Filme Fashion: Hair

Hair é uma versão homônima de um dos musicais mais controversos e bem sucedidos da década de 1960.
Escrita por James Rado e Gerome Ragni, a peça estreou na Broadway em 1967 e foi sucesso imediato pela temática contestadora aos valores impostos pela sociedade da época. Mas o filme que só chegou às telas americanas em 1979, não conseguiu repetir o êxito arrebatador do espetáculo, nos EUA.
Em parte porque, o filme dirigido pelo premiado Milos Forman, só aconteceu mais de uma década depois, quando a febre da contracultura já havia esfriado. E também pelo roteiro (de Michael Weller) menos psicodélico e mais metódico em relação ao original que se difere em muitos pontos do musical, desagradando os autores da peça e parte do público.
Entre as mudanças, o cineasta dispensou diversas músicas das mais de trinta canções utilizadas no espetáculo, alterou os perfis dos personagens e ousou um final inusitado.

Acertos
Alguns críticos, porém, gostaram do resultado, caso de Vincent Canby do New York Times, que escreveu “…as invenções de Weller fizeram este Hair ser mais divertido que o original. (…)”.
Embora a geração hippie tenha deixado seu legado, na década seguinte, diferentes tribos se formaram com novos ideais e atitudes. Mesmo assim Forman não deixou de fora a essência do movimento hippie transgressor que, em plena guerra do Vietnã, veiculava os slogans de “paz e amor” e “Faça amor, não faça guerra”. Mas também não se absteve em mostrar o outro lado da moeda, quando um personagem integrante da “tribo” (os hippies no filme) tenta se isentar da responsabilidade familiar que havia abandonado pela causa.
Forman, duas vezes premiado com o Oscar de melhor direção, explorou bem o talento da equipe, conseguindo performances fortes dos atores e coreografia despojada criada por Twyla Tharp.
Utilizou com categoria as canções memoráveis que mesclam uma diversidade de sons e ritmos miscigenados. Também pelas letras cheias de significados próprios da época: o uso de drogas ilegais (a “novidade” do LSD), os horrores da segregação racial e sexual, a questão da guerra do Vietnã, repressão, ditadura em vários países e todo tipo de preconceito que ocorria no mundo inteiro, ajudaram a reavivar as músicas premiadas pelo Grammy em 1968, e que na época se tornaram hinos em prol de uma causa libertária.
A nova Era tão aguardada por esses jovens é bem retratada na canção ‘Aquarius’, que abre o longa, na voz forte de Ren Woods. Ela explica a ocorrência do alinhamento dos planetas que deu origem a um novo tempo de amor e harmonia que aconteceria por volta do século XXI.
Argumento

Hair conta a história de Claude (John Savage), recém chegado de Oklahoma em Nova Iorque, onde pretende se alistar para a guerra do Vietnã. No Central Park, encontra um grupo de hippies, assim como se encanta por uma socialite, chamada Sheila (Beverly D’Angelo), que cavalga ao lado dos amigos ricos.
Claude fica amigo de Berger (Treat Williams), o líder pacifista dos hippies, que o convida para irem de penetras à festa de Sheila, onde poderá declarar seu amor. Mas, Berger ultrapassa os limites fazendo um discurso sobre as injustas mortes de jovens em plena guerra enquanto pessoas festejam indiferentemente. E acrescenta que Claude só quer um momento com a amada antes de ser mandado à frente de batalha. Contudo, ninguém se sensibiliza com a situação e eles são expulsos. Antes, porém, Berger não deixa barato. Ele sobre na mesa na jantar, cantando e dançando (a antológica cena foi reproduzida num comercial de tênis, que marcou uma geração). Ele causa mais pânico do que comoção. Resultado: ele acaba preso.
A partir desta situação, Claude precisa decidir entre rasgar seu cartão de alistamento – como fizeram seus novos amigos – ou sucumbir à pressão de seus pais (americanos conservadores) pela adesão à guerra.
Embora apaixonado, segue a decisão dos pais e se alista. Mas os amigos acreditam que o caminho é a paz e o amor. Assim, entram numa aventura fraternal para ajudar o casal a ter seu momento antes do embarque.
Eles viajam no carro de Sheila, ao som de ‘Good Morning Starshine’ (outra bela canção) até a base militar. A intenção é de que Berger troque de lugar com Claude por apenas algumas horas, mas, algo não sai exatamente como planejado. Então somos levados a um desfecho emocionante que instiga nosso censo crítico ao som da expressiva canção Let the sunshine in’!
Moda

O figurino de Ann Roth é fiel e se tornou fundamental no contexto do filme. Evoca uma sensação total de liberdade, através de indumentária enfeitada e colorida, junto com todos os badulaques hippies característicos. Os cabelos (que dão título ao filme) soltos, compridos e desalinhados ou Black-Power (nome também dado ao movimento de contestação dos negros americanos) sela de vez a idéia de busca por mudança daquela geração.
O tempo passou e muita coisa mudou. A moda hippie, iniciada nas ruas, tornou-se uma febre na década seguinte. Os estilistas acompanharam as mudanças e souberam explorar criativamente o que, em tese, seria um protesto “anti-moda” .
O estilo setentista continuamente é revisitado, principalmente, quando a ordem é ousar. Na segunda metade de 1990 voltaram calças ‘boca de sino’, que permaneceram por mais de uma década. As pantalonas, sofisticadas nos rebeldes anos 1920 e fashion nos 70, continuam na vanguarda. Os jeans surrados, batas, saias e vestidos soltos e longos, com estampas floridas ou étnicas de influências ciganas e indianas, acessórios com a maior diversidade possível da cabeça aos pés também permanecem em alta. Mesmo porque a customização e a reciclagem em tempos de sustentabilidade funcionam, maravilhosamente bem, inclusive no campo da moda.
De certa forma, a rebeldia hippie continua presente, pelo menos com relação à liberdade de estilos, onde os criadores de moda vêm se especializando há tempos, paradoxalmente, fazendo girar bilhões de dólares no mundo todo.
E essa diversidade tem funcionado com maestria. Segundo os profissionais dos bureaux de tendência, a moda está transitando por 80 anos da história – 1920 a 2000, trazendo e atualizando elementos. Das cinturas baixas, tecidos finos nos tons pastel e franjas dos loucos anos 1920, aos coloridos vibrantes como o laranja, amarelo e verde, dos anos 1970 prometem ser o hit do próximo Outono/Inverno 2012.
Além deles, as rendas, bordados e crochês continuam. Também o chapéu, um acessório que há muito ficou esquecido, já está fazendo a cabeça de homens e mulheres.
E se as escovas progressivas e chapinhas fizeram a revolução dos cabelos lisos e arrumadinhos até agora, embora não estejam obsoletos, são os cabelos menos comportados do filme Hair (femininos e masculinos), que farão a diferença neste ano que se inicia.
Além, é claro, dos rabos-de-cavalo, tranças e coques… Fique atento!
(Colunista: Elaine Luze Neto)

2 comentários

  1. Adorei a critica, muito bem desenvolvida. fiquei com vontade de ver o filme! PARABENS!valeira cagno 11.10.2011

  2. Realmente, filmes como este mostram, mesmo que menos interessante para mim, nos dias de hoje, como era a luta de determinados paradigmas impostos pela sociedade, desde comportamento social a moda da época, Gosto muito e a crítica ficou excelente!!parabens!

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