Artigo: Confissões de um (quase ex) viciado em polêmica

Recentemente, encontrei uma definição sobre Empatia: “Não é sentir pelo outro, mas sentir com o outro. Quando a gente lê o roteiro de outra vida. É ser ator em outro palco. É compreender. É não dizer ‘eu sei como você se sente’. É descer até o fundo do poço e fazer companhia para quem precisa. Não é ser herói, é ser amigo. É saber abraçar a alma”.
Foi uma definição que me tocou. Alegro-me e sofro por acontecimentos variados – seja de pessoas próximas, seja por injustiças sociais. No passado, cheguei a ser ativista por acreditar numa causa.
Depois, viciei me em gritar aos quatro cantos diante de tudo o que me incomodava. É da minha natureza combativa no seu estado mais primitivo
Não tenho a data precisa quando comecei a expor minhas opiniões nas redes sociais. Talvez quando meu trabalho – como Jornalista, Editor de Estilo, Produtor de Moda e de Figurinos – começou a ter visibilidade, fui ganhando ‘amigos virtuais’ e, por ventura, seguidores? Quanto mais pessoas surgiram, mais fui expondo minhas opiniões. Eu entrei no processo de ‘desmascarar’ meu dia-a-dia.
Nas redes sociais, relatava o mau atendimento em estabelecimentos, os problemas no trânsito, denunciava situações desagradáveis que passava, entre outros. Aquilo foi se tornando uma avalanche. Conforme crescia o número de pessoas que comentavam – tanto no virtual quando no pessoal, mas me sentia ouvido. Minha opinião reverberava aos quatro ventos.

Desfile polêmico @ divulgação

Consequências

O resultado disso foi diverso. Para meu ego, o lado bom foi saber que minha opinião tinha peso e despertava admiração e respeito. Era uma forma de adquirir poder. Para minha autoestima também foi válido. Porém, conquistas geram responsabilidades.
Não irei detalhar todos os problemas, mas garanto que foram muitos. Pior: houve perdas. Algumas muito sérias. Comprei brigas desnecessárias. Envolvi-me em problemas alheios. Tomei as dores de outras pessoas. Enfim…  No final das contas, só me causou mal estar. Sou uma pessoa que me arrependo de poucas coisas que fiz, pois, procuro entender que eram coisas que eu acreditava na época. Porém, veja bem: assim como usar calça e camiseta amarelo ouro (nos lamentáveis primeiros anos da década de 80), existem coisas idiotas que a gente não precisa repetir, certo?

The Runway’s Project @ divulgação

Mudança de rumo

Num sábado de março de 2015, minha mãe perdeu a lucidez. O diagnóstico foi um estágio avançado de Mal de Alzheimer. A partir daquele momento, fui uma sucessão de situações lamentáveis. Tudo muito rápido. Duas internações – a primeira de 23 ou 24 dias e a segunda de 40 dias, até sua morte em dezembro, minha vida mudou. Sem ninguém para me ajudar, eu me virei sozinho. Impossível contratar alguém – assim como era impossível interná-la. Ninguém aceitou me ajudar. Somente nos últimos dias de sua vida, tive apoio de uma médica e de enfermeiros de um Serviço de Atendimento Domiciliar.
Mesmo com a doença, fui me esforçando para continuar meus trabalhos. Sinceramente, não sei explicar como eles aconteceram.
Em dezembro de 2015, minha mãe morreu. O processo do luto foi longo, difícil e solitário. Quando acreditava que estava bem, era pego de surpreso com um profundo sentimento de tristeza. Foi um looping de emoções conflitantes  Entrei num processo de ansiedade. Comecei a perder o sono na madrugada. Minha taxa de colesterol e triglicérides aumentou. Cheguei a emagrecer.
Diante da quantidade de problemas que estava vivenciando, resolvi me calar. Deixei de comentar qualquer coisa nas redes sociais, escrever ou compartilhar matérias. No fundo, fragilizado, não estava a fim de entrar em qualquer polêmica. Pessoas se viciam em polemizar. Pode acreditar.

Tamara de Lempick – Group-of-Four-Nudes – 1925 @ courtesy http://www.tamara-de-lempicka.org

Processo de Recuperação

Meu olhar se voltou ao otimismo. Fotos de cachorros, viagens, comidas, decoração e outros que não exigiam qualquer comprometimento. Aliado a isso, deixei de seguir pessoas que não tinham nada a ver comigo. Sabe aqueles tipos que publicam fotos de espancamento de animais com o intuito de fazer ‘denúncia’. Oi?

Depois, foram os radicais de ‘direita’ ou ‘esquerda’. Deus me defenda
Mesmo sem fazer terapia (não fiz, mas recomendo), foi um longo processo.

Hoje… Estou aprendendo que não preciso me reafirmar a todo post, comentário ou crítica. Estou descobrindo que o silêncio é poderoso. Assim como a observação.
Percebi que foi uma ótima atitude. Não virei um robô, claro. Meu senso de justiça continua firme e forte, porém, hoje, desabafo, grito, choro, troco opiniões com meus amigos pelo telefone, Whatsapp ou Messenger. Quando possível, pessoalmente.
De vez em quando, não resisto em comentar alguma coisa quando alguém compartilha ou escreve algo curioso, porém, ainda fico muito atento para não elevar o tom. Mas escolho a quem comentar, pois tem gente muito doente! Eventualmente escrevo um artigo. Mesmo assim, pontuo exatamente o que dizer.
Enfim… Minha opinião tem um peso. Mas, sinceramente, se não estiver contratado por alguma empresa que me remunere para saber o que penso, por que ficar emitindo opiniões de graça?

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