A 68ª edição do Grammy Awards acontece neste domingo, com transmissão ao vivo a partir das 21h30 (horário de Brasília) por meio das plataformas de streaming HBO Max e Paramount+ ou através do canal da TNT.
Diferente de edições anteriores, onde o favoritismo era mais linear, os resultados de 2026 devem ser interpretados como um referendo sobre a identidade da Recording Academy frente à fragmentação digital e à força de mercados de língua não-inglesa.

A categoria principal deste ano apresenta uma disputa tríplice que coloca em xeque os critérios de votação da Academia. De um lado, Kendrick Lamar chega com nove indicações e o aclamado GNX, um projeto que dominou não apenas as paradas, mas o discurso cultural através de uma presença onipresente em esportes e redes sociais. Do outro, Lady Gaga com MAYHEM personifica a “narrativa de retorno”, um arquétipo que a Academia historicamente adora premiar como forma de reconhecimento à longevidade e à reinvenção artística.

Contudo, a análise crítica mais provocadora recai sobre Bad Bunny. Com DeBÍ TiRAR MáS FOToS, ele testa novamente o teto de vidro da indústria para obras em língua espanhola. Uma vitória de Benito seria o reconhecimento tardio de que o centro de gravidade do pop se deslocou definitivamente, algo que veículos como a Complex e o Stereogum vêm cobrando com insistência, especialmente após a abertura da Academia para novos membros latinos no último ano.
Nas categorias de Canção e Gravação do Ano, o cenário é de um campo de batalha entre a viralidade e a substância. O sucesso estratosférico de “APT.”, de Rosé e Bruno Mars, representa a culminação do K-pop em solo americano, fundindo a estrutura clássica da composição de Mars com o poder global de Rosé. No entanto, críticos da Pitchfork apontam para “luther”, de Kendrick Lamar e SZA, como a escolha mais acertada dada a sofisticação harmônica e a química inegável entre dois ícones da música negra contemporânea.
A presença do grupo virtual HUNTR/X com a canção “Golden” é o ponto de maior discórdia crítica desta edição. Ver uma banda fictícia de uma trilha sonora de animação competindo contra nomes como Billie Eilish sinaliza uma mudança perigosa — ou inevitável — para uma premiação que sempre se orgulhou de celebrar a “alma” humana por trás da música.
Para os puristas, uma vitória de HUNTR/X seria a prova definitiva de que o Grammy sucumbiu à lógica da audiência digital.
Para o cenário nacional, o foco total está na categoria de Melhor Álbum de Música Global. A indicação de Caetano Veloso e Maria Bethânia com o registro ao vivo da turnê histórica de 2024 coloca o Brasil novamente sob os holofotes. Embora enfrentem a concorrência pesada de gigantes africanos como Burna Boy e Angélique Kidjo, a vitória da dupla brasileira seria um reconhecimento à “realeza” da MPB, celebrando uma parceria que, em termos de impacto histórico, poucas duplas no mundo conseguem igualar.

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