Molly’s House – O primeiro refúgio queer de Londres

O termo “Molly” surgiu no século XVIII como uma gíria derivada de Mary (ou do latim mulier), utilizada de forma pejorativa para designar homens efeminados ou que mantinham relações com outros homens.
As primeiras menções a locais de encontro para esse público datam do final do século XVII, logo após a Revolução Gloriosa de 1688. Com o endurecimento das leis morais promovido por sociedades religiosas, os homossexuais londrinos criaram uma rede de subterrâneos urbanos.
As chamadas Molly Houses não eram necessariamente estabelecimentos comerciais registrados; muitas vezes, eram quartos alugados, tavernas ou casas de café que, em horários específicos, mudavam de pele para acolher sua comunidade.

Margaret Clap – Mother Clap @ IA

Em meados da década de 1720, em uma Londres marcada por legislações que puniam a sodomia com a morte, a taverna de Margaret Clap, em Holborn, emergiu como um espaço singular de resistência. Clap transformou seu estabelecimento em uma Molly House, criando um ambiente que ia muito além do consumo de bebidas: era um refúgio que oferecia camas, figurinos e, sobretudo, a possibilidade de expressão identitária.
Margaret era conhecida como Mother — Mãe —, designação que evidenciava seu papel social e afetivo. Ao acolher homens marginalizados e rejeitados por suas famílias, ela assumia uma função substitutiva de cuidado e proteção.
Essa dinâmica antecipa estruturas simbólicas ainda presentes na cultura queer contemporânea, onde figuras de liderança e acolhimento são igualmente designadas como “mothers“, indicando a persistência histórica dessas formas alternativas de parentesco. “Mama” Ru (RuPaul) é, hoje, o maior exemplo dessa linhagem.

Molly’s House – Sejam bem vindos @ IA

No interior daquela casa, especialmente nas noites de domingo, instaurava-se uma suspensão das normas sociais. Homens de diferentes classes — alfaiates, açougueiros e aprendizes — adotavam nomes como Phoebe, Seraphina ou Mary Magdalene. Esses “nomes de guerra” funcionavam como dispositivos de deslocamento identitário, permitindo uma negociação simbólica com as imposições da vida civil. O acervo de figurinos de Margaret reforçava essa prática, oferecendo vestimentas que operavam como verdadeiras armaduras, viabilizando a performance de gênero em um contexto hostil.

Molly’s House – Paródia @ IA

A organização interna da taverna revelava uma complexidade que ultrapassava a simples reunião social. Entre as práticas recorrentes, destacava-se o “festival do parto”, um ritual performativo no qual um dos participantes encenava o nascimento de uma boneca, assistido por “parteiras”. Essa encenação era uma paródia crítica das instituições normativas — especialmente a família tradicional —, funcionando como um exemplo precoce da estética Camp: uma forma de resistência que mobiliza o exagero e o humor como estratégias de subversão.

Molly’s House – Polari @ IA

A resistência, porém, não era apenas visual, mas profundamente linguística. Durante esses anos, os frequentadores refinaram o Polari, um dialeto secreto que servia como criptografia verbal contra a perseguição. Esse linguajar misturava gírias de marinheiros, termos do teatro e fragmentos de italiano, criando uma barreira de proteção sonora que permitia identificar um informante ou descrever um desejo em plena praça pública sem ser compreendido pelo entorno.
Essa necessidade de criar uma língua própria ecoa até hoje no Brasil através do Pajubá. Assim como os mollies de Londres usavam o Polari, a comunidade queer brasileira desenvolveu um dialeto que funde o português a vocábulos de matriz africana para “aquendar” a realidade e proteger a existência. Onde o Estado impõe o silêncio, a comunidade inventa um novo dicionário.

Gravura A Morning Frolic, or the Transmutation of the Sexes – John Collet – 1780 @ Reprodução

Em 1726, após uma operação baseada em informantes infiltrados, Margaret foi levada ao tribunal de Old Bailey. Enquanto três de seus “filhos” (Gabriel Lawrence, William Griffin e Thomas Wright) foram condenados à execução em Tyburn, a Margaret foi imposta uma punição destinada à humilhação pública: o pelourinho e o açoite.
Na praça de Smithfield, imobilizada e entregue à fúria de uma multidão incitada pelo ódio, Margaret foi atingida por pedras e detritos. Fragilizada, desmaiou repetidamente, sendo retirada às pressas para não morrer no local.

A punição de Margaret Clap – 1726 @ IA

Posteriormente encarcerada na prisão de Newgate, seu rastro desapareceu dos registros históricos. A ausência de documentação sobre seus últimos dias reforça o apagamento recorrente de figuras dissidentes. Margaret Clap não era queer, mas uma aliada cuja trajetória prova que a empatia, como prática social, é uma forma radical de resistência.

A condenação de Margaret forçou o fechamento de muitas casas, mas a sociabilidade queer tornou-se apenas mais difusa e descentralizada. É nesse contexto que surge o escândalo de Charles Hitchen em 1727. Oficial de alto escalão e membro de sociedades moralistas, ele frequentava secretamente as Molly Houses para chantagear e explorar os homens que deveria perseguir. Sua queda evidenciou a hipocrisia de um sistema onde a moralidade rígida coexistia com práticas privadas contraditórias.

Gravura The Old Beau in an Extasy – Carington Bowles a partir de uma obra de John Dixon – 1773 @ Reprodução

No MONDO MODA, acreditamos que resgatar esses universos é um ato político. Margaret Clap foi uma aliada visionária que compreendeu que a estética e o afeto são ferramentas inegociáveis de sanidade mental.
A história das Molly Houses é um testemunho de persistência; a prova da inesgotável capacidade humana de criar comunidade sob opressão.
A queda de Mother Clap não foi um ponto final, mas o início de uma reconfiguração silenciosa. Essas casas são os ancestrais diretos de Stonewall, dos bares de San Francisco e dos clubes de Berlim.
Elas nos ensinam que o gueto, antes de ser um lugar de prazer, era um porto de sobrevivência onde o Camp construía uma realidade alternativa para o perseguido.

Molly’s House @ Reprodução
  • “Mother Clap’s Molly House” (Mark Ravenhill): Peça de 2001 que intercala o século XVIII com a cena rave do século XXI, questionando o espírito de irmandade na era comercial.
  • Pesquisas de Rictor Norton: O historiador fundamental que “escavou” os registros de Old Bailey e salvou essas trajetórias do esquecimento.
  • “Molly’s House” (Barbara Freedman-De Vito): Obra que explora a arqueologia social do espaço físico como refúgio.
  • “Harlots” (Hulu/Série): Uma das representações visuais mais precisas e impactantes de uma Molly House em pleno funcionamento. Infelizmente a série não está disponível no Brasil.

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