A fascinante história da atriz Julie Andrews

Julie Andrews é responsável por alguns dos personagens mais memoráveis que marcaram a infância de várias gerações. Ela foi a primeira Mary Poppins, em 1965, que voltará às telas nessa semana reinterpretada por Emily Blunt em ‘O Retorno de Mary Poppins’, a decidida Irmã Maria von Trapp no delicioso ‘A Noviça Rebelde/The Sound of Music’, de 1966 e a Victoria no sensacional ‘Victor/Victoria’, de 1982.
Dona de uma voz única, clara e límpida, ela deu um toque especial em cada personagem, garantindo uma empatia e carisma inigualável.
Críticos de cinema e colegas de trabalho a classificam com a melhor atriz/cantora da história de Hollywood. Nunca deixou que seu ego superasse sua atuação (nota do editor: apesar do inegável talento de Barbra e Cher, são raros os papéis que ambas deixaram o ego em favor do personagem). Julie é verdadeira. Nunca foi uma ‘poser’.
Com um voz marcante (soprano com voz que chegava a variar de C3 a E7 4 oitavas), Julie falou para todos os públicos como se cada um tivesse uma importância. Tanto no cinema quanto nos palcos, ela se mostrou generosa. Em 1996, recusou a indicação ao Tony pelo papel que certamente a premiaria pela montagem para os palcos de ‘Victor/Victoria’. Ela ficou indignada por ser a única atriz do elenco a ser lembrada ao prêmio. Conhece alguma outra que teria feito o mesmo?
Porém, ao contrário do imaginário popular de uma suposta perfeição, Julie passou por alguns momentos complicados.

