Festa revela a alma ‘racista’ do Brasil

“A maturidade emocional está intimamente ligada à capacidade de sentir empatia. É a capacidade de se colocar no lugar do outro que faz com que tenhamos a abertura para ouvir as várias respostas para uma mesma pergunta e entender que não há verdade absoluta. Que a sua necessidade não é menos importante que a minha. Sem empatia, alguns acreditam ser mais merecedores que outros e, portanto, se dão à comodidade de serem cegos, surdos e mudos para qualquer necessidade que não seja a sua própria. Sem empatia há o ‘venha a nós, mas ao vosso reino, NADA’.”, definição do site Psicologia do Brasil sobre Empatia.

O recente episódio sobre a festa promovida pela ex-editora de beleza Donata Meirelles e esposa do publicitário Nizan Guanaes revelou uma lamentável face do brasileiro: a falta de empatia.
No domingo (10), uma amiga mandou o link dos posts da Revista Vogue e da Revista Afirmativa com a foto da mulher loira sentada numa poltrona de vime cercada por duas negras usando figurinos típicos baianos.
Não precisei de legenda. A mensagem era muito clara: a pessoa estava debochando da nossa história.
A pessoa em questão era a editora de moda da revista Vogue Donata Meirelles, também esposa do publicitário Nizan Guanaes.
Fui pesquisar para entender melhor o que estava acontecendo. Rapidamente centenas de mensagens indignadas e… Apoiadores.
A coisa começou a mudar o rumo quando Shelby Ivey Christie, diretora da empresa L’Oreal USA escreveu no seu Insta uma mensagem indignada com a proposta da festa. Ou seja, o assunto saia da esfera nacional para se tornar um escândalo no mercado americano de moda.
Horas depois, a cantora Elza Soares escreveu:

“Gentem, sou negra e celebro com orgulho a minha raça desde quando não era ‘elegante’ ser negro nesse país. Quando preto não usava o elevador dos ‘patrões’. Quando pretos motorneiros dos bondes eram substituídos por brancos nas festividades com a presença de autoridades de pele branca. Da época em que jogadores de um clube carioca passavam pó de arroz no rosto para entrarem em campo, que não ‘pegava bem’ ter a pele escura. Desde que os garçons de um famoso hotel carioca não atendiam pretos no restaurante. Éramos invisíveis. Celebro minha raça desde o tempo em que as gravadora não davam coquetel de lançamento para os ‘discos de pretos’ (…)”.

Em seguida, diante da repercussão, surge no perfil de senhora Donata uma Nota de Esclarecimento.
Eu não acredito em justificativas. Estamos em 2019. Pessoas com dois neurônios pensantes deveriam ter noção do limite existente entre a diversão e o deboche. Piora quando a festa foi orquestrada para celebrar o aniversário uma profissional que trabalha numa centenária publicação de moda internacional, como a Vogue. Não estamos falando do jornal de bairro. É a Vogue, gente! Vogue é uma poderosa marca do milionário mercado da moda.
Mas… Vamos lá: li e reli a justificativa. Meu… A justificativa foi ainda pior. Botou o candomblé na história. Pelo amor! É muita palhaçada.
Mesmo assim, a justificativa recebeu 17 mil curtidas e centenas de comentários. A maioria apoiando – inclusive de uma famosa decana de moda nacional e de campineiros. Os apoios variavam entre a condenação do ‘mi-mi-mi’, ‘que o país está recheado por gente chata’, ‘que as baianas cobram para ser fotografadas em Salvador’, entre outros. Os fãs usaram expressões como: ‘você é da luz’. ‘não conhecem sua estória’, ‘é uma pessoa iluminada’ e ‘fui a duas palestras suas e te achei muito simpática. E finalmente, teve uma pessoa que disse:

“Antes de mais nada, os brancos já foram escravos, os negros é que escravizaram os próprios negros, como os brancos escravizaram os brancos! Na África as tribos rivais quando vencedoras escravizaram as vencidas! E esse de que os negros construíram o Brasil é bem exagero, se não fossem os arquitetos europeus e suas plantas para as construções de igrejas, etc, não teríamos saído daquelas construções africanas!” @jorgeos754.

Pais racista

Constatação: com exceções, os brancos brasileiros são desinformados e com visão estreita e distorcida da sua história. Lembre-se: a história sempre foi escrita por brancos. O que esperar?
Brasil é um país muito racista. Não existe nada de ‘país de convivência pacífica entre as raças’. Quem disse isso foi algum branco dominante, é óbvio.
Em sua maioria, brancos não têm qualquer empatia pela história dos negros e muito menos dos escravos.
Homens brancos estão no poder e nos cargos de comando. Sendo assim, por que se preocupar com a origem da raça da minha faxineira, porteiro, segurança ou qualquer outro negro que o cerca, normalmente na função de prestador de serviço?
Canso de ver fotos de festas de grupos de amigos e colegas nas redes sociais lotadas de gente branca. Tirando uma ou outra, a figura de um negro é inexiste. Está no DNA do branco brasileiro: relacionamos apenas os semelhantes. Brancos nem pensam na existência de negros, pois é ‘algo menor’. Por que inclui-los em alguma coisa?

Festa Donata Meirelles @ Reprodução

Além das redes sociais, é notória a ausência de negros em fotos nas colunas sociais de jornais e revistas. Eventualmente, uma celebridade negra – atores, cantores, esportistas… Será que negros não frequentam os badalados eventos da sociedade campineira? Não existem negros em profissões bacanas? Ou, se estão presentes, os fotógrafos não os enxergam como ‘colunáveis’? Ou ainda pior: se foram fotografados, foram cortados pelos editores ou colunistas?
Gritar aos quatro cantos que o Brasil é um país racista. Não é mi-mi-mi. Não é chatice. Não é ser politicamente correto. É o reconhecimento de um fato.
Se fosse uma mera reclamação, a própria Vogue ignorava a questão e também não iria divulgar uma Nota de Esclarecimento, lamentando o episódio.
Foi a comprovação que a festa foi um erro e que aquela foto da mulher loira sentada numa poltrona de vime cercada por duas negras com figurinos de baianas remetia a um passado brasileiro tão triste quanto ao Holocausto ou o ataque americano em Hiroshima. Sim, esse é um fato: a escravidão negra no Brasil matou um número muito grande de pessoas, que, por não serem consideradas pessoas, nunca constaram em qualquer obituário. É comum a existência de cemitérios de negros sobre praças nas regiões centrais do Brasil.
Aí… Na quinta-feira (14/02), a assessoria de imprensa de Donata Meirelles informou sobre seu pedido de demissão da Revista Vogue.
Pois é…

Um comentário

  1. Texto lúcido e corajoso. É importante que a verdade se sobreponha ao glamor e à bajulação, só assim combateremos o escandaloso racismo que ainda vigora no Brasil. Parabéns!

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