A Trajetória das Modelos Negras: Do Poder das Capas ao Domínio das Passarelas

Por Jorge Marcelo Oliveira – Versão atualizada em Abril de 2026 – da original de Janeiro de 2011

Num mercado forjado pelo elitismo e pela supremacia de um padrão eurocêntrico que, por séculos, tentou apagar sua existência, a presença negra na moda nunca foi um convite, foi uma invasão. Não houve concessão ou benevolência da indústria; houve o corpo negro erguido como trincheira em uma luta por visibilidade, dignidade e humanidade.
As primeiras mulheres negras na moda não apenas desfilaram; elas botaram a cara para bater em um campo de batalha onde o racismo estrutural era a regra e o silenciamento, a estratégia.
Em 2026, embora a guerra tenha migrado das páginas impressas para a tirania dos algoritmos, o alicerce da resistência permanece o mesmo. Revisitar essa história exige coragem para encarar as vísceras do colorismo e o modo como o mercado utilizou a passabilidade de peles claras para fabricar ilusões de inclusão. MONDO MODA recusa esse olhar e combate a fetichização com soberania estética e compromisso com a reparação histórica.

A História das Modelos Negras @ IA

O que você verá a seguir não é um simples desfile de memórias, mas a crônica de uma rebelião em três atos. Primeiro, as Verdadeiras Pioneiras, que desbravaram o deserto da invisibilidade quando o sistema era uma porta trancada. Em seguida, as Consolidadas, que transformaram a presença negra em domínio cultural e comercial absoluto, forçando a indústria a se curvar ao talento inegável.
Por fim, as Estrelas da Era Digital, que em 2026 utilizam a força orgânica das redes para ditar as regras de um jogo que elas agora não apenas jogam, mas gerenciam. Esta é a história de como o corpo negro redefiniu o mundo.

1930 — 1940

Um período onde o corpo negro era invisibilizado ou lido apenas sob a lente do “exotismo” colonial. A moda era um santuário branco até a invasão das primeiras musas intelectuais.

Adrienne Fidelin
Onde e quando nasceu: Guadalupe, 1916.
Como começou: Chega a Paris e conhece Man Ray em 1936, tornando-se sua musa e colaboradora criativa.
Qual foi seu auge? Primeira modelo negra em uma revista de moda de grande circulação (Harper’s Bazaar, em 1937), rompendo uma proibição direta da indústria editorial.

Adrienne Fidelin @ Man Ray

Enfrentamento do preconceito: Foi invisibilizada pela história da arte por décadas, reduzida à figura de “musa”, apagando sua autoria intelectual.
Fortuna acumulada: Não acumulou riqueza proporcional à sua relevância, um padrão recorrente entre pioneiras negras.
Legado: Reinscrita na história em 2022 pelo The New York Times, Adrienne simboliza a reparação tardia de um apagamento sistemático.

Dorothea Towles Church
Onde e quando nasceu: Texas, Estados Unidos, 1922.
Como começou: Formada em Biologia, migra para Paris em busca de oportunidades.
Qual foi seu auge? Consagra-se como a primeira modelo negra na alta-costura parisiense (desfilando para nomes como Christian Dior).

Dorothea Towles – Revista JET – Abril 1953 @ IA

Enfrentamento do preconceito: Mesmo na Europa, enfrentou censura, chegando a ser proibida de aparecer em determinadas publicações.
Fortuna acumulada: Transformou sua carreira em um rentável modelo educacional itinerante ao retornar aos EUA.
Legado: Provou que sofisticação e intelectualidade são inseparáveis da imagem da mulher negra.

Ophelia DeVore
Onde e quando nasceu: Estados Unidos, 1922.
Como começou: Ingressa na Vogue School of Modeling e rapidamente percebe a necessidade de uma estrutura própria.
Qual foi seu auge? Funda a Grace Del Marco Agency em 1946, a primeira grande agência para modelos negras.

Ophelia DeVore na revista American Legacy – Fall 2003 @ Reprodução

Enfrentamento do preconceito: Enfrentou boicotes comerciais diretos ao tentar inserir modelos negras em campanhas nacionais estadunidenses.
Fortuna acumulada: Construiu capital empresarial e forte influência institucional dentro da indústria.
Legado: Criou a infraestrutura que permitiu a existência de gerações futuras. Sua missão era clara: provar que a beleza não é apenas branca.

Barbara Mae Watson
Onde e quando nasceu: Harlem, Nova York, Estados Unidos, 1918.
Como começou: Com formação em Direito pela NYU, ela não via a moda como futilidade, mas como diplomacia visual, unindo sua inteligência jurídica à estética para se tornar aquilo que ainda não existia: uma modelo-executiva.
Qual foi seu auge? O ano de 1946, quando, ao lado do ilustrador jamaicano Edward Brandford, fundou a Branford Models, Inc., a primeira agência de modelos negros licenciada dos Estados Unidos. Foi o momento de criação das “Branford Lovelies”, um grupo de embaixadoras culturais que incluía Hilda Simms e Helen Williams.

Barbara Mae Watson e Milo Gough @ Haddad

Enfrentamento do preconceito: Ela compreendia as engrenagens da segregação e as combateu com pragmatismo e números. Em vez de pedir permissão ao sistema branco, ela e seu sócio apresentaram relatórios a gigantes corporativas, como Pepsi e Philip Morris, provando que o consumidor negro era um gigante adormecido. A exigência era clara: para acessar esse mercado, o sistema precisaria abandonar as caricaturas racistas e adotar a representação real.
Fortuna acumulada: Construiu um capital social, político e financeiro formidável. Utilizou sua estrutura na moda como trampolim para a diplomacia governamental, vindo a se tornar, anos mais tarde, a primeira mulher negra a ocupar o cargo de Secretária de Estado Assistente dos Estados Unidos.
Legado: A Diplomacia Visual. Barbara provou que a mulher negra nas imagens não servia apenas para exibir roupas, mas para afirmar comando e estratégia. Ela mostrou que a agência de modelos poderia operar como um verdadeiro laboratório de poder econômico e intelectual.

Hilda Simms
Onde e quando nasceu: Minnesota, Estados Unidos, 1918.
Como começou: Atriz de teatro consagrada (protagonista de Anna Lucasta).
Qual foi seu auge? Anos 1940, trazendo o prestígio das artes cênicas para a moda e para a publicidade.

