A emoção contida de ‘Albert Nobbs’

Albert Nobbs se passa na Irlanda durante a Belle Époque, quando para sobreviver, uma mulher se ‘traveste’ de homem para trabalhar como garçom num hotel.
Extremamente tímida e temerosa de ser descoberta, ela não tem amigos e nem se socializa com os colegas. Só encontra prazer em anotar seus ganhos e guarda-los num piso solto em seu quarto. Ela planeja abrir uma tabacaria.
Um dia, surge o pintor de parede, Hubert Page, para fazer um serviço no hotel. Sem opção, Albert é obrigado a dividir sua cama com ele. Num ataque de pânico, ele revela que é uma mulher. Ao contrário do que imagina, Hubert garante que não irá revelar seu segredo. No dia seguinte, Albert começa a cerca-lo de atenção, trazendo chás e comidas. Para tranquiliza-lo, Hubert também revela que é uma mulher. E mais: é casado com outra!
Esta revelação desperta o desejo de Albert em vivenciar a mesma experiência. Ele passa a cortejar Helen Dawes, uma das camareiras do hotel. Contudo, ela já está envolvida com outro homem, que a convence a aproveitar da ingenuidade de Albert.
Produção
Albert Nobbs é uma estória triste e emocionante, apesar da frieza exagerada na composição do personagem. Em certos momentos, Albert deixa de ser apenas um fiel criado e lembra um robô programado para servir. Mesmo assim, é um filme que vale ser conferido, principalmente para entender como a questão da identidade de gênero ganha reinterpretações diante das adversidades da vida.
Projeto alimentado por Glenn Close desde 1982, quando viveu o personagem nos palcos, Albert Nobbs tem um direção mediana de Roberto Garcia – amigo pessoal da atriz. Mesmo assim, o filme recolocou o nome de Glenn em evidência, que, desde ‘101 Dálmatas – O Filme’, de 1996, não fazia um trabalho decente nas telas (nesta ausência, ela encontrou espaço em séries de TV, como ‘Damages’ e ‘The Shield’). O resultado veio nas indicações ao Oscar, Globo de Ouro, SAGS e BAFTA.
Inegável o fato de Glenn ser uma grande atriz, mas sua atuação é por demais ‘contida’. Se prendendo no mundo de sonhos e medos de Albert, faltou uma fagulha de emoção – mesmo nos momentos que sua personagem começa a experimentar novas sensações, seu rosto permanece o mesmo.
Por isto, o personagem Hubert Page, feito pela inglesa Janet McTeer, se tornou o grande destaque, graças a uma pitada de cinismo e perspicácia na sua composição. Quando está em cena, todos os outros ‘somem’ – inclusive a grande Glenn.

Destaque para a excelente direção de arte da veterana Patrizia von Brandenstein (com cenários de Susie Cullen) e figurinos de Pierre-Yves Gayraud.

(Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira)