Será que toda princesa dos contos de fada usava manequim 36?

Como diria Coco Chanel, “Para ser insubstituível, deve-se sempre ser diferente.”. Considerando que esse pensamento foi pregado nos anos 1920, é difícil de acreditar que quase 100 anos depois sejamos tão intolerantes à diferença.

Por mais que cada lugar possua sua própria cultura, algumas mais flexíveis que as outras, a questão da barbaridade perante tudo que é diferente e novo é meramente humana. Segundo Gardner, “Vivemos na Idade da Informação, mas nosso cérebro é da Idade da Pedra”, portando é possível afirmar que o preconceito está nos olhos de quem o vê.

Fabiana Karla interpreta a Perséfone na novela Amor à Vida @ Foto Divulgação
Fabiana Karla interpreta a Perséfone na novela Amor à Vida @ Foto Divulgação

 

Mesmo não sendo fã de novelas e achando que 50% daquilo é cultura inútil, por trás das maldades e falsidades, há um resquício de informação consideravelmente importante.

Por entender perfeitamente como é o dia a dia de uma pessoa acima do peso, resolvi ler a opinião de algumas pessoas em relação à personagem Perséfone (Fabiana Karla) de ‘Amor à Vida’ (que de amor e vida não tem nada).

Diante disso, me deparei com coisas do tipo “mulher gorda é humilhada em novela” ou “novela passa a imagem de que gorda precisa de homem para ser feliz”. Espere aí! A mesma pessoa que escreveu isso com certeza é fã de comédia romântica! Sabe aquelas em que um conto de fadas vira realidade e o amor verdadeiro vence todas as barreiras? Lindo, não é? Pois é, talvez o espanto esteja pelo fato de nenhuma mocinha ou princesa da Disney usar mais do que 36!

Aretha Franklin é uma cantora norte-americana de gospel, R&B e soul, considerada a maior cantora de todos os tempos pela revista Rolling Stone. Ganhou 20 Grammys @ Foto Divulgação
Aretha Franklin é uma cantora norte-americana de gospel, R&B e soul, considerada a maior cantora de todos os tempos pela revista Rolling Stone. Ganhou 20 Grammys @ Foto Divulgação

 

A questão é que, ninguém conseguiu enxergar a personagem além da gordura. Nem mesmo os críticos do preconceito exacerbado e explícito. Veja bem:

  1. Se a Perséfone comesse tanto quanto a Valdirene (Tatá Werneck), todos diriam “Gordo só pensa em comida”;

  2. Se ela tivesse dois casos como a Patrícia (Maria Casadeval), diriam ‘seria um absurdo uma gorda ter dois homens’;

  3. Agora, a personagem autista (Bruna Linzmeyer) está prestes a se envolver com um advogado. Será que as pessoas dirão “Ela é autista, o que você viu nela?” ou afirmarão que ‘ele é um ótimo rapaz e o amor verdadeiro vence todas as barreiras?’

Até quando negros serão vistos como cota, deficientes como inclusão social e gordos como uma aberração da natureza?

Kathy Bates é uma atriz americana, premiada com o Oscar e com o Globo de Ouro @ Foto Divulgação
Kathy Bates é uma atriz americana, premiada com o Oscar e com o Globo de Ouro @ Foto Divulgação

O índice de obesidade só vem crescendo nos últimos anos, e nem é preciso pesquisar pra isso, basta sair na rua. Quantas pessoas estão no padrão ridiculamente estipulado pela mídia? Quantas pessoas são bem resolvidas o suficiente para apontar os defeitos de alguém? A que ponto a imagem pode ocultar todas as qualidades de uma pessoa?

Uma pessoa gorda não é simpática pra compensar a aparência, como dizem por aí. Ela é simpática porque sabe como pessoas prepotentes e ignorantes são desagradáveis. Ou às vezes não é simpática. Não é uma regra. A personalidade de cada um está relacionada ao meio em que vive não exatamente à aparência em si.

Diana Vreeland foi um ícone da moda internacional, colunista e editora da Vogue e Harper's Bazaar @ Foto Divulgação
Diana Vreeland foi um ícone da moda internacional, colunista e editora da Vogue e Harper’s Bazaar @ Foto Divulgação

 

Acredito que o autor esteja enfatizando tanto o assunto que até os preconceituosos se sentiram incomodados. Talvez se ele fosse sutil ninguém perceberia o quanto é irritante, inconveniente e desnecessário esse tipo, e qualquer outro tipo, de preconceito.

Andre Leon Talley foi editor de moda da Vogue e atualmente da revista NÚMERO @ Foto Divulgação
Andre Leon Talley foi editor de moda da Vogue e atualmente da revista NÚMERO @ Foto Divulgação

 

Para provar que não é exagero de ficção, aqui vai um relato pessoal.

Certa vez, trabalhei em uma empresa na área de moda, e me destaquei por ser eficiente e proativa. Partindo disso, minha superior me prometeu uma promoção com apenas dois meses de empresa, mas, para isso, eu teria que passar por uma fase de testes e exercer a função almejada por um tempo para ver como me sairia.

Após certo período, outra superior me disse que a supervisora só me subiria de cargo se emagrecesse cinco quilos em três semanas. O argumento foi “A empresa se importa muito com a aparência de seus funcionários, isso é fundamental” (Não importava se EU era a gorda eficiente que exercia a função de três magros que não faziam questão de estar lá. E o mais interessante é que eles recebiam por isso….).

Enfim… Eu perdi 10 quilos em dois meses, exerci a função que não era minha por um total de seis meses e, adivinha: NÃO FUI PROMOVIDA! Parece piada, mas não é. Se eu soubesse que isto iria acontecer, teria frequentado a academia de ginástica, ao invés da escola, já que ser bom profissional, responsável e educado não vale nada caso você esteja à cima do peso, né?

Don't be like the rest of then, darling
Don’t be like the rest of then, darling

 

Do mesmo jeito que acontece na novela, aconteceu comigo e acontece com pessoas no mundo todo. Quando um gordo começa a se aceitar, a sociedade faz questão de lembra-lo que ele é diferente e enfatizam como se isso fosse algo ruim.

Visto tudo isso, posso afirmar que ser diferente não é pra qualquer um. Nem todo mundo é capaz de ouvir tanta besteira e manter-se forte, sorrindo e seguindo a vida. Até porque viver não se resume a isso.

Portanto, se você, gordo, magrelo, albino, negro, deficiente ou simplesmente do seu jeito, pegue todo tipo de ofensa e dificuldade que tenha enfrentado e use como combustível pra seguir em frente.

Use as mentes fracas que te cercam como estímulo para a autoestima e perceba que seu valor não é ditado por pessoas ignorantes. A partir disso, você vai perceber que ser igual é extremamente entediante. 

(Artigo colaborativo de Bruna Said Miguel)