Hilda Simms – Revista Jet – Set 1959 @ Reprodução

Enfrentamento do preconceito: Lutou contra a “Lista Negra” de Hollywood e o estereótipo da servidão enraizado na cultura da época.
Fortuna acumulada: Manteve estabilidade financeira através de sua carreira multifacetada.
Legado: Trouxe a autoridade intelectual para a imagem da modelo negra.

1950 — 1960

O auge da segregação racial. A moda negra torna-se uma ferramenta de diplomacia e sofisticação acadêmica.

Sara Lou Harris Carter
Onde e quando nasceu: Carolina do Norte, Estados Unidos, 1923.
Como começou: Trabalhou como modelo na Branford Models para pagar seu mestrado em Educação na Universidade Columbia.
Qual foi seu auge? Década de 1950, consolidando-se como Lady Carter e embaixadora global.

Sara Lou Harris na JET Magazine Jun 1953 @ Reprodução

Enfrentamento do preconceito: Destruiu o arquétipo da “servidão” com sua postura de inegável elegância diplomática.
Fortuna acumulada: Casou-se com o Sir John Carter, integrando a nobreza diplomática da Guiana.
Legado: A prova viva de que a elegância negra é, também, uma moeda de poder político.

1960 — 1970

O momento em que a consciência política negra explode globalmente. A moda deixa de ser sobre “parecer europeia” e passa a ser sobre orgulho, valorização de traços naturais e a conquista do mercado de massas.

Helen Williams Jackson
Onde e quando nasceu: Estados Unidos, 1935.
Como começou: Costureira desde criança, migra para Paris após sofrer rejeições nos EUA sob a justificativa de ser “escura demais”.
Qual foi seu auge? Consagra-se como “La Belle Americaine” no mercado europeu no início dos anos 1960.

Helen Williams Jackson Revista Ebony Janeiro 1959 @ Moneta Sleet Jr.

Enfrentamento do preconceito: “Botou a boca no trombone”, denunciando o racismo sistêmico a jornalistas influentes nos EUA, forçando a mídia a olhar para o problema.
Fortuna acumulada: Muito valorizada, foi uma das primeiras profissionais a cobrar US$ 100 por hora já em 1961.
Legado: Abriu caminho para a valorização da pele retinta como um padrão de luxo indiscutível.

Donyale Luna
Onde e quando nasceu: Detroit, Estados Unidos, 1945.
Como começou: Descoberta nas ruas de Detroit pelo fotógrafo Richard Avedon.
Qual foi seu auge? Fez história como a primeira mulher negra na capa da Vogue britânica (1966).

Donyale Luna Queen Magazine Março 1968 @ Reprodução

Enfrentamento do preconceito: Constantemente tratada como um “exotismo”, viu sua humanidade ser frequentemente reduzida ao espetáculo editorial.
Fortuna acumulada: Teve rendimentos altos no auge, mas sua trajetória foi consumida pela toxicidade da indústria.
Legado: A primeira supermodelo global negra, a mulher que arrombou a porta editorial internacional.

Katiti Kironde II
Onde e quando nasceu: Nova York, Estados Unidos (filha de um diplomata de Uganda).
Como começou: Venceu o concurso “Best Dressed College Girl” da revista Glamour.
Qual foi seu auge? Em 1968, fez história como a primeira mulher negra na capa da revista Glamour.

Katiti Kironde Glamour College – Agosto 1968 @ Reprodução

Enfrentamento do preconceito: Quebrou a sólida barreira do mercado jovem e universitário, até então restrito a mulheres brancas.
Fortuna acumulada: Estável; seguiu uma respeitada carreira como designer e educadora.
Legado: Abriu as portas definitivamente para o mercado editorial jovem de massa.

Naomi Sims
Onde e quando nasceu: Oxford, Mississippi, Estados Unidos, 1948.
Como começou: Estudava Psicologia e Arte na NYU com bolsa de estudos. Após ser recusada por agências racistas, convenceu o fotógrafo Gosta Peterson a fotografá-la para o The New York Times.
Qual foi seu auge? Entre 1968 e 1969, ao se tornar a primeira modelo negra na capa do Ladies’ Home Journal e estampar a icônica capa da revista Life com o título “Black Models Take Center Stage”, além de campanhas históricas da Revlon.

Naomi Sims – LIFE Magazine – Outubro 1969 @ Reprodução

Enfrentamento do preconceito: Ouviu de todas as agências que sua pele era “escura demais” para vender produtos. Ela contornou o sistema enviando as fotos do NYT diretamente para agências de publicidade, criando sua própria demanda.
Fortuna acumulada: Milionária. Foi uma das primeiras a cobrar US$ 1.000 por semana e construiu a Naomi Sims Collection, um império de perucas e cosméticos que faturava US$ 5 milhões anuais já na década de 1970.
Legado: A primeira modelo negra a se tornar uma magnata da beleza. Provou que a mulher negra não precisava apenas de espaço na revista, mas de produtos formulados para sua própria biologia.

1970

A icônica Batalha de Versalhes (1973) redefine as dinâmicas de poder. A passarela ganha ritmo, movimento e uma atitude que o mundo branco não conseguia imitar.

Pat Evans
Onde e quando nasceu: Nova York, Estados Unidos.
Como começou: Modelo de passarela requisitada nos anos 1960.
Qual foi seu auge? Em 1970, chocou e fascinou a indústria ao raspar a cabeça, tornando-se o símbolo máximo da rebeldia visual.

Pat Evans em 1971 @ Anthony Barboza para a Getty Images

Enfrentamento do preconceito: Recusou-se terminantemente a usar perucas ou submeter-se a alisamentos capilares apenas para agradar editores brancos.
Fortuna acumulada: Profundamente valorizada no mercado de arte e moda como um ícone cult de vanguarda.
Legado: A grande precursora do orgulho estético radical e do poder da beleza careca.

Pat Cleveland
Onde e quando nasceu: Nova York, Estados Unidos, 1950.
Como começou: Descoberta no metrô de NY, aos 14 anos, por uma editora da Vogue.
Qual foi seu auge? Protagonista inesquecível da Batalha de Versalhes (1973).

