A falta de representatividade negra em alguns setores de Campinas

Na noite que celebrou o Dia da Consciência Negra, um telejornal local colocou um produtor negro ao lado da apresentadora loira para chamar uma matéria sobre o assunto. Vamos lá: essa mesma emissora teve um apresentador negro em 1981 e um único repórter esportivo até recentemente… E um festival de brancos que se revezaram em todos os outros programas da emissora. Nunca uma mulher negra apresentou um telejornal ou em qualquer alguma matéria. Isso que a emissora completou 40 décadas. E quer saber? O mesmo acontece com outros telejornais locais de outras emissoras da cidade!
Aí… Ontem, indignado, escrevi um post nas redes sociais. No Facebook, lógico, manifestações. Um professor lembrou-se do apresentador… Uma assessora de imprensa lembrou-se do repórter… Uma pessoa disse que a Globo é satanista (pois é…) e outra me perguntava por que eu ‘assistia essa emissora lixo’.
Foi respondendo a maioria dos comentários (menos para quem falou sobre satanismo…) e em cada resposta, foi me ocorrendo outras questões.
Apesar da discussão sobre racismo estar em diversos espaços, muita gente não pensa sobre um ponto: a falta de Representatividade.
Por que o diretor de jornalismo de uma emissora de TV do interior do país (sim, Campinas é interior!) iria se preocupar em contratar uma apresentadora negra ou repórter negro?

Alice Allison Dunnigan foi a primeira jornalista negra a obter credencial para entrar na Casa Branca @ National Association of Black Journalists

Cadê os negros?

Eu trabalhei num famoso clube social de Campinas entre 1987-1988. Tinha 20 poucos anos. Existia um único sócio negro. Era um jogador de basquete. Todo mundo adorava falar que foi adotado por uma família branca.
Ouvia aquilo e pensava: ‘Mas o que importa se ele foi adotado ou não?’.
Demorei a entender que, para aquelas pessoas, era importante frisar a adoção, pois seria uma única explicação de sua presença num clube social de brancos. Era uma justificativa. Ou seja, ser adotado foi sua porta de entrada para ser um sócio.
O tempo passou. Hoje três famílias negras são sócias. Menos mal… Mas… Só isso?


Uma estátua da jornalista Alice Allison Dunnigan está na Biblioteca W.T. Young, em Lexington, Ky @ Photo by Mark Cornelison | UKphoto

Ausência?

Graças ao MONDO MODA, desde 2006, sou convidado a diversos eventos ligados aos assuntos tratados no Portal – moda, decoração, gastronomia, cultura, sociedade, etc. Ou seja, há 13 anos tornei-me um observador em locais frequentados por pessoas que dominam alguns mercados Campinas.
Tirando três ou quatro colegas de imprensa (ou blogueiros ou digital influencers), negros estão quase ausentes.
No começo, era comum me questionar. Quando tinha alguma oportunidade, eu perguntava às donas das empresas de Relações Públicas – todas brancas – o motivo dessa ausência. As respostas eram as mesmas: “Mas quem você quer que seja convidado?”.
“Eu não sou o organizador do evento. É você que tem que procurar!”, respondia.
Pensa que mudou em 13 anos mudou alguma coisa?
Vou dar um exemplo: no mercado de arquitetura e decoração da cidade, conheço três profissionais negros. No mercado de moda, uma. No mercado de gastronomia… Tirando a imprensa/blogueiro/digital influencer… Nenhum… No mercado de beleza, uma (digital influencer).
Nos eventos sociais… Eventualmente a mesma dos eventos de moda e, um DJ e… Eu! Tem noção? No meu caso, só estou presente porque trabalho em veículos de comunicação.
Acha que estou exagerando? Um conhecido fotógrafo de eventos sociais me contou que recebeu um comentário sobre uma cobertura. A pessoa perguntava: ‘Cadê os negros?’.
Ele me contou que nunca tinha pensado nisso e começou a procurar, em vão. Brincou: ‘Vou te fotografar para garantir uma cota mínima’.
Claro que dei risada. Ele é um querido e tenho certeza que sua observação foi a mais sincera possível diante de uma realidade que não cabe a ele mudar. Assim como eu, ele é um observador do circo.
Finalizando… Depois de anos me questionando sobre essa ausência, um dia veio uma resposta: “Bom, pelo menos tem um!”.

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