Manequins: da madeira ao 3D

Em 1987, nas telas de cinema, Kim Cattrall (uma década antes de se tornar Samantha Jones em ‘Sex And The City’) encarnou um manequim de vitrine de loja que ‘ganhava vida’ para se apaixonar por Andrew McCarthy no filme ‘Manequim’.

Em 2002, a cantora inglesa Sophie Ellis-Bextor fez uma paródia do filme no clipe ‘Get Over You’, colocando diversas manequins que ganhavam vida, quebravam a vitrine e caminhavam por uma rua vazia.
Na vida real, manequins de loja ainda não ganharam vida, mas passaram por diversas mudanças desde os primeiros feitos em madeira, papel maché ou gesso.

Origem

Os manequins teriam surgido por iniciativa de pintores holandeses e franceses e representavam serviçais na decoração das casas e hospedarias do século XVIII. Inicialmente, eram recortados sobre grossas pranchas de madeira, vestidos com trajes da época e posicionados simulando movimentos como varrer o chão.
Por volta do fim do século XIX, os manequins apareceram nas montagens de peças de teatro. Eram feitos de papel maché e o objetivo era atrair o espectador e fazê-lo interpretar o cenário e identificar-se diante dele.
Os manequins utilizados com a finalidade da moda eram confeccionados com madeira ou metal, forrados de algodão grosso e tapeçaria sobre um pé de ferro, e criados primeiro para a modelagem de roupas por costureiras, sendo utilizados até hoje com essa finalidade.

A autora do trabalho ‘The Secret Life of Puppets’, Victoria Nelson, de 2001, defende que a origem do fascínio humano por bonecos em geral, autômatos e outras imitações humanas, por animar o inanimado, está na “Teurgia” (obra divina) e nos filósofos e sacerdotes Helenísticos. Na sua visão, é na Alquimia que ocorre o encontro do “gnosis” (conhecimento espiritual) com o “epistemis” (conhecimento real). Isso ocorreria através de sucessivas operações às quais reproduziriam as etapas da criação do cosmos físico pelo “Demiurgo” (o que trabalha para o público, artífice, operário manual) até a redenção da matéria, representada pela criação da Pedra Filosofal, ou da criança “homunculus” (pequeno homem), também chamado de “mannikin”.
O estilista, teórico PHD e designer sueco, Otto Von Busch, tem uma visão que vai além da antropologia e da semiótica e se aproxima do mítico e do religioso. Para ele, os manequins teriam a ver com a história de como o corpo humano foi aos poucos se transformando em um “golem” (um ser artificial mítico, associado à tradição mística do judaísmo, particularmente à cabala, que pode ser trazido à vida por meio de um processo divino), ou seja, um corpo inanimado à espera de um espírito (que seria o Estilo), para lhe dar vida.

Aliado do varejo de moda

O fato é que os manequins conquistaram lugar cativo na indústria da moda. Uma recente pesquisa do IEMI – Inteligência de Mercado, sobre o “Comportamento de Compra da Consumidora de Moda Íntima Feminina”, mostra que a vitrine composta com manequins apresentando as peças exerce alto atributo às vendas.
Essa pesquisa foi realizada com 1.235 mulheres, a partir de 18 anos, envolvendo todas as camadas sociais, 49% alegaram que sempre reparam na vitrine, antes de considerarem a compra e 81% informaram que às vezes deixam de entrar na loja caso a vitrine não agrade.
O dado reforça àquilo que sabemos: que a experiência de compra na loja física começa do lado de fora, na vitrine. Um estudo realizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) aponta que 80% das nossas compras são influenciadas pelo estímulo visual. Daí a importância do Visual Merchandising. É ele o responsável pela fidelização do cliente com a marca, proporcionando experiências sensoriais positivas no ponto de venda.

Foi o Jorge Que Fez ‘Colar Pimentinhas com madeira Pinnus e cristais em ABS fumê’ @ MONDO MODA

Por meio de diferentes elementos, o Visual Merchandising conta uma história, seja da sua marca ou de um produto específico. Essa narrativa que deve ser cativante começa na vitrine e segue para o interior da loja. Existem diversos fatores nesse processo que podem influenciar um consumidor, positiva ou negativamente como, a iluminação, as cores e, claro, os manequins.
O primeiro passo é conhecer o público-alvo de sua loja e ter em mente que o cliente quer se ver representado nela. Com foco justamente em ampliar a representatividade do cliente, a indústria de manequins não para de inovar.
Atualmente, existem modelos com diferentes tons de pele e com diferentes biótipos também: baixo, alto, gordo, com cabelo, sem cabelo, etc. Isso sem contar os manequins pets. Sim, cães em versões realistas ou abstratas também compõem o catálogo de produtos. Tudo para proporcionar inúmeras possibilidades de projetos personalizados e exclusivos para os lojistas.

Tecnologia e materialidade

Manequins restaurados @ Reprodução

Diversos materiais já foram desenvolvidos para dar mais realidade aos bonecos, como manequins com bustos de ferro e tecido, mas a cabeça e os membros feitos de parafina, puras esculturas, quase idênticas a rostos humanos, com os olhos de vidro, cabelos de verdade e maquiagem natural. O problema é que derretiam no calor e trincavam no frio, mas tinham a vantagem de serem encomendados de acordo com a vontade do lojista.
Ou seja, os manequins podem ser lindos, reais, mas se forem frágeis e quebrarem com facilidade vão gerar despesas para o lojista. Em uma recente pesquisa (IEMI) sobre manutenção de manequins, 94% dos lojistas que responderam, disseram que tiveram acidentes que causaram danos nos manequins, nos primeiros três anos após a compra. Foram em média 15 acidentes em três anos.
Para resolver o problema, surgiram as inovações, como os manequins inquebráveis, de plástico de engenharia, que podem ser produzidos em qualquer cor da escala Pantone, desejada pelo lojista.

Manequim na Vitrine Prada @ reprodução

A Expor Manequins, que desenvolveu essa linha, aposta na tecnologia para aprimorar os processos e reduzir o custo dos manequins, mantendo todas as suas qualidades e características de personalização. As peças-modelo são escaneadas digitalmente em 3D e, em seguida, produzidas. A pintura é feita por robôs para evitar falhas, e a empresa ainda acompanha as novidades digitais. Por meio de um app de realidade virtual, o lojista consegue visualizar e modificar um manequim em sua loja da maneira que desejar, antes de comprá-lo.

“É uma forma de ajudar o varejista a projetar como ficará a loja e também visa proteger o investimento que ele fará”, afirma Marcos Andrade, CEO da Expor Manequins e vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Equipamentos e Serviços para o Varejo (ABIESV), que participará do Retail Conference, na quinta-feira, 25 de abril, na Expo D. Pedro, em Campinas.

De acordo com Andrade, manequins caem, estragam no manuseio, ainda mais se for em uma loja de grande porte, onde há grande rotatividade de funcionários. “Quando é o próprio dono quem manuseia, os manequins estragam menos porque geralmente ele é mais cuidadoso”, explica. Segundo ele, com um produto durável e com acabamento bonito, o varejista não vai trocar os manequins porque quebraram. Vai trocar porque ele precisa acompanhar as tendências e refletir o estilo de vida do cliente.