A performance do arrependimento

O figurino é quase sempre o mesmo. Uma camiseta básica de algodão em tom neutro, a cara limpa desprovida de excessos, uma iluminação fria e um cenário minimalista que evoca uma simplicidade quase monástica. Diante da câmera do celular, a voz embargada pronuncia as palavras que se tornaram o mantra absoluto da nossa era digital: “Desculpa, não foi minha intenção” ou “Não foi bem isso que quis dizer”.
Assistimos a esse espetáculo quase diariamente. Seja artista, um apresentador de televisão ou uma influenciadora digital flertando com o absurdo em uma postagem preconceituosa. O roteiro da retratação pública transformou-se em uma subcategoria estética do comportamento contemporâneo — uma performance milimetricamente calculada para conter a perda de seguidores, preservar contratos publicitários e restaurar capital simbólico.

A performance do arrependimento @ IA

Em pleno 2026, a audiência assiste a isso com um cinismo compartilhado. Nós sabemos que é encenação. Eles sabem que nós sabemos. Ainda assim, o espetáculo continua.
Essa dinâmica nos obriga a olhar para além da superfície do guarda-roupa planejado e compreender as estruturas que sustentam essa engrenagem. O filósofo francês Guy Debord, em sua obra profética A Sociedade do Espetáculo, já alertava que, na modernidade tardia, o “ser” foi substituído pelo “ter”, e o “ter” acabou sufocado pelo “parecer”. Nas plataformas digitais, essa máxima atinge sua expressão mais radical.
A retratação pública já não representa um processo legítimo de transformação, letramento ou arrependimento genuíno diante de um ato racista, machista ou elitista. Ela opera, sobretudo, como a mercantilização da moralidade. O pedido de desculpas converteu-se em um produto de consumo rápido, desenhado para que a engrenagem do mercado de influência continue funcionando sem interrupções.

Guy Debord – A Sociedade do Espetáculo @ IA

Quando a celebridade do momento recorre ao escudo retórico do “não foi bem isso que eu quis dizer”, emerge um fenômeno que o sociólogo Zygmunt Bauman identificaria como sintoma da modernidade líquida. Relações, compromissos éticos e responsabilidades tornam-se fluidos, descartáveis e desprovidos de profundidade.
A justificativa do erro funciona como um código burocrático de fácil assimilação — uma moeda discursiva padronizada para garantir a convivência temporariamente pacífica nas redes. Não se exige uma transformação real de caráter; exige-se apenas adequação provisória ao vocabulário moral vigente da temporada. Uma vez preenchido o formulário da culpa, o influenciador é considerado “sanado” pelo algoritmo e liberado para a próxima publicidade.
O aspecto mais perverso dessa estética do arrependimento é a sutil inversão de papéis que ela produz. A realidade do preconceito proferido dissolve-se na encenação da dor de quem provocou a ofensa. Ao concentrar o debate na suposta “falta de intenção” ou na “má interpretação” do público, o emissor desloca a responsabilidade do ato para a sensibilidade de quem o recebeu. Tipo assim: “Oi? Foi você que entendeu errado!”
Como se o verdadeiro problema não fosse o racismo estrutural, o elitismo ou o deboche com a vulnerabilidade social, mas a incapacidade da audiência de compreender a “complexidade” daquela figura pública.

A performance do arrependimento @ IA

Essa paz armada baseada na resignação coletiva cobra um preço alto. Ao transformarmos o combate aos preconceitos em uma peça de relações públicas embalada por um figurino sóbrio e estrategicamente calculado, esvaziamos o sentido real da justiça social e da empatia. O público aceita a desculpa não por ingenuidade, mas por exaustão.
Resta então a provocação: até quando continuaremos validando esse figurino da culpa como salvo-conduto para a manutenção de privilégios?
Enquanto a culpa continuar funcionando como estratégia de reposicionamento de imagem — e não como experiência real de transformação ética —, o mercado digital seguirá premiando a estética do arrependimento. No fim, o figurino da desculpa não existe para reparar danos sociais. Existe para proteger capital, influência e permanência.

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