Ícone absoluto do movimento Art Déco nas décadas de 1920 e 1930, a pintora polonesa Tamara de Lempicka é conhecida como a retratista definitiva de uma burguesia extravagante, moderna e fascinada pelas aparências. Duas reproduções de suas obras, Jeune Fille en Vert (“A Garota de Verde”) e Portrait of Ira P. (“Retrato de Ira Perrot”), estão nas paredes do living da residência de Ulisses Brandão, vivido por Alexandre Borges, na novela das 21h Quem Ama Cuida.

A escolha de suas obras para emoldurar a rotina dos Brandão foi um acerto primoroso e irônico da direção de arte. Ulisses lidera uma família abastada, mas que vive sob o peso sufocante de manter um status social elevado enquanto lida com as tensões financeiras ocultas provocadas pelo seu vício em apostas. Assim como os nobres e burgueses retratados por Lempicka nos Anos Loucos, os Brandão habitam um universo de pura fachada, onde o luxo funciona como um escudo visual para esconder a iminência da ruína.

A primeira joia cênica inserida no living é Jeune Fille en Vert (“A Garota de Verde” ou “Young Lady with Glove”), pintada por Lempicka entre 1927 e 1930. Ela ocupa uma posição de destaque acima de uma mesa de vidro com base de cisne dourado. A tela exibe uma jovem de olhar enigmático, capturada em um vestido verde esvoaçante e chapéu branco, utilizando aquela estética escultural e monumental que consagrou a pintora. No mercado de arte global, a tela original pertence ao acervo público do Centre Pompidou, em Paris. Por ser um patrimônio nacional francês, ela é considerada de valor inestimável, mas especialistas do mercado estimam que o valor poderia ultrapassar os 20 milhões de dólares.

A segunda pista visual está na parede oposta, próxima a um suntuoso arranjo de folhas secas douradas. Trata-se de Portrait of Ira P. (“Retrato de Ira Perrot”), obra de 1930. A composição exibe Ira, que foi a amante mais famosa e a grande paixão de Lempicka, em uma pose dramática, envolta em tecidos de um vermelho vibrante e cercada por formas geométricas cinzentas.

Diferente de “A Garota de Verde”, a tela original faz parte de uma coleção particular e atinge cifras impressionantes no mercado de arte, tendo sido arrematada em um leilão da Sotheby’s de Nova York pelo valor de 9,08 milhões de dólares.

Embora não tenha mudado de mãos recentemente, o mercado para as grandes obras de Lempicka está extremamente aquecido. Como referência, o recorde absoluto da pintora em leilão ocorreu em 2020, quando a obra Portrait de Marjorie Ferry foi arrematada na Christie’s de Londres por 21,1 milhões de dólares.

Ao colocar reproduções dessas obras milionárias com molduras pesadas no living, a direção de arte da novela constrói uma ironia fina e brilhante. Se fossem as telas originais, a sala ostentaria algo próximo de 40 milhões de dólares em obras de arte. Porém, são apenas reproduções. O desejo dos Brandão em projetar um poder aquisitivo estratosférico esbarra na mesma intensidade psicológica que Tamara imprimia em seus modelos, revelando o vazio de uma sociedade que tenta sustentar a pose enquanto o chão desaparece.
Sobre Tamara
Nascida Maria Górska na Polônia, Tamara de Lempicka foi uma das principais e mais marcantes artistas do movimento Art Déco entre as décadas de 1920 e 1930. Vinda de uma família abastada, ela estudou em um colégio interno na Suíça e, aos 20 anos, casou-se com o advogado Tadeusz Lempicka em São Petersburgo. Com a eclosão da Revolução Russa, o marido foi detido pelos bolcheviques, mas foi solto graças à intervenção direta de Tamara. Na sequência, o casal buscou refúgio em Paris.

Na capital francesa, a pintora foi rapidamente acolhida pela alta sociedade, onde ganhou o apelido de “La Belle Polonaise” por sua postura moderna e seu estilo de vida mergulhado no puro joie de vivre da época. Foi nesse cenário que ela se dedicou às artes plásticas, tendo aulas com Maurice Denis e André Lhote. Sua assinatura artística nasceu da fusão do cubismo sintético com motivos burgueses e o neoclassicismo, imprimindo às suas telas cores claras, luminosas e uma elegância inconfundível.
Sua vida pessoal foi tão intensa quanto suas pinceladas. Em meio a um casamento que esfriava, Tamara experimentou uma vida amorosa livre e movimentada, envolvendo-se com homens e mulheres da cena cultural europeia. Teve uma filha, Kizette, que, apesar de ter sido negligenciada pela dedicação da mãe às artes e à vida mundana, acabou eternizada em uma série de retratos belíssimos e sensíveis.

Em 1934, após se separar de Tadeusz, casou-se com o Barão Kuffner Von Diószeg, recebendo o título de baronesa. Com a aproximação da Segunda Guerra Mundial, o casal mudou-se para os Estados Unidos, circulando com destaque pelos círculos de Hollywood e Nova York. Tamara passou seus últimos anos no México, onde faleceu em 1980.
Seu legado estético permanece vivo e reverenciado, servindo de inspiração contínua para o design, a moda e grandes ícones da cultura pop contemporânea.
O império artístico de Lempicka conta com cerca de 600 obras conhecidas, consolidando-se entre as artistas mais valorizadas do século XX.