Julie Andrews @ Getty Images
  1. Ela sobreviveu ao abuso infantil. Aos quatro anos, seus pais se divorciaram. Sua mãe se casou com Ted Andrews. Como Julie revelou na biografia ‘Home’, seu relacionamento com a mãe não era das melhores. ‘Minha mãe foi terrivelmente importante para mim e sei o quanto aprendi com ela na minha infância… Mas eu não tenho certeza o quanto confiava nela’. A mãe era alcoólatra e o padrasto também bebia. Em duas ocasiões, ele tentou ir para a cama de Julie. Ela começou a trancar a porta do quarto para evitar uma terceira tentativa.
  2. Apesar disso, foi Ted Andrews quem descobriu que ela possuía uma voz desenvolvida aos sete anos. Ela começou a ter aulas de canto com Madame Lilian Stiles-Allen. Dois anos depois, ao lado da mãe (pianista) e do padrasto, ela se apresentou para as tropas britânicas durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945. Três anos depois, ela subiu aos palcos da West End, em Londres, onde faria sua estreia. Em 1954, estrelou ‘The Boy Friend’ na Broadway.
  3. Aos 14 anos, ela descobriu que a mãe mentiu sobre a identidade de seu verdadeiro pai. A revelação aconteceu numa noite que cantou na casa de amigos da mãe. Após sua apresentação, o dono da casa se sentou ao seu lado, causando uma estranha reação entre ambos. Mais tarde, a mãe contou a verdade.
Audrey Hepburn e Julie Andrews @ Getty
  1. Depois da estreia na Broadway, ela fez uma bateria de testes pesados para o papel de Elsa Doolittle na montagem nos palcos de ‘My Fair Lady’. Passou, estrelou e a peça foi um inigualável sucesso. Aos 22 anos, recebeu sua primeira indicação ao Tony de Melhor Atriz. Porém, foi um choque saber que a Warner faria a versão para às telas do musical estrelada pela belga Audrey Hepburn, que NÃO CANTAVA, mas já era uma estrela de Hollywood. “Eu amaria ter algumas coisa de ‘My Fair Lady’… Naquele tempo, eles não arquivavam nada… Eu entendi perfeitamente a escolha [de Audrey]. Eu realmente não tinha expectativa. Assim como em outras montagens da Broadway daquela época, eles escolhiam pessoas diferentes para fazer as versões para às telas”. Uma pessoa não gostou da decisão: Audrey Hepburn. Julia se recorda da conversa: “Você deveria ter feito ‘My Fair Lady’, Julie – mas eu não tinha forças para mudar a decisão”. No filme, Audrey foi dublada pela cantora Marni Nixon.
  2. Anos depois, quando atuava no musical ‘Camelot’, Walt Disney a procurou para estrelar ‘Mary Poppins. “Ele me contou sobre Poppins e me perguntou se não gostaria de ir para Hollywood para ver as ilustrações que estavam na sua mesa de storybord e ouvir as canções que foram escritas para o filme”. Ela queria, porém, confidenciou a Walt que estava grávida de três meses. Ele respondeu: “Não tem problema, nós esperaremos!”. Seis meses depois, Julie deu à luz a sua filha Emma. Pouco depois, recebeu uma ligação de P.L. Travers, autora de Mary Poppins: “Ela disse, ‘Você é muito bonita [para o papel], claro, mas seu nariz é perfeito!… Pela primeira vez, meu nariz me ajudou!”. Julie ganhou o Globo de Ouro (disputando na mesma categoria com Audrey Hepburn por ‘My Fair Lady’) e o Oscar de Melhor Atriz.
  1. Apesar do sucesso de ‘Mary Poppins’ e seus prêmios, ela teve que batalhar para conseguir o papel de Maria em ‘A Noviça Rebelde/The Sound of Music. Doris Day e Grace Kelly eram as preferidas pelo estúdio. Com sua voz também sensacional, Doris era a maior concorrente. Porém… Ela conseguiu. As filmagens foram difíceis, principalmente a cena de abertura. O lugar estava cheio de lama, o som era prejudicado pelos altos pinheiros em algum lugar das montanhas, o helicóptero vinha em sua direção, voltavam e voltavam… Ela tinha que andar, andar, andar… Virava, cortavam, virava, cortavam… Eles fizeram milhares de tomadas de formas diferentes… Enquanto o helicóptero voltava e jorrava lama. Julie foi ficando irritada e se perguntava se o piloto não via o que ele estava fazendo, encharcando-a de lama, grama e tudo mais.
  1. ‘A Noviça Rebelde’ dividiu os críticos, mas se tornou o preferido de público. Tirou ‘… E o Vento Levou’ do primeiro lugar de filme mais assistido de Hollywood, arrecadando U$ 286 milhões de bilheteria. Ganhou cinco Oscar, incluindo Melhor Filme. É considerado o 55º melhor filme americano de todos os tempos e o quinto musical da história. Sua trilha sonora foi o álbum mais vendido no Reino Unido em 1965, 1966 e 1968. Tornou-se um clássico de final de ano em diversos países.
  1. Julie estrelou outros musicais ainda na década de 60 e esteve num filme de Alfred Hitchcock chamado ‘A Cortina Rasgada. Tanto Julie quanto seu protagonista, Paul Newman, foram imposições do estúdio. O diretor – conhecido pelo domínio completo no processo de realização de uma obra – revelou que a escolha do elenco foi um erro. Detestou trabalhar com Paul Newman, que queria mudar seu roteiro. Resultado: o filme foi um fracasso.
  2. Estrelou oito filmes do marido, Blake Edwards. Porém, o sucesso só voltou em 1982 com ‘Victor/Victoria’, dirigido pelo marido Blake Edwards. A estória se passava em Paris em 1934, quando por falta de opção de trabalho, a cantora lírica Victoria Grant aceita participar de uma grande farsa planejada pelo amigo gay Carroll Todd. Eles criam o transformista Conde Victor Grezhinski, dono de uma voz de soprano, que se torna uma sensação na cidade. Porém, a farsa é ameaçada pela inesperada paixão pelo gangster King Marchand e o despeito de sua noiva, Norma Cassady. O filme ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora adaptada, além de outras seis indicações, incluindo Melhor Atriz. Julie levou o Globo de Ouro de Atriz em Comédia/Musical e o David di Donatello – o Oscar do Cinema Italiano. A canção ‘Le Jazz Hot’ se tornou um clássico.
  1. Em 1997, Julie fez uma cirurgia para retiradas de nódulos não-cancerosos na garganta, mas o procedimento danificou suas cordas vocais, fazendo que perdesse sua 4 Oitava na voz do canto. Processou o cirurgião. Ela ficou profundamente deprimida. Ela se internou numa clinica de recuperação pelo abalo emocional. Sem sua voz original, ela aprendeu a cantar num tom bem mais baixo, porém, se aposentou dos musicais. Em 2003, Andrews estrelou como diretora na remontagem de “The Boy Friend”, no Teatro Bay Street, em Nova Iorque. A década de 2000 fez participações nos sucessos ‘O Diário da Princesa’ (2001), a sequência ‘O Diário da Princesa 2: o Casamento Real’, (2004), ambos ao lado de Anne Hathaway, e sua voz nas franquias de Shrek (2004-2010) e ‘Meu Malvado Preferido’ (2010). Ela escreveu livros infantis, e em 2008 publicou uma autobiografia intitulada “Home: A Memoir of My Early Years”.
Blake Edwards e Julie Andrews @Getty
  1. Julie Andrew se casou com o diretor Blake Edwards em 1969. Viveram juntos até a morte dele em 2010. Ela contou ao Good Morning Britain sobre o sucesso da união: “Ainda estou duelando [sua morte]… Há dias que é perfeitamente maravilhoso comigo mesmo… Aí, de repente, recebo um soco no estomago e penso ‘Oh Deus, eu o queria aqui comigo’. Mas ele está em outro lugar. Eu acredito que sempre carregamos o amor”. Ela contou que um dos segredos para o casamento tão longo foi paciência e perseverança. “Fomos casados por 41 anos e foi uma estória de amor… O sucesso de nossa união foi viver cada dia como se fosse único”.
Julie Andrews @ Getty Images
  1. Levando em conta o grau de sucesso que Julie teve, através dos anos, isso poderia subir em sua cabeça. Porém, isso não aconteceu. Como revelou ao The Telegraph em 2010: “Quando uma carreira é tão longa como a minha, sou muito abençoada que ainda estou por aqui… Tudo tem altos e baixos, como amizades, casamentos e tudo mais e você sempre estará no combate. Assim, eu acredito que sou uma pessoa de muita, mas muita sorte”.

(Fonte: The List)