Pat Cleveland – 1975 @ Anthony Barboza para Getty Images

Enfrentamento do preconceito: Exilou-se na Europa como forma de protesto, jurando não voltar aos EUA até que houvesse uma modelo negra na capa da Vogue América.
Fortuna acumulada: Finanças estáveis e duradouras; tornou-se uma verdadeira lenda viva da moda.
Legado: Inventou o arquétipo da “modelo-artista” e a performance dramática nas passarelas.

Norma Jean Darden
Onde e quando nasceu: Nova Jersey, Estados Unidos, 1939.
Como começou: Modelo editorial de altíssimo sucesso na década de 1960.
Qual foi seu auge? 1973, brilhando intensamente como uma das estrelas estadunidenses em Versalhes.

Norma Jean Darden – 1970 @ Kaz (Kazumi Kurigami)

Enfrentamento do preconceito: Provou na prática que as modelos negras eram o verdadeiro motor do sucesso comercial e cênico das marcas estadunidenses no exterior.
Fortuna acumulada: Milionária. Soube usar seus contatos e tornou-se uma empresária gastronômica de imenso sucesso.
Legado: O exemplo perfeito de uma transição bem-sucedida e inteligente da passarela para o empreendedorismo cultural.

Bethann Hardison
Onde e quando nasceu: Brooklyn, Estados Unidos, 1942.
Como começou: Descoberta por Bernie Ozer no Garment District de Nova York.
Qual foi seu auge? Versalhes (1973) e os anos 1980, quando fundou sua própria agência focada em diversidade.

Bethann Hardison Essence Magazine – Outubro 1974 @ Hugh Bell

Enfrentamento do preconceito: Criou a Black Girls Coalition em 1989 e permanece até hoje como uma das vozes mais ativas contra o racismo estrutural nos castings.
Fortuna acumulada: Considerável, proveniente de sua agência inovadora e do trabalho de consultoria para marcas de luxo.
Legado: A maior guardiã, matriarca e ativista da diversidade racial na moda mundial.

Alva Chinn
Onde e quando nasceu: Boston, Massachusetts, EUA, 1951.
Como começou: Estudava para ser professora quando foi descoberta. Sua ascensão foi meteórica devido ao seu porte aristocrático e técnico.
Qual foi seu auge? 1973, como uma das estrelas da Batalha de Versalhes. Tornou-se a musa definitiva de Halston, o estilista que definiu o minimalismo luxuoso da era Disco.

Alva Chinn 1990 @ Gilles Bensimon

Enfrentamento do preconceito: Alva lutou contra a ideia de que a modelo negra servia apenas para roupas “étnicas”. Ela era a personificação do luxo clean e sofisticado, desfilando sedas caríssimas com uma naturalidade que desarmava os críticos.

Alva Chinn @ Fadil Berisha

Fortuna acumulada: Tem uma carreira extremamente lucrativa e longeva, mantendo-se ativa no mercado de luxo e beleza por décadas.
Legado: A Modelo de Elite; provou que a estética negra era o par perfeito para o minimalismo de alto luxo estadunidense.

Billie Blair
Onde e quando nasceu: Flint, Michigan, EUA, 1952.
Como começou: Iniciou a carreira em Detroit, mas sua trajetória mudou quando mudou-se para Nova York e adotou o corte de cabelo curtíssimo, quase careca.
Qual foi seu auge? 1973. Na Batalha de Versalhes, Billie foi a “arma secreta”. Quando entrou na passarela com seu passo dramático e braços expressivos, a plateia francesa entrou em êxtase.

Billie Blair – Interview magazine Agosto 1974 @ Lipstick Alley

Enfrentamento do preconceito: Com traços angulares e físico extremamente magro, ela fugia do padrão “comercial” imposto às mulheres negras. Billie impôs sua singularidade como uma nova forma de beleza.
Fortuna acumulada: Foi uma das modelos mais requisitadas dos anos 70, estrelando capas da Vogue e Harper’s Bazaar.
Legado: A Performance na Passarela; transformou o desfile em uma forma de arte teatral e expressiva.

Jennifer Brice
Onde e quando nasceu: Estados Unidos.
Como começou: Surgiu no início dos anos 70 e rapidamente foi absorvida pelo grupo de modelos que orbitava os grandes estilistas de Nova York.
Qual foi seu auge? Novembro de 1973. Foi uma das dez modelos negras históricas que mudaram o curso da moda em Versalhes, representando a elegância vibrante dos EUA.

Jennifer Brice na revista Essence 1973 @ Anthony Barboza

Enfrentamento do preconceito: Jennifer enfrentou o racismo estrutural dos sindicatos de modelos que tentavam limitar o número de profissionais negras em viagens internacionais.
Fortuna acumulada: Construiu uma carreira sólida, sendo um rosto constante nas páginas da revista Essence e em campanhas de cosméticos.
Legado: A Pioneira da Diversidade Global; faz parte do grupo que forçou a Europa a aceitar a moda multicultural.

Grace Jones
Onde e quando nasceu: Spanish Town, Jamaica, 1948.
Como começou: Trabalhando como modelo em Paris, onde chegou a dividir apartamento com Jerry Hall.
Qual foi seu auge? Anos 1970 e 1980, unindo moda, música, vida noturna e androginia em uma estética inigualável.

Grace Jones Essence Magazine @ Anthony Barboza

Enfrentamento do preconceito: Desafiou o conservadorismo estético, de gênero e o fanatismo religioso com sua imagem imponente, afiada e radical.
Fortuna acumulada: Multimilionária; transcendendo a moda para se tornar uma estrela global da música e do cinema.
Legado: A personificação absoluta do conceito Imagem + Atitude.

Beverly Johnson
Onde e quando nasceu: Buffalo, Estados Unidos, 1952.
Como começou: Nadadora campeã que entrou para a faculdade de Direito e começou a modelar em um trabalho de verão.
Qual foi seu auge? Fazer história como a primeira mulher negra na capa da Vogue América (Agosto de 1974).

