Filme Fashion: O Pecado Mora ao Lado

O verão de 1955 foi um dos mais quentes de todos os tempos – não literalmente claro -, mas cinematograficamente falando, com o sucesso absoluto da comédia romântica O Pecado Mora ao Lado, estrelado pela inebriante Marilyn Monroe.
O principal responsável era Billy Wilder, que sempre figurou entre os melhores produtores e diretores de Hollywood. Ao longo de sua carreira acumulou inúmeros prêmios em diversos festivais, entre eles seis estatuetas do Oscar (duas delas como diretor). Para protagonizar o filme, Billy entregou o papel à diva, que já era um ícone de beleza e sensualidade, com a incumbência de confirmar esse status interpretando uma garota sexy que deixa enlouquecido um homem de meia idade casado.
Com este breve resumo, hoje pode até parecer um romance bobinho ou clichê, numa época o qual a liberdade de expressão soa muito natural. Mas nem sempre foi assim.
Censura
Wilder sabia que seria jogo duro passar pelo crivo do código Hayes (que estabelecia uma censura prévia para obras de grandes estúdios em Hollywood). Executivos da Fox previram o problema iminente quando o diretor apresentou o roteiro baseado na peça de George Axelrod, que já era sucesso desde 1952. Todos sabiam que a escalação de Marilyn garantiria a atenção do público, mas também dos censores, que não veriam com bons olhos a ideia de um romance entre um homem casado e uma vizinha sexy enquanto esposa e filhos viajam de férias.
Na peça, o casal chegava às vias de fato, mas a Fox só liberaria as filmagens se o diretor/roteirista prometesse sequer insinuar a probabilidade de adultério. Ele concordou. Contudo, fiel ao seu estilo, Billy sentia que precisava deixar alguma pista de que o sexo rolava entre os dois. Assim, reescreveu inúmeras vezes o roteiro até deixar um único e sutil vestígio: a meia esquecida pela garota na cama do vizinho.
Calcinha
De qualquer forma, a coisa só pegou mesmo quando a atriz usou uma calcinha tão transparente durante as filmagens, que o diretor teve de refaze-la em estúdio, porque mostrava mais do que podia. E era justamente aquela que ficaria guardada na memória de todos – a famosa paradinha de Marilyn, com vestido com frente única plissado e branco (ou marfim para alguns), em cima do respiradouro do metrô de Manhattan – onde recebe uma lufada de vento levantando sua saia, enquanto diz: “Não é delicioso?”.
Para promover o filme em Nova Iorque, as fotos de publicidade foram marcadas durante a madrugada, no mesmo lugar a fim de repetir a emblemática cena. Mas MM, que anos antes afirmará que ia para cama usando apenas algumas gotas de Chanel nº 5 (que se transformou numa das fragrâncias mais famosas da história), apareceu para filmar… Sem calcinha!
Fontes afirmaram que foi necessário um empréstimo da peça íntima de uma das assistentes de produção para que as fotos pudessem ser feitas. O resultado deixou a multidão presente em êxtase e seu então marido, o jogador de beisebol, Joe DiMaggio, furioso.
O resultado da cena: um divórcio, mas sua consolidação como o maior símbolo sexual do cinema americano.
Título
A escolha para o título do filme no Brasil – O Pecado Mora ao lado – foi infeliz. O nome original é The Seven Year Itch – ou ‘Coceira (ou comichão) dos Sete Anos’, faz todo o sentido, pois é uma referência ao sétimo ano do casamento quando, em tese, o casal entra em crise e o marido sente forte vontade de cometer adultério, o que, caso seja descoberto, resulta em divórcio.
A estória
O cenário é Nova Iorque. Por causa do forte calor do verão, maridos mandam esposas e filhos para passar as férias no norte. Assim, homens comuns ganham ‘liberdade’, exatamente como Richard Sherman (Tom Ewell, no papel que rendeu um Globo de Ouro de Ator em Comédia), um editor de livros que justamente está lendo o próximo lançamento da editora, cujo título dá nome ao filme (original em inglês), que trata da infidelidade com data marcada. Apesar disto, no sétimo ano de casamento, ele se orgulhe de não se encaixar nesse estereótipo.
Contudo, sua estrutura é abalada quando se depara com a nova vizinha do andar de cima (e não ‘do lado’ – provando outro equívoco do título nacional), a exuberante ‘garota’. A moça – que não tem nome na trama – é uma modelo e aspirante à atriz, com exuberantes curvas sinuosas (estilo pin-up), mostra a que veio pulverizando não só o colega de cena, mas toda a espécie masculina.
Eles engatam uma “amizade” de atração incontrolável por parte dele, que se sente perseguido por pesadelos de infidelidade ou delírios de sedução. Num deles, sua mulher aparece, ora o traindo, ora o matando por causa da vizinha loira.
Química
Apesar da temática machista, o filme não subestima a inteligência do espectador, além da química entre Monroe e Ewell funcionar bem. Um abobalhado homem comum e seu conflito interno entre o desejo fulminante por uma jovem, ora inocente ora safada, de lábios sensuais e trejeitos lascivos (inclusive com direito a uma sopradinha na mecha de cabelo, que insiste em cair sobre os olhos) e, claro, a fidelidade.
O diretor brinca revisitando alguns filmes clássicos. Num dos sonhos de Sherman, ele beija a garota na praia, reproduzindo a famosa cena do filme À um Passo da Eternidade (escandaloso para época). Noutro momento, ele se olha no espelho e acredita ser o próprio personagem de O Retrato de Dorian Gray (considerado devasso) que o leva ao questionamento de valores morais e a procurar um analista (se coçando inconscientemente no divã).
Momentos como esses, a química entre os personagens e a cena do metrô garantiram o sucesso pelo reconhecido esforço de Billy Wilder para levar às telas o filme que virou febre mundial na época.
Sem contar, o brilho definitivo de uma jovem nascida Norma Jeane Mortensen, no papel que a transformaria na estrela mais cultuada do cinema – nove anos antes de ter sua vida interrompida, deixando lacunas inquestionáveis.
O vestido
O modelo branco usado na cena do respiradouro do metrô foi criado pelo estilista americano William Travilla. Responsável não só pelo figurino do filme, mas pelo guarda-roupa pessoal de Marilyn. Ela adorava tanto seu trabalho, que num certo momento, o presenteou com um calendário (com fotos nuas), com a seguinte frase: “Querido Billy, por favor, vista-me para sempre. Te amo, Marilyn.”
Portanto não é à toa que o modelo frente única branco seja um dos mais copiados, no universo fashion ou da arte. A cultuada peça, que pertencia à coleção pessoal da atriz Debbie Reynolds (Cantando na Chuva), foi leiloada em Junho de 2011, pela casa Profiles in History, nos EUA, (só com artigos cinematográficos) por U$ 5,6 milhões, superando todas as estimativas.
Além do vestido, a própria cena em si também é um clássico.
Em julho de 2011, Marilyn Monroe ganhou uma estátua em Chicago, que reproduz a famosa pose. Segundo a TV CBS (EUA), alguns moradores consideraram a obra do artista Seward Johnson “inapropriada”. Apesar disto, a estátua (gigante) de oito metros e mais de 15 toneladas, de aço inoxidável e alumínio, continuará exposta até meados de 2012.
Ao que parece, o filme O Pecado Mora ao Lado será sempre revisitado de uma forma ou outra – inclusive polemicamente!
(Colunista: Elaine Luze Neto)

3 comentários

  1. Parabens pelo artigo, nunva vi o filme, mas conheco a famosa foto do vestido branco. O texto e envolvente e esclarecedor.

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