Ana Paula Barros – Entre a arquitetura e o design

“Drain You (Nirvana)”, “Hank is Dead (Red Fang)”, “Fire and Wings (White Lies)”, “Memory Serves (Interpol)” e “Manifest (Andrew Bird)” são algumas das canções preferidas da arquiteta e designer Ana Paula Barros. Responsável pelos conceitos artísticos do MONDO MODA, Ateliê Casagrande, Jorge Marcelo Oliveira (assinatura como Produtor de Moda) e Ateliê Foi o Jorge Que Fez, essa moça muito talentosa assina a nova campanha do MONDO MODA, que será lançada no final desse mês na Revista da Campinas Decor 2019.

O primeiro Portal de Lifestyle de Campinas renovou parceria com a principal e mais tradicional mostra de Arquitetura, Decoração e Paisagismo do interior Paulista.

Diretamente da Basiléia, na Suíça, Ana Paula Barros bateu um papo com Jorge Marcelo Oliveira, editor do MONDO MODA.

Ana Paula Barros Novembro 2017 @ Acervo pessoal

Quem surgiu primeiro? A arquiteta ou a designer?

Por minha mãe ser arquiteta, sempre tive contato com a profissão. Eu adorava aquela prancheta imensa revestida com plástico verde-água, a régua T, os gabaritos, a “aranha” (parte do normógrafo), os lápis, as nanquins… Aos 12 anos decidi que esse seria meu caminho.

Na faculdade, tivemos uma disciplina de design gráfico, nada muito aprofundado, mas que me abriu uma nova perspectiva. Concluí o curso sabendo que não queria ser arquiteta, projetar casa, prédio, cidade, etc. O curso em si foi excelente, me possibilitou uma formação completa, com professores que guardo no coração. Mas também ficou muito clara para mim a distância entre a formação e a realidade brasileira.

Fui trabalhar em duas agências de publicidade com propostas distintas, meio período em cada. Uma focada em web design e a outra em branding – foi um período de muitos aprendizados. Um pouco depois fui fazer especialização em design de interiores e comecei a trabalhar no escritório da Andrea Ottoni. Por vez ou outra surgia a necessidade de criar uma peça gráfica e fui desenvolvendo essa conexão entre design gráfico e de interiores no meu trabalho.

Ao abrir meu estúdio, esse se tornou um complemento dos projetos comerciais, onde eu desenvolvo desde a identidade e comunicação visual, integrando-as à decoração. Então acho que a designer surgiu da arquiteta, são disciplinas muito interligadas.

Anúncio MONDO MODA 2019 by Ana Paula Barros @ Divulgação
Anúncio MONDO MODA 2019 by Ana Paula Barros @ Divulgação

Como surgiu seu interesse pela Arte?

Com o estudo de história da arte no curso de Arquitetura, você ganha um repertório imenso. Mas eu sempre gostei de desenhar e pintar (acho que esse é um clichê). Gostava de visitar exposições, museus e galerias. Ia para São Paulo sempre que possível em busca de novas referências em feiras independentes. Campinas tem muita gente bacana, mas é um lugar mais difícil, não tem incentivo.

Quando tive oportunidade de viajar para o exterior, eu sempre buscava visitar os museus e a cena alternativa, via arte urbana para entender as expressões artísticas locais. Um dia fiz um desenho despretensioso – acho que em 2012 – e um amigo falou que eu deveria investir mais tempo nisso. Desde então tenho buscado aprender novas técnicas e desenvolver meu trabalho.

Quando a arquitetura interfere seu olhar na arte?

A formação em Arquitetura é bem completa, pois junta conhecimentos matemáticos, históricos e artísticos. Ensina a analisar contextos, entender relações entre elementos, buscar soluções funcionais, trabalhar volumes e vazios, cores e texturas. Isso tudo contribui para o processo projetual e é uma questão de escala.

Uma vez que você entende esse raciocínio ele pode ser explorado para desenhar uma casa, uma sala ou um quadro. E, com certeza, a composição será bem estruturada e equilibrada se esses princípios forem aplicados. Muitos arquitetos buscam outras formas de expressão como a fotografia, as artes visuais e até a música, como uma forma de ampliar as aplicações dessas capacidades.

Como foi a mudança de olhares do Brasil para a Suíça?

O Brasil é muito rico em cores, é exuberante. O multiculturalismo, a mistura… É de uma riqueza imensa e que é pouco valorizada. Eu mesma nunca me senti conectada, mas quando você passa um tempo distante, seu olhar muda. A Suíça também é um lugar de muitas tradições, mas não há essa fusão cultural e, em certos aspectos, é bem conservadora. É um país pequeno.

Para mim a principal diferença é em relação à espontaneidade: a nossa arte da “gambiarra”. E hoje tenho para mim que isso é uma expressão de criatividade ímpar. Tem mais emoção, mais sentimento. Minha impressão é que as coisas aqui são meticulosamente pensadas, existe uma metodologia, nada é feito ao acaso.

Basileia é um lugar com muitos museus. Fale sobre seus preferidos.

Sim! A Basiléia é a terceira maior cidade da Suíça, mas é a que possui mais museus. São 40 no total – dos mais variados temas. Fiz até a “carteirinha” – um passe anual – pois vale muito a pena!

O Kunstmuseum Basel é o maior da Suíça, tem uma coleção permanente extensa e traz exposições temporárias inusitadas. Tive a oportunidade de conhecer muitos trabalhos de artistas que nunca ouvira falar. Tem também o Museum Tinguely, em um edifício projetado pelo arquiteto Mario Botta, dedicado ao artista suíço Jean Tinguely e suas esculturas cinéticas. Mesmo quem diz não gostar de arte acaba tendo uma experiência agradável lá.

Mas o mais impressionante é a Fondation Beyeler, uma coleção de arte privada, com grandes nomes clássicos e contemporâneos, que desde a construção do espaço de exposição assinado por Renzo Piano, tornou-se aberta à visitação. O entorno é cercado por jardins e colinas com vinhedos, o prédio tem uma iluminação natural incrível e as exposições temporárias são muito bem montadas. É, sem dúvida, um dos melhores museus do mundo.

Fundação Beyeler - Basileia - Suíça @ Reprodução
Fundação Beyeler – Basileia – Suíça @ Reprodução

Na arte, conte sobre seu estilo.

Acredito que eu ainda esteja em fase de experimentação. Tanto de técnicas quanto de linguagens. Gosto muito de temas abstratos, de explorar texturas e grafismos. Com as colagens comecei a trabalhar mais temas surreais, com composições e cenas imaginárias.

Atualmente tenho desenvolvido o bordado livre, sendo algumas tentativas de bordado em papel.

Ouvir minhas músicas barulhentas me estimula bastante pela energia que elas transmitem. Algumas composições são influenciadas por esses ritmos. Procuro sempre absorver o máximo de referências, sensações e inspirações das visitas em museus ou de simples caminhadas pela cidade.

Fale sobre os desafios propostos por Jorge Marcelo Oliveira.

Temos uma conexão muito bacana, nossos papos são sempre construtivos e cheios de reflexões. Acho que isso me ajuda a ter uma visão mais clara das peças gráficas que produzo para os diferentes canais (Mondo Moda, Foi o Jorge Que Fez).

O Jorge Marcelo está sempre antenado, compartilhando os acontecimentos da moda, música, cinema, entre outros. Mas o que mais gosto é que ele não tem medo de inovar, de sair do convencional. Então fico feliz de trabalharmos juntos, pois o resultado é sempre diferente.

Onde encontrar os trabalhos de Ana Paula Barros:@apbstudio | https://www.facebook.com/apbstudio.art