Beverly Johnson – Vogue America – Agosto 1974 @ Reprodução

Enfrentamento do preconceito: Estilhaçou um tabu editorial e racial que durava 82 anos dentro da editora Condé Nast.
Fortuna acumulada: Multimilionária, com mais de 500 capas no currículo. Expandiu seus negócios para linhas de perucas e atuação.
Legado: Redefiniu permanentemente o mercado publicitário estadunidense, provando matematicamente que a beleza negra vende, e muito.

Peggy Dillard-Tonne
Onde e quando nasceu: Greenville, Carolina do Sul, Estados Unidos.
Como começou: Estudava Belas Artes no Pratt Institute e começou a modelar para custear seus estudos.
Qual foi seu auge? Sua histórica capa na Vogue América em agosto de 1977 abriu portas para seu domínio editorial durante todos os anos 1980, sendo a primeira a exibir uma estética radicalmente natural em publicações de grande porte.

Peggy Dillard-Toone – Vogue Agosto 1977 @ Albert Watson

Enfrentamento do preconceito: Em uma era de químicas capilares agressivas, Peggy impôs o uso de tranças rasteiras (cornrows) e o cabelo natural na alta-roda. Enfrentou de frente o estigma de que o cabelo afro não era “versátil” ou “elegante”.
Fortuna acumulada: Usou seu prestígio para tornar-se uma empresária pioneira, fundando o salão Turning Heads no Harlem, totalmente focado em saúde capilar natural.
Legado: A Madrinha da Transição Capilar. Provou que a identidade negra ancestral era intimamente compatível com o mais alto nível do luxo editorial.

1980

A década de 1980 foi marcada por uma ambiguidade cruel: ao mesmo tempo em que o mundo via o surgimento das primeiras supermodelos negras globais, a estrutura das agências e revistas operava sob a perversa regra não escrita de que só havia espaço para “uma negra por vez” no topo.

Mounia Orosemane
Onde e quando nasceu: Martinica, 1955.
Como começou: Ex-aeromoça, descoberta e lançada na alta roda de Paris.
Qual foi seu auge? Finais dos anos 1970 e ao longo dos anos 1980, como a grande musa de Yves Saint Laurent.

Mounia Orosemane na capa da Harper’s Bazaar França – Fev 1988 @ Bill King

Enfrentamento do preconceito: Foi a primeira modelo negra a desfilar alta-costura para a Dior, exigindo para si e recebendo tratamento aristocrático nos bastidores. Também foi a primeira a desfilar para a Chanel.
Fortuna acumulada: Elevada; firmou-se como uma das modelos mais bem pagas de Paris em sua era.
Legado: É o elo histórico entre a elegância clássica das passarelas e o poder enérgico das supermodelos modernas.

Sheila Johnson
Onde e quando nasceu: Estados Unidos.
Como começou: Surgiu na transição do final dos anos 1970, mas foi seu rosto que dominou a estética “clean” dos anos 1980.
Qual foi seu auge? Março de 1980, ao estampar a capa da Vogue América. Ela definiu a “beleza atlética e saudável” que marcou o início da década.

Sheila Johnson – Vogue US Março de 1980 @ Richard Avedon

Enfrentamento do preconceito: Lutou arduamente contra o tokenismo geográfico. Muitas vezes, modelos negras eram limitadas a editoriais rotulados como “tribais” ou ambientados em “selvas”. Sheila exigiu ser o rosto de campanhas urbanas, vendendo joias, carros de luxo e cosméticos de ponta.
Fortuna acumulada: Uma das mais requisitadas por grandes anunciantes, construiu um capital robusto através de longos e lucrativos contratos publicitários.
Legado: A Pioneira do Luxo Aspiracional. Destruiu a visão de que a mulher negra era apenas um “nicho”, colocando-a no centro do desejo de consumo global.

Shari Belafonte
Onde e quando nasceu: Nova York, Estados Unidos, 1954.
Como começou: Filha do lendário cantor e ativista Harry Belafonte. Apesar de ter nascido sob holofotes, escolheu a moda para cravar sua própria identidade.
Qual foi seu auge? Início e meados dos anos 1980. Deter o recorde histórico de cinco capas da Vogue em um curto período, além de ser o rosto onipresente mundialmente nos jeans da Calvin Klein.
Enfrentamento do preconceito: Confrontou frequentemente a narrativa elitista de que seu sucesso derivava apenas de seu sobrenome famoso. Respondeu tornando-se a modelo estadunidense mais comercialmente viável de sua época.

Shari Belafonte – Vogue Magazine – Dezembro 1982 @ Richard Avedon

Fortuna acumulada: Multimilionária. Fez a transição para a atuação (na série Hotel) e para a música, cimentando-se como uma das maiores celebridades negras globais dos anos 1980.
Legado: A Modelo-Celebridade Original. Pavimentou o caminho comercial transmídia que inspiraria nomes como Tyra Banks na década seguinte.

Iman
Onde e quando nasceu: Mogadíscio, Somália, 1955.
Como começou: Filha de diplomata, foi descoberta pelo fotógrafo Peter Beard enquanto estudava Ciência Política no Quênia.
Qual foi seu auge? Anos 1980 e 1990, tornando-se musa incontestável de Yves Saint Laurent e Thierry Mugler.

Iman Vogue Itália Março 1976 @ Norman Parkinson

Enfrentamento do preconceito: Recusou a narrativa da “exceção exótica” desde o primeiro dia, lutando agressivamente por igualdade salarial frente às modelos brancas.
Fortuna acumulada: Patrimônio estimado em mais de US$ 100 milhões, alavancado magistralmente pela fundação da Iman Cosmetics.
Legado: A pioneira da supermodelo-executiva, compreendendo que a verdadeira soberania reside em ser dona dos meios de produção.

Veronica Webb
Onde e quando nasceu: Detroit, Estados Unidos, 1965.
Como começou: Mudou-se para Nova York para estudar Design e acabou descoberta por um olheiro enquanto fazia compras.
Qual foi seu auge? Construiu sua base nos anos 1980, mas dominou a década de 1990 ao fazer história, em 1992, como a primeira modelo negra a assinar um contrato milionário e exclusivo de cosméticos (com a Revlon).

