Gilberto Braga foi meu autor de novelas preferido

Gilberto Braga sempre foi a resposta para a pergunta: ‘’qual é seu autor de novela preferido?’
Eu era muito pequeno para assistir suas primeiras novelas ‘Corrida do Ouro (1974)’, ‘Senhora (1975)’, ‘Helena (1975)’, ‘Bravo! (1975)’, ‘Escrava Isaura (1976)’ ou ‘Dancin’Days. Lembro-me de cenas isoladas. Foram, isto sim, nas reprises das duas últimas que ‘entendi’ melhor as tramas.

Lea Garcia em Escrava Isaura (1976) @ Reprodução

Da famosa novela das 18h com a escrava branca, duas certezas: Lucélia Santos nunca me convenceu e Léa Garcia era uma grande atriz. Sua vilã Rosa me provocava um misto de admiração e medo. Seus enormes olhos pareciam devorar a tela e sua inveja pela mocinha era tão gritante que aquilo causava curiosidade.
Foi o melhor papel em TV da grande – e injustiçada – atriz Léa, que infelizmente não teve outra oportunidade como aquela em sua carreira.

Pela questão da idade, a única coisa que me marcou em ‘Dancin’ Days (1978)’ eram as cenas nas pistas de dança. Também só fui ‘entender’ a trama com as reprises.

Sonia Braga em Dancin’ Days (1978) @ Reprodução

Certamente Julia Matos foi o grande momento de Sonia Braga nas novelas da TV Globo, assim como Yolanda Platini iniciava a galeria de grandes personagens de Joana Fomm.

As cenas de embates entre Julia e Yolanda eram incríveis.

A reprise de ‘Água Viva (1980)’ no Canal Viva me ajudou a entender a fascinação que Tonia Carreira despertava no público. Sua Stella Fraga Simpson, a adorável e moderna colunável roubou a cena. Antes da infame Odete Roitman, Beatriz Segall interpretou a vilã Lourdes Mesquita. Mas era uma mulher tão chata que tenho muita preguiça.

Tonia Carrero em Água Viva @ Reprodução

Não me lembro da trama de ‘Brilhante (1981), apesar de saber do sucesso que Fernanda Montenegro fez como Chica Newman e Denis Carvalho, como seu filho Inácio. O mesmo digno sobre ‘Louco Amor (1983).
‘Corpo a Corpo (1984)’ me marcou por três coisas: Zezé Motta como Sonia, a primeira ‘mocinha’ negra que tenho lembrança, a vilã Joana Fomm, Lúcia Gouveia e o quanto Flávio Galvão era gostoso como o ‘diabo’ contratado para atormentar a protagonista Eloá (Debora Duarte).

Em 1988, ‘O Primo Basílio’ trouxe Marília Pera como a vilã Juliana, atormentando a vida da mocinha Luísa. Sensacional seria a melhor definição para sua atuação.

Marília Pera como Juliana em O Primo Basílio @ Reprodução

Meses depois, estreava ‘Vale Tudo’. Bom… Revi no Viva e no Globo Play… E continuava imbatível como minha novela preferida. Tantos grandes personagens Maria de Fátima (Glória Pires), Heleninha Roitman (Renata Sorrah), Odetle Roitman (Beatriz Segall), Celina Aguiar Junqueira (Nathalia Timberg), Marco Aurélio (Reginaldo Faria), Solange Duprat (Lídia Brondi), Aldeie Candeias (Lilia Cabral)… Quanto a protagonista… Já não gostava de Raquel Accioli antes da atriz Regina Duarte ter ligação com o governo atual… Depois, então…

‘O Dono do Mundo’ deu ao Fagundes o vilão Felipe Barreto e juntou Fernanda Montenegro (Olga Portela) num antológico embate com Nathalia Timberg (Constância Eugênia). Também foi o grande momento de Maria Padilha, como Karen. Infelizmente o Globo Play ainda não disponibilizou a trama.

E… Chegamos a clássica minissérie ‘Anos Rebelde’, de 1992, escrita com uma maestria impar por Gilberto ao retratar dois lados de um triste e marcante capítulo da história brasileira, a ditadura. São tantas qualidades artísticas… Claudia Abreu como a inesquecível Heloísa, Cássio Gabus Mendes como João Alfredo, Betty Lago como Natália, Pedro Cardoso como Galeno Quintanilha e até Malu Mader convenceu como a chata Maria Lúcia. Considero a obra prima de Gilberto.

‘Pátria Minha (1994) foi uma novela problemática. Apesar de adorar Claudia Abreu, sua mocinha idealista Alice Proença parecia uma versão atualizada da chata Maria Lúcia (de ‘Anos Rebeldes’).

