardo Da Vinci retrata uma mulher sem atrativos da beleza clássica ou da estética perfeita, porém, é uma das obras mais importantes da história da humanidade. Sua imagem é um ícone da cultura popular. Muita gente não sabe o nome da obra, mas certamente já viu sua imagem em algum momento da vida. É um exemplo que ARTE não tem que retratar o bonito para ser aceitável.
Claro que os fascistas de plantão, travestidos de Haters que utilizam a internet para pregar seu evangelho da moralidade, não estão preocupados em pensar ou argumentar. Eles querem destilar sua verdade a tudo aquilo que foge da ‘normalidade’ vigente, atacando a tudo e todos como um Matador Profissional. Eles têm cartilhas de instruções sobre ‘o que pode’ e o ‘o que não pode’ mostrar na televisão, cinema, teatro, internet e, quem diria, nos espaços culturais. Usam expressões como ‘esquerdistas’ a todos que questionam valores. Colocam na mesma vala ordinária da falta de fundamentação lógica todos aqueles que não concordam com seus argumentos fascistas. Pregam o controle e a censura.
Uma sociedade justa e igualitária é livre. É a base da democracia. Porém, fascistas não concordam com isso. Eles usam os mesmos argumentos do fascismo e nazismo para pregar a restrição de liberdade de expressão. Eles não querem liberdade. Eles querem impor suas regras. Esse é o fato.

Obra de Rogério Nazari @ Reprodução

Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira contava com mais de 270 obras, que exploravam a diversidade dos gêneros, de 85 artistas, como Adriana Varejão, Bia Leite, Lygia Clark, Candido Portinari, Leonilson e Fernando Baril. Duvido que algum dos integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) conhece alguma obra deles e muito menos de sua importância no cenário internacional. Conhecer para quê? Isto não importa. Eles fazem ‘obra de arte’. São subversivos e profanadores da moral vigente. Só isto basta para não serem respeitados.
Endossando o absurdo do cancelamento da situação, dois promotores do Ministério Público do Rio Grande do Sul, foram ao Santander Cultural. Chegaram a seguinte conclusão: “Fomos examinar in loco, ver realmente quais obras que teriam conteúdo de pedofilia. Verificamos as obras e não há pedofilia”. Ok, quer dizer que para tentar apaziguar os exaltados ânimos dos fascistas, o Ministério Público deu um aval sobre uma exposição de arte. Mas… Por que o Banco não os convidou ANTES DE CANCELAR a exposição? Pior: por que um Banco deste porte foi conivente aos pensamentos fascistas desse grupo?
Gente… Como uma capital, como Porto Alegre, se presta a entrar para a história como a cidade mais conservadora do Brasil. Que título mais bonito, hein?
O que nos resta fazer? Esperar que essa exposição venha para São Paulo. Na íntegra!
Sem mais.