Veronica Webb Revlon @ Reprodução

Enfrentamento do preconceito: Atacou frontalmente o estereótipo de “modelo muda”. Usou seu cérebro e caneta para se tornar editora e colunista respeitada em veículos de alto perfil.
Fortuna acumulada: Multimilionária, garantida por contratos históricos e uma consolidada carreira no jornalismo de moda.
Legado: A Modelo-Intelectual. Provou que a narrativa da moda precisa obrigatoriamente ser escrita, pensada e gerida por mãos negras.

Karen Alexander
Onde e quando nasceu: Nova Jersey, Estados Unidos, 1964.
Como começou: Enfrentou severas rejeições (incluindo da icônica Eileen Ford, que disse que ela “não era fotogênica” ou que a agência “já tinha modelos negras o suficiente”). Sua virada veio ao assinar com a Legends Agency.
Qual foi seu auge? Entre 1988 e 1992, tornou-se a musa de fotógrafos exigentes como Bruce Weber e Steven Meisel, protagonizando campanhas da Gap, Tiffany & Co. e Ralph Lauren. Em 1990, a revista People a elegeu uma das “50 Pessoas Mais Bonitas do Mundo”.

Karen Alexander – Vogue US – Janeiro 1989 @ Herb Ritts

Enfrentamento do preconceito: Foi uma voz implacável contra o racismo “velado” das agências de Nova York, que disfarçavam a exclusão com a palavra “fotogenia”. Mostrou que a estética negra pode (e deve) representar o conceito universal do luxo e do lifestyle estadunidense.
Fortuna acumulada: Um patrimônio sólido construído com inteligência, focando em longos e lucrativos contratos comerciais.
Legado: Pavimentou o caminho para a “modelo vizinha” (girl next door) negra, provando que o sucesso comercial não exige uma roupagem eternamente exótica ou agressiva.

Roshumba Williams
Onde e quando nasceu: Chicago, Illinois, EUA, 1968.
Como começou: Descoberta em Paris pelo estilista Yves Saint Laurent em 1987, mas consolidou sua carreira global no início da década de 90.
Qual foi seu auge? Início dos anos 1990, ao tornar-se uma das raras modelos negras a figurar repetidamente na edição de trajes de banho da Sports Illustrated (1990-1992), um dos maiores sucessos comerciais da época.

Roshumba Williams – Editorial da revista Sassy – Abril 1991@ Eddy Kohli

Enfrentamento do preconceito: Roshumba lutou contra a limitação técnica imposta a modelos negras, transicionando com sucesso da passarela de alta-costura para o mercado de massa e, posteriormente, para a televisão como apresentadora e autora.
Fortuna acumulada: Multimilionária; construída através de contratos publicitários de longa duração e de sua bem-sucedida carreira na mídia e como escritora de livros sobre a indústria.
Legado: A Modelo-Comunicadora; foi uma das primeiras a humanizar a profissão de modelo para o grande público, explicando os bastidores e as dificuldades do mercado para mulheres negras.

1990

Os anos 1990 trouxeram uma polarização estratégica para as mulheres negras na moda. Se a década anterior foi sobre “conquistar o espaço”, esta foi sobre dominar a cultura pop e expandir cifras milionárias. Foi a era de ouro das Supermodels, mas também um período de embate contra o “minimalismo branco”, uma tendência que ameaçou trazer uma nova onda de exclusão nos castings.

Naomi Campbell
Onde e quando nasceu: Londres, Inglaterra, 1970.
Como começou: Descoberta aos 15 anos de idade, enquanto passeava pelas vitrines de Covent Garden.
Qual foi seu auge? Primeira mulher negra a estampar a capa da Vogue Paris (1988). Ao longo dos anos 1990, consolidou-se como membro da famosa “Trindade” e uma das cinco Supermodelos mais poderosas da história.

Naomi Campbell – Vogue Paris – Agosto 1988 @ Reprodução

Enfrentamento do preconceito: Para conseguir suas primeiras grandes capas internacionais, contou com a pressão comercial direta de mestres como Yves Saint Laurent sobre os editores.
Fortuna acumulada: Contratos estratosféricos, campanhas incontáveis e um status intocável de supermodelo global.
Legado: A soberania absoluta. Sua longevidade na indústria é, por si só, um monumental ato de resistência.

Beverly Peele
Onde e quando nasceu: Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos, 1975.
Como começou: Aos 12 anos já trabalhava; aos 14 estampava a capa da Mademoiselle, causando frisson imediato pela mistura de juventude precoce e sofisticação inata.
Qual foi seu auge? De 1989 a 1995, estampou mais de 250 capas de revistas, virou a queridinha de Gianni Versace e caminhou nas passarelas de Chanel a Prada. Era a “sucessora natural” no zeitgeist da moda.

Beverly Peele – Mademoiselle – Fev 1989 @ Paul Lange

Enfrentamento do preconceito: Lutou contra a invisibilidade da juventude negra na alta-costura (que preferia figuras maduras) e contra a intensa objetificação precoce de uma indústria predatória.
Fortuna acumulada: Figurou entre os maiores salários do início dos anos 1990.
Legado: Sua decisão de pausar para a maternidade aos 17 anos chocou um sistema de controle de corpos. Contudo, ela provou que o mercado teen de altíssimo luxo poderia ser dominado por uma jovem estadunidense afrodescendente.

Tyra Banks
Onde e quando nasceu: Inglewood, Califórnia, Estados Unidos, 1973.
Como começou: Rejeitada por seis agências em Los Angeles aos 15 anos, ela estourou em Paris fechando impressionantes 25 desfiles em sua primeira temporada.
Qual foi seu auge? A primeira modelo negra na capa da Sports Illustrated (edição de moda praia) e da revista GQ. A partir dos anos 2000, ergueu seu império televisivo.

Tyra Banks no Victoria’s Secret Fashion Show 1998 @ JON LEVY/AFP/Getty Images

Enfrentamento do preconceito: Denunciou o colorismo, quebrou a ditadura das medidas na passarela de alta-costura, rompeu o teto de vidro na Victoria’s Secret e levou o debate racial para a TV aberta diária.
Fortuna acumulada: Estimada em mais de US$ 90 milhões, alicerçada por seu império midiático e pela franquia America’s Next Top Model.
Legado: A transição definitiva da imagem de passarela para a cadeira de produtora-executiva e showrunner.