Guardei na memória a vilã Loretta Ramos de Marieta Severo. ‘Duas gotas e meia de adoçante’ foi a frase que a definiu na trama.
Momento complicado foi a cena no qual o personagem Raul Pelegrini humilha o submisso jardineiro negro Kennedy que não reage. Lembro-me do quanto aquilo me deixou incomodado. O Movimento Negro precisou notificar juridicamente os responsáveis pela novela. Pior: um dos roteiristas respondeu dizendo que a atitude era ‘um atentado à liberdade de expressão!
Porcamente, o assunto se encerrou com um dialogo entre os personagens negros Kennedy e Zilá, no qual ela condenava o racismo. Só! Pelo amor, né?
Confesso que minha admiração por Gilberto começou a sumir. Depois de tantos anos acreditando no seu texto, num momento crucial e dramático de racismo explícito, ele preferiu pulverizar o assunto buscando um caminho ‘em cima do muro’.
Com isso, não assisti direito ‘Força de um Desejo’. Era uma novela das 18h e a trama não me chamou a atenção. Lembro que me empolguei com a participação de Sônia Braga, porém, como sua personagem morre no início. Deixei de assistir, mesmo sabendo que Nathalia Timberg vive um grande momento como a vilã Idalina Menezes de Albuquerque Silveira.
Em 2003, Gilberto acertou com ‘Celebridade’, fazendo um ótimo retrato da Era que dominaria o novo milênio, quando ‘ser famoso’ tornou-se o mantra.
Claudia Abreu roubou a cena como Laura Prudente da Costa, a ‘Laura Cachorrona’, assim como Fábio Assunção como ‘Renato Mendes’, Deborah Secco como a impagável ‘modelo, atriz, manicure’ Darlene Sampaio e Ana Beatriz Nogueira, como a Ana Paula Diniz, a irmã invejosa de Maria Clara Diniz. Alias, apesar de parecer repetitiva no mesmo tipo de personagem, Malu Mader também deu conta do recado.
Usando o artifício do ‘Quem Matou?’, que movimentou a trama nas semanas finais, foi uma ducha de água fria a escolha da vilã Laura como a responsável pela morte de Lineu Vasconcelos. Não teve qualquer coerência.

Quatro anos depois, Gilberto voltaria como ‘Paraíso Tropical (2007)’, que errou na escolha de Alessandra Negrini como as gêmeas Paula e Taís. Era para ser Claudia Abreu, que engravidou na época. Apesar de muito talentosa, Alessandra é uma atriz de composição e longe dos tipos naturalistas, tão caros na obra de Gilberto. Não funcionou em nenhuma das personagens. Parecia robótica.
Com isso, Camila Pitanga e Wagner Moura roubaram a cena com a prostituta Bebel e o vilão Olavo.

Camila Pitanga em Paraíso Tropical @ Reprodução

Outros quatro anos depois, em 2011, Gilberto escreveu ‘Insensato Coração’. Escolhida para ser a protagonista, Ana Paula Arósio desistiu quando as gravações estavam começando. A atriz arrumou suas malas e foi embora de volta ao Rio de Janeiro no mesmo dia, avisando a produção que não havia gostado do perfil da personagem após ler os roteiros dos primeiros capítulos e que não faria mais parte da novela. Depois de vários testes, Paolla Oliveira assumiu o personagem.
O destaque da novela foi Gabriel Braga Nunes como o vilão Leo. A personagem Norma de Gloria Pires ficou no meio do caminho entre interessante e chata. Apesar do talento de Deborah Secco, sua Natalie Lamour parecia uma continuação de Darlene Sampaio, de ‘Celebridade’.
Ana Lúcia Torre, como a mau caráter Tia Neném, também roubou a cena.
Apesar da quantidade de personagens LGBTQIA+ e propor algumas discussões, não houve qualquer avanço.

Gabriel Nunes Braga e Gloria Pires em Insensato Coração @ Divulgação

E… O primeiro capítulo de ‘Babilônia’, de 2015, foi incrível. Gloria Pires aparecia como uma ‘devoradora de homens’ e Adriana Esteves prometia como uma mulher invejosa. Ambas funcionavam como contraponto a chata mocinha Camila Pitanga. Na voz de Beatriz (Glória), a frase ‘Não estou disposta. Com licença’ virou um meme.

Pela primeira vez numa novela brasileira, Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg formaram um idoso casal de lésbicas. E logo na primeira sequência, tascam um lindo na boca.
Porém, o que era para ser um momento antológico, revelou-se uma das maiores decepções. A trama empacou, esvaziou-se muito rápido e personagens foram se modificando e ficando óbvios.

Gloria Pires em Babilonia @ Reprodução

Nem o inegável talento das atrizes salvou a trama do conservadorismo que estava ganhando espaço nas TVs abertas, principalmente com as estreias das novelas bíblicas da TV Record.
Foi um triste canto do cisne de Gilberto Braga, que morreu na terça-feira, 26 de outubro, aos 75 anos.

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