Selva de Pedra envelheceu ‘demais’

A reprise da novela Selva de Pedra no Viva terminou nessa terça-feira, 18 de fevereiro. E, meus caros, a novela envelheceu muito.
Moço pobre (Tony Ramos) odeia tocar bumbo na praça para acompanhar as exigências do fanático pai religioso (Sebastião Vasconcelos). Um dia, resolve tirar satisfação de um cara que gongou com a cara dele. A briga termina com morte.
Moço pobre é acolhido por uma jovem artística plástica (Fernanda Torres). Rapidamente, rola uma química. Porém, com medo de ser preso, ele foge para o Rio de Janeiro.
Ele vai se hospedar na Pensão Palácio – Estritamente Familiar. Administrada pela ex-vedete do teatro de Revista, Fany (Nicete Bruno, ótima), uma mulher de 50 no auge de sua liberdade sexual. Eles se envolvem sexualmente.

Nicette Bruno – Selva de Pedra 1986 @ Reprodução

Sua pensão é composta por uma diversidade de pessoas, entre elas o malandro Miro. O tamanho do seu carisma só se compara com a falta de escrúpulos para ‘se dar bem na vida’. Menti, engana, furta, faz conchavo com criminosos… Porém, ele é bonito, loiro e com cara de rico. E sempre se dá bem.
No papel de Miro, Miguel Falabella roubou a cena, aproveitando cada segundo do texto compondo um vilão com carisma suficiente para torna-lo adorável.
Na ‘Selva de Pedra’ da metrópole, o mocinho de caráter duvidoso, Cristiano Vilhena desperta para o ‘lado oculto da força’ e transforma seu ódio pela pobreza e por tocar bumbo na praça em força motriz para enganar, michetar com senhorinhas em busca de emoções, mentir e descobrir que tem muito em comum com o malandro Miro. Porém, com um adicional: ele é sobrinho de um homem muito rico. Dono de um estaleiro.

Miguel Falabella – Selva de Pedra 1986 @ Reprodução

Depois de algumas tentativas frustradas e graças à uma armação auxiliada pelo amigo Miro, o mocinho entra em contato com o tio. Rapidamente é acolhido e descobre que Caviar não é sagu do mar.
No luxo e conforto da mansão do milionário, ele conhece a linda, sexy e poderosa Fernanda Arruda Campos (Christiane Torloni, que também roubou a cena), que, apesar de flertar com Caio (José Mayer – muitos anos antes de ser descoberto como predador sexual), rapidamente se interessa pelo ex tocador de bumbo na praça.
Nesse meio tempo, a mocinha sofredora Simone Marques (Fernanda Torres, claramente insatisfeita por ter aceitado o papel) resolve sair do marasmo da vidinha besta na cidadezinha do interior e também se joga na capital, onde, se torna uma professora de escolinha infantil.
Como o destino estava traçado na maternidade, Simone reencontra Cristiano. Namoram, se casam e vão morar na pensão. Detalhe: apesar do tamanho do Rio de Janeiro, todos os personagens em trânsito pela cidade só encontravam vaga na casa da ex-vedete caliente. Quando o hóspede era jovem e bonito, fazia uma passagem pelo quarto da loba (certíssima, alias!).
Mesmo casado, Cristiano se envolve com a linda, sexy, fashionista e eternamente usando batom vermelho Fernanda a ponto de aceitar um casamento. Entra em cena Miro, que se propõe a ajuda-lo a ‘se livrar de Simone’. Hesitante ou não, Cristiano não recusa a ajuda.

Christiane Torlini Selva de Pedra 1986 @ Reprodução

Miro torna-se o co-autor de um acidente envolvendo Simone e Narjara Tureta, que surge na trama por dois capítulos…
Quando todo mundo acredita que a mocinha morreu, eis que ela surge num hospital. Auxiliada por um amigo, ela parte para Nova York. Lá, irá se transformar numa renomada escultura internacional. Logo adota o nome de uma (até então não citada) irmã falecida: Rosana Reis.
Por aqui, o viúvo (pero no mucho) Cristiano está com um pé no altar com a socialite, porém… O pai vingativo de Simone Marques/Rosana Reis ameaça denuncia-lo à polícia pelo primeiro crime (ele cometeu vários outros, mas a autora preferiu fazer à egípcia).

Sem opção, ele cai fora da ideia de se casar. Sozinha, abalada. e envergonhada, Fernanda rasga o vestido , sai virada na Jiraya e entra num longo processo de descontrole emocional.
Aí, a trama Cristiane Torloni na rainha suprema da trama, ao construir com muito talento uma personagem até então tola e fútil numa mulher ensandecida. Porém, com muita sutileza e pequenos gestos.
Para ajuda-la na missão de infernizar os mocinhos, ela conta com a ajuda do adorável malandro Miro.

Selva de Pedra Fernanda Torres e Regina Duarte @ Reprodução

Contando desta forma bagaceira, Selva de Pedra parece bacana. O problema é acompanhar a resolução disso em 160 LONGUÍSSIMOS capítulos.

Arrastada, cheia de furos, personagens porcamente desenvolvidos, música incidental feia, trilha sonora cafona (Deus me Defenda de ‘Perigo‘ de Zizi Possi, de ‘Demais’ da Veronica Sabino e ‘Yes’ de Tim Moore) e uma direção preguiçosa.

Remake de 1986 de uma obra original de Janete Clair de 1972, a trama perdeu a força (não assisti a primeira versão, mas sei que foi um grande sucesso). Com exceção das participações de Christiane Torloni, Miguel Falabella, Nicete Bruno e Maria Zilda (que faz uma ex-atriz que se torna uma viúva-negra), o restante é triste.
No mesmo ano que se tornou a primeira atriz brasileira a ganhar o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes, Fernanda Torres caiu na roubada de aceitar ser a mocinha numa trama no qual ser bonzinho era ser otário. Sua personagem era ridícula. Talvez funcionasse nos anos 70 com Regina Duarte, que saboreava o título de ‘Namoradinha do Brasil’. Em Fernanda, uma atriz muito mais interessante, a personagem não ofereceu nada ao seu talento. Claramente, percebe-se o desconforto da atriz – do primeiro ao último capítulo. Anos depois, ouvi a própria Fernanda revelar que não deveria ter aceito o convite, pois não gostava da forma que sua personagem foi construída. É óbvio. Seu talento não deu conta de um personagem datado, caricato e muito mal desenvolvido.

Dono de muito carisma, o ótimo Tony Ramos tentou o que pode para dar alguma dignidade ao anti herói machista, preconceituoso, oportunista e com um pé no cafajeste. Tratou tão, mas tão mal a mocinha, que, sinceramente, só uma trouxa para aceita-lo de volta.

Novela envelhece mal. Em trama urbanas, que refletem os contextos específicos da época, as coisas são ainda piores. Tudo soa antiquado e careta.