Lana Ogilvie
Onde e quando nasceu: Toronto, Canadá, 1968.
Como começou: Descoberta em um desfile estudantil de moda no Canadá, mudou-se para Nova York onde firmou parceria com a poderosa Ford Models.
Qual foi seu auge? Em 1992, fez história na publicidade ao se tornar a primeira mulher negra a assinar um contrato exclusivo e maciço com a CoverGirl.

Lana Ogilvie – Campanha Cover Girl – 1992 @ Gilles Bensimon

Enfrentamento do preconceito: Destruiu a noção arcaica da indústria de cosméticos “de cor única”. Ela forçou o mercado massivo a entender que o consumo de beleza não-branco era parte fundamental e indispensável do faturamento global.
Fortuna acumulada: Atingiu a elite financeira das modelos publicitárias, o que permitiu sua transição posterior para o design de joias e apresentação de TV.
Legado: O rosto que ensinou às marcas de cosméticos comerciais o real valor da mulher negra como consumidora prioritária.

Alek Wek
Onde e quando nasceu: Wau, Sudão do Sul, 1977.
Como começou: Refugiada de guerra, fugiu para Londres onde foi descoberta caminhando em um mercado de rua.
Qual foi seu auge? Em 1997, tornou-se a primeira modelo retinta e de traços marcantemente africanos a estampar a capa da Elle (EUA), quebrando paradigmas de beleza mundiais.

Alek Wek Elle Novembro 1997 @ Gilles Bensimon

Enfrentamento do preconceito: Recebeu uma torrente de incredulidade da mídia tradicional por não ceder nem um milímetro ao padrão de beleza eurocêntrico (ou mesmo mestiço).
Fortuna acumulada: Construiu fortuna sólida, aliando prestígio no mercado de luxo com uma atuação institucional fortíssima.
Legado: A revolução estética pura. Ampliou o vocabulário visual da moda global e atua fortemente como embaixadora do ACNUR/ONU.

Brandi Quinones
Onde e quando nasceu: Nova York, EUA, 1977.
Como começou: Descoberta aos 16 anos, foi enviada para Paris, onde se tornou instantaneamente a favorita de estilistas como Karl Lagerfeld e Jean Paul Gaultier.
Qual foi seu auge? Meados dos anos 1990. Ela foi a primeira modelo a desfile para a Chanel, a Dior e a Hermès na mesma temporada, dominando as passarelas europeias com uma beleza que misturava ancestralidade e modernidade urbana.

Brandi Quinones – Elle França Agosto 1993 @ Gilles Bensimon

Enfrentamento do preconceito: Brandi desafiou o estereótipo de que a modelo negra precisava ser “agressiva” ou “exótica” na passarela. Ela trazia uma suavidade e um frescor que abriram portas para uma nova estética de luxo.
Fortuna acumulada: Considerável, vinda de contratos de exclusividade e campanhas para as maiores maisons de luxo do mundo.
Legado: A Aristocracia das Passarelas; provou que a juventude negra estadunidense poderia ocupar o centro do luxo conservador europeu com soberania absoluta.

2000 — 2013

A virada do milênio viu a exigência por pluralidade sair do campo discursivo para os números de vendas. A pressão das ruas e a denúncia da escassez tornaram a invisibilidade mercadologicamente insustentável.

Liya Kebede
Onde e quando nasceu: Adis Abeba, Etiópia, 1978.
Como começou: Descoberta em sua escola por um diretor de cinema, seu talento a levou de Paris a Nova York.
Qual foi seu auge? 2003, rompendo 57 anos de branquitude na Estée Lauder ao assinar contrato de exclusividade. Em 2008, foi estrela da histórica “A Black Issue” da Vogue Itália. Também foi estrela de 24 capas de Vogues em diversos países.

Liya Kebede – Campanha Estee Lauder – FW 2003 @ Steven Meisel

Enfrentamento do preconceito: Dinamitou o teto de vidro na beleza de altíssimo luxo que historicamente recusava perfis estritamente africanos.
Fortuna acumulada: Multimilionária; fundou a marca de luxo sustentável Lemlem.
Legado: A Modelo-Filantropa. Emprega saberes manuais de seu país, provando que a moda tem o dever ético de gerar impacto econômico real e emancipador no continente africano.

Chanel Iman
Onde e quando nasceu: Atlanta, Estados Unidos, 1990.
Como começou: Trabalhando precocemente em Los Angeles, decolou após vencer o 3º lugar no Supermodel of the World da Ford em 2006.
Qual foi seu auge? De 2006 a 2009, como queridinha absoluta das passarelas de Nova York e “Angel” carimbada da Victoria’s Secret.

Chanel Iman – Harper’s Bazaar Dubai – Maio 2009 @ John Russo

Enfrentamento do preconceito: Uma das raras modelos de sua geração a expor de forma contundente à imprensa que grandes estilistas insistiam em utilizar o sistema da “cota de uma única negra” nos desfiles.
Fortuna acumulada: Milionária, figurando entre as mais bem remuneradas e requisitadas da década.
Legado: A New Gen do Luxo; personificou com maestria a transição da exclusividade das passarelas para a nova cultura pop e red carpets.

Sessilee Lopez
Onde e quando nasceu: Filadélfia, Estados Unidos, 1989.
Como começou: Chegou ao mercado em 2004 e rapidamente cativou os olhos de Jean Paul Gaultier e Karl Lagerfeld.
Qual foi seu auge? 2008, ocupando uma das quatro capas memoráveis da histórica “A Black Issue” da Vogue Itália.

Sessilee Lopez na capa da The Black Issue Vogue Itália Julho 2008 @ Steven Meisel

Enfrentamento do preconceito: Precisou calibrar constantemente uma excelência técnica irretocável em um mercado que teimava em tentar reduzi-la à caixa do “exotismo”.
Fortuna acumulada: Construiu carreira financeiramente sólida e perene com campanhas globais para Hermès, Calvin Klein e MAC.
Legado: A Camaleoa Técnica. Uma das provas irrefutáveis de que uma revista editada e focada 100% na beleza negra rende um esgotamento comercial absoluto nas bancas.

