Existe alguma originalidade na moda atual?

Não acredito que, hoje, ainda exista originalidade na moda.
Assim como em outras áreas da criação, como cinema, música, teatro, decoração ou artes plásticas, o que surge, isto sim, é um contínuo processo de reinterpretação.
No caso da moda, isto se torna ainda mais complicado, diante do aumento da oferta. Se no passado, cinco ou seis estilistas franceses davam as cartas, hoje, este mesmo número triplicou. Milão, Londres e Nova York oferecem fortíssimos nomes que são tão, ou ainda mais influentes.
Assim, a primeira coisa a entender quando se pensa em originalidade, é abolir a palavra ‘tendência’. Na multiplicidade de possibilidades que a primeira década do Século XIX trouxe para a moda, pensar que uma única ideia seja um referencial, é bobagem. Como acreditar que algo seja ‘tendência’, se até loja de produtos para cachorro adotou o termo para divulgar seus serviços? Ou seja, ela está massificada, que perdeu sua força e seu sentido original.
Cada vez mais, pensadores de moda deixam de utiliza-la, pois compreendem que, diante das possibilidades apresentadas a cada temporada, é difícil eleger apenas uma ou outra ideia como se fosse algo absoluto. Entenda: aquela figura do criador de moda, que ditava regras para uma legião de seguidores, morreu.
Hoje, vemos diversas possibilidades que funcionam. Um criador de moda fala para sua cliente, mas este processo é repetido por seus colegas. No lugar de uma ideia, vemos 10 ou mais que se comunicam. Eventualmente, estas ideias se convergem e poderia ser interpretada como ‘tendência’. Contudo, mesmo assim, os criadores de moda procuram apresenta-la de uma forma peculiar, para conseguir manter algum destaque na sua criação.
Importante ressaltar, porém, que, para o comércio – que é o caminho da moda para o consumidor final – será muito difícil entender ‘moda’ sem pensar em ‘tendência’, uma vez que isto se tornou um dos processos da venda, como ‘lançamento’ ou ‘liquidação’.
Com raras exceções, quem vende não está preocupado em ‘ensinar’ seu cliente, pois, desta forma, estaria ampliando o poder de raciocínio diante da compra.
Para pensadores de moda, porém, ‘tendência’ é uma palavra antiga e sem sentido no cenário atual.

(Colunista: Jorge Marcelo Oliveira)

4 comentários

  1. Sim, eu entendo qual o sentido da palavra tendência. Acontece que, a partir da multiplicidade de possibilidades da moda atual, esta palavra perdeu seu sentido. Acredito que seja bem difícil que ele ‘volte’ a ser utilizada pelo sentido original, uma vez que ela já está incorporada no mainstream e, como disse anteriormente, até loja de produtos para cachorros e gatos utiliza!
    O que não podemos esquecer é que, um dos fatores para a vulgarização desta palavra a enorme quantidade de empresas, sites e blogs ligadas a moda que a usaram com exaustão. Sendo assim, ela ficou esvaziada.
    Ao mesmo tempo, como disse, um profissional de comunicação de moda precisa estar antenado com esta questão. Por outro lado, a maioria dos lojistas nem está nem aí com isto! Sendo assim, ela não deixará de ser usada.

  2. Sobre tendências é necessário compreender o que é isso primeiro. Tendência não é o que está na capa da Vogue ou nos desfiles, isso efetivamente já é moda! Já foi fabricado e há quilômetros de tecido e quilos de roupas já executadas. A palavra se tornou vulgarizada, é verdade, mas se retomamos o seu sentido original ela faz todo o sentido: desejo ou propensão em criar ou possuir algo. É isso que um pesquisador de tendências faz, busca futuras indicações de propensões e desejos que ainda estão por nascer. Não é uma bola de cristal, é pesquisa sociológica e antropológica pesada, muito debate para saber indicar à extensa indústria da moda em que processos criativos ela deve apostar. Ninguém cria sem direcionamento dentro de uma imensa indústria como é a da moda.

  3. Como ‘moda’ virou um fértil campo de trabalho, existe todo tipo de profissional – incluindo uma gama que está pouco preocupado em olhar além do seu próprio umbigo.
    Sabe o tipo que acha que moda é apenas criação, apresentação e lançamento de roupas, acessórios e cosméticos? Então, é o tipo que parou no tempo da evolução natural que este sistema precisa utilizar para garantir sua existência.
    Moda está completamente ligada a evolução do homem na sociedade. A roupa é apenas um destes mecanismos. Entender moda como algo mais amplo, ligada a outros campos, cinema, televisão, música, artes plásticas, arquitetura, decoração, sociologia, filosofia, antropologia e estilo de vida, para citar apenas alguns, é o primeiro passo para se atualizar sobre estas mudanças.

  4. E o que fazer quando próprios consultores de moda (mais influentes do Brasil) ainda usam o termo?! Pelo menos é o que leio em sites e ouço em programas especializados no assunto…Bjo

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