A obra da economista britânica Noreena Hertz, intitulada “O Século da Solidão”, é um manifesto para compreender a fragmentação do tecido social contemporâneo. No livro, Hertz defende a tese que o isolamento que define a nossa era não é um acidente biológico ou apenas uma consequência da tecnologia, mas sim o produto de décadas de escolhas políticas e econômicas deliberadas.
Ela detalha como o neoliberalismo agressivo e a economia do sem contato transformaram o ato de viver em sociedade em uma série de transações isoladas.
O conceito central de Hertz gira em torno da atomização do indivíduo (conceito sociológico que descreve o processo pelo qual os membros de uma sociedade perdem seus laços orgânicos de comunidade e se tornam unidades isoladas, como “átomos” que flutuam sem conexão uns com os outros).

Ela descreve com precisão a ascensão de uma infraestrutura que lucra com a ausência de interação humana real, desde os caixas de autoatendimento que eliminam conversas casuais até a arquitetura urbana desenhada para impedir o convívio em espaços públicos.
Para a autora, essa erosão dos laços de proximidade criou um vácuo emocional que agora é preenchido pelo consumo desenfreado e pelo ressurgimento de movimentos políticos extremistas, os quais oferecem um falso senso de pertencimento a pessoas que se sentem invisíveis para o sistema.
A narrativa de Hertz encontra um reflexo assustador e provocativo na ficção contemporânea, especialmente na série “Pluribus”, do serviço Apple TV+.

Criada por Vince Gilligan e protagonizada por Rhea Seehorn, a produção imagina um cenário onde um vírus extraterrestre força a humanidade a uma consciência coletiva denominada O Ingresso.
Enquanto o livro de Hertz analisa a dor do isolamento, Pluribus explora o horror da solução extrema. Na série, a personagem Carol Sturka luta para manter sua individualidade em um mundo onde a solidão foi erradicada através da extinção do eu. A conexão entre as duas obras reside no questionamento sobre o preço da conexão: enquanto Hertz alerta para a desumanização causada pela falta de contato, a série da Apple ilustra que a perda da capacidade de estar só também é uma forma de aniquilação da liberdade humana.
A profundidade de “O Século da Solidão” permite diálogos diretos com outros pilares da literatura sociológica recente. É impossível ignorar a influência de “Juntos”, obra do médico Vivek Murthy, que trata a solidão como uma epidemia de saúde pública com danos físicos comparáveis ao tabagismo.

Da mesma forma, o trabalho de Sherry Turkle em “Sozinhos Juntos” complementa a visão de Hertz ao analisar como as redes sociais criam uma ilusão de companhia que na verdade esgota nossa capacidade de empatia.
Hertz, no entanto, vai além ao politizar o debate, afirmando que a cura para este mal não está apenas no detox digital, mas na reconstrução de instituições que valorizem o cuidado e a presença física.
Em última análise, o livro de Noreena Hertz e produções como “Pluribus” servem como espelhos complementares para a sociedade de 2026. Um aponta para o abismo da desconexão capitalista, enquanto o outro dramatiza o perigo de uma coletividade forçada que ignora a complexidade do indivíduo.
Juntas, essas obras sugerem que o desafio deste século não é apenas encontrar formas de estarmos conectados, mas sim redescobrir como podemos ser humanos juntos sem sacrificar a essência que nos torna únicos.