Jourdan Dunn
Onde e quando nasceu: Londres, Inglaterra, 1990.
Como começou: Descoberta de forma inusitada em uma loja da Primark, aos 15 anos.
Qual foi seu auge? O ano de 2008, onde fez história como a primeira mulher negra a caminhar na passarela da Prada em 11 anos (desde Naomi Campbell em 1997).

Jourdan Dunn na capa da Vogue UK – Janeiro 2015 @ Patrick Demarchelier

Enfrentamento do preconceito: Nunca recuou. Denunciou as desigualdades salariais em relação a modelos brancas e o absurdo (ainda persistente) de cabeleireiros de grandes semanas de moda que “não sabem” manusear cabelos afro.
Fortuna acumulada: Multimilionária. Rosto de marcas da Maybelline a Burberry.
Legado: A Consciência de Classe nas passarelas. Converteu seus milhões de seguidores em uma ferramenta incessante de escrutínio contra a indústria.

Joan Smalls
Onde e quando nasceu: Hatillo, Porto Rico, 1988.
Como começou: Mudou-se para Nova York em 2007. Seu boom aconteceu com um contrato exclusivo selado pela Givenchy em 2010.
Qual foi seu auge? 2011-2012. Ascendeu ao cobiçado posto de Número 1 do Mundo pelo Models.com e tornou-se estrela da Estée Lauder.

Joan Smalls – Campanha Estée Lauder – 2012 @ Craig McDean

Enfrentamento do preconceito: Quebrou em pedaços a barreira limitante do “nicho latino”, elevando o padrão afro-latino ao cume do reconhecimento da alta-moda.
Fortuna acumulada: Listada pela Forbes como uma das modelos de maior faturamento do mundo na década de 2010.
Legado: A Soberania Latina. Com uma marcha técnica inigualável na passarela, ajudou a eliminar de vez o conceito de “modelo segmentada”.

2013 — 2026

O represamento finalmente cedeu. A ascensão da nova corte de soberanas não dependeu mais puramente do aval das agências, mas da força incalculável, orgânica e incontrolável das redes sociais, onde o público passou a exigir o que o sistema tentava continuar negando.

Malaika Firth
Onde e quando nasceu: Mombasa, Quênia, 1994.
Como começou: Inscrita pela própria mãe em uma agência em Londres, após ser inspirada por um documentário sobre modelos.
Qual foi seu auge? 2013, o ano em que a indústria global cedeu ao seu charme clássico e a tornou a primeira modelo negra a estrelar uma campanha principal de vestuário da Prada em impressionantes 19 anos.
Enfrentamento do preconceito: Quebrou um dos jejuns raciais mais inexplicáveis e excludentes que a elite de Milão mantinha veladamente.
Fortuna acumulada: Elevada, fruto de uma prestigiada trajetória internacional para Valentino e Burberry.
Legado: O fim da tolerância às exceções. A campanha de Malaika encerrou as desculpas de marcas europeias que tratavam a inclusão como “eventos isolados”.

Paloma Elsesser
Onde e quando nasceu: Londres, Inglaterra, 1992 (criada em Los Angeles, EUA).
Como começou: Descoberta no Instagram pela maquiadora lendária Pat McGrath, que a escolheu para ser o rosto de sua marca.
Qual foi seu auge? 2020 — 2021, ao ser eleita “Modelo do Ano” pelo Models.com e estampar a capa da Vogue América. Em 2026, ela é a voz líder da moda plus-size global.
Enfrentamento do preconceito: Paloma implodiu a barreira do “nicho curvy”. Ela não é apenas uma modelo plus-size; ela é uma das modelos mais influentes do mundo, ponto. Ela luta contra o tokenismo de corpos gordos que as marcas costumam praticar.
Fortuna acumulada: Multimilionária; com contratos de elite que vão de marcas de luxo como Fendi a gigantes de cosméticos.
Legado: A Nova Identidade do Luxo. Ela provou que o estilo e a relevância editorial não dependem de uma numeração de roupa, mas de uma presença intelectual e estética poderosa.

Shanelle Nyasiase
Onde e quando nasceu: Gambela, Etiópia (de ascendência sul-sudanesa), 1997.
Como começou: Começou a modelar no Quênia e sua carreira internacional decolou após estrear com exclusividade para a Alexander McQueen.
Qual foi seu auge? 2018 — 2019, quando foi a modelo que mais desfilou em uma única temporada (quase 50 desfiles), tornando-se a favorita de marcas como Versace e Miu Miu.
Enfrentamento do preconceito: Shanelle consolidou o caminho aberto por Alek Wek, provando que a pele retinta e os traços africanos puros são o ápice da sofisticação da alta-costura, e não um “elemento exótico”.
Fortuna acumulada: Elevada; construída através de um volume massivo de trabalhos para as maiores casas de moda do planeta.
Legado: A Soberania das Passarelas. Ela é a prova de que a disciplina técnica e a beleza ancestral africana são o motor atual da moda de luxo europeia.

Mayowa Nicholas
Onde e quando nasceu: Lagos, Nigéria, 1998.
Como começou: Foi a primeira nigeriana a vencer o concurso Elite Model Look em seu país, em 2014.
Qual foi seu auge? 2016 — 2018, tornando-se a primeira modelo nigeriana a estrelar campanhas de marcas como Dolce & Gabbana e Saint Laurent, além de desfilar para a Victoria’s Secret.
Enfrentamento do preconceito: Mayowa rompeu as dificuldades logísticas e o preconceito contra modelos vindas diretamente do mercado africano (Lagos), abrindo um corredor de exportação de talentos que hoje é vital para a moda.
Fortuna acumulada: Milionária; uma das modelos africanas mais bem pagas da história recente.
Legado: A Explosão Nigeriana. Ela é a madrinha de uma nova geração de modelos africanas que não precisam mais morar na Europa para serem descobertas; ela colocou Lagos no mapa mundial do scouting.

Imaan Hammam
Onde e quando nasceu: Amsterdã, Holanda, 1996 (de ascendência egípcia e marroquina).
Como começou: Descoberta na estação central de Amsterdã aos 13 anos; estreou com exclusividade para a Givenchy em 2013.
Qual foi seu auge? Entre 2017 e 2026, tornando-se uma das modelos com o maior número de capas da Vogue na história (mais de 20), sendo o rosto de marcas como Chanel e Versace.
Enfrentamento do preconceito: Redefiniu a presença afro-árabe na moda, lutando contra estereótipos religiosos e culturais e provando que a identidade plural é a nova face da beleza global.
Fortuna acumulada: Multimilionária; com contratos de cosméticos e luxo que a colocam no topo da pirâmide financeira da moda.
Legado: A Identidade Plural. Imaan provou que as raízes africanas e árabes são o novo padrão de sofisticação internacional.

Adwoa Aboah
Onde e quando nasceu: Londres, Inglaterra, 1992.
Como começou: Vinda de uma família influente na moda, sua carreira decolou quando decidiu usar sua imagem para falar sobre questões sociais profundas.
Qual foi seu auge? 2017, ao estampar a primeira capa de Edward Enninful na Vogue britânica, simbolizando a nova era da diversidade editorial.
Enfrentamento do preconceito: Quebrou o tabu da “perfeição” ao fundar a plataforma Gurls Talk, falando abertamente sobre saúde mental, vício e vulnerabilidade da mulher negra na indústria.
Fortuna acumulada: Considerável; unindo sua carreira de modelo a projetos de consultoria e mídia.
Legado: A Modelo-Ativista de Alma. Adwoa provou que a beleza contemporânea é indissociável das causas políticas e do bem-estar mental.

Precious Lee
Onde e quando nasceu: Atlanta, Geórgia, EUA, 1989.
Como começou: Começou a modelar aos 18 anos, mas sua revolução aconteceu quando decidiu não se submeter aos padrões de magreza extrema.
Qual foi seu auge? 2020 — 2021, tornando-se a primeira modelo negra plus-size na capa da Vogue América e estrelando campanhas globais para Versace e Fendi.
Enfrentamento do preconceito: A força de Precious reside na interseccionalidade. Ela implodiu a tirania da magreza, expandindo a luta de pioneiras como Pat Evans para a diversidade real de formas.
Fortuna acumulada: Milionária; uma das modelos curve mais bem pagas e influentes do mundo.
Legado: A Revolução das Curvas. Ela forçou a alta-costura a entender que o luxo não tem um número de manequim fixo.

Duckie Thot
Onde e quando nasceu: Melbourne, Austrália, 1995 (de ascendência sul-sudanesa).
Como começou: Ficou em terceiro lugar no Australia’s Next Top Model, mas precisou se mudar para Nova York para ser levada a sério.
Qual foi seu auge? 2017 — 2018, quando se tornou o rosto da Fenty Beauty (de Rihanna) e desfilou para a Victoria’s Secret.
Enfrentamento do preconceito: Duckie levou para as redes sociais a denúncia contra o despreparo de profissionais de beleza que não sabiam lidar com peles retintas, transformando a indignação em mudança prática nos bastidores.
Fortuna acumulada: Milionária; consolidada como um ícone de beleza e rosto de marcas globais de cosméticos.
Legado: A “Barbie Humana” da Vida Real. Ela provou que a pele retinta absoluta é o padrão de perfeição estética do novo século.

Anok Yai
Onde e quando nasceu: Cairo, Egito, 1997 (de ascendência sul-sudanesa, criada nos EUA).
Como começou: Descoberta através de uma foto viral no Instagram durante um festival universitário em 2017.
Qual foi seu auge? 2018, ao ser a primeira modelo negra a abrir um desfile da Prada em 20 anos (desde Naomi Campbell). Em 2026, sua presença é o termômetro do luxo global.
Enfrentamento do preconceito: Anok simboliza a “Nova Super”. Ela uniu a estética da alta-costura com o poder incalculável do algoritmo, vencendo as barreiras tradicionais de agenciamento.
Fortuna acumulada: Multimilionária; sua imagem é hoje uma das mais caras e disputadas do mercado de luxo.
Legado: A Soberania Digital. Anok provou que o olhar do público nas redes sociais tem o poder de coroar uma nova rainha da moda.

Adut Akech
Onde e quando nasceu: Sudão do Sul, 1999 (criada como refugiada no Quênia e na Austrália).
Como começou: Descoberta aos 16 anos na Austrália; estreou mundialmente como exclusiva da Saint Laurent.
Qual foi seu auge? 2018 — 2024, eleita “Modelo do Ano” diversas vezes e musa absoluta de Pierpaolo Piccioli na Valentino e de Karl Lagerfeld na Chanel.
Enfrentamento do preconceito: Herdeira direta de Alek Wek, Adut usou sua trajetória de refugiada para exigir respeito e humanidade, recusando-se a ser tratada como um mero objeto visual.
Fortuna acumulada: Multimilionária; com contratos de prestígio que garantem sua independência financeira e poder de investimento.
Legado: A Nova Supermodelo Global. Sua trajetória é a prova de que a elegância negra, quando aliada à consciência política, é a força mais resiliente da moda atual.

10 comentários sobre “A Trajetória das Modelos Negras: Do Poder das Capas ao Domínio das Passarelas

  1. Karine,
    Um dos lemas do MONDO MODA é questionar padrões pré-estabelecidos! Todos!
    E, particularmente, falar de minorias, é um ponto muito importante!
    Obrigado pela mensagem.
    Abs

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  2. É MUITO IMPORTANTE RESSALTAR A REAL BELEZA DA MULHER NEGRA SEJA AMERICA OU BRASILEIRA É UM PRESTIGIO,SOU NEGRA E VEJO QUE A BELEZA DA NEGRA SEMPRE ESTA BEM ESCONDIDA EM FUNÇÃO DE MUITO PRE-CONCEITO E PRECONCEITO.MAIS TENHA PARA DIZER QUE NO BRASIL O PRECONCEITO É BEM MAIOR SENDO ELA BONITA LINDA NÓS NÃO TEMOS VEZ AQUI NO BRASIL QUE PENA .EU PARTICULARMENTE GOSTEI MUITO DESTA REPORTAGEM MUITO BOM MESMO RESALTAR ESSA BLEZA QUE ESTA SEMPRE POR TRÁZ DAS CÂMERAS .

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  3. Ola Jorge, na Feijuka do Banco de Olhos nos encontrei…e como vc recomendou, estou aqui acompanhando tudo. Parabéns pela materia sobre as Divas Negras, adorei!!! Grande Beijo! Pâmela Abreu

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