Não existe mercado de moda em Campinas e nem na região metropolitana

Estudante de ModaSemanalmente, recebo e-mail de recém-formados de cursos de moda procurando emprego. Infelizmente, não tenho como atender cada solicitação.

Um tempo depois, descubro que a pessoa que enviou, sem alternativa, entrou na área de vendas em Shoppings. Vendas é uma área super digna. Bons vendedores ganham muito bem, desde que, tenham aptidão e dedicação ao trabalho. E não encarem este trabalho como ‘algo menor’ ou ‘provisório’.

Assim, para botar ordem na casas, as escolas de moda precisam urgentemente informar aos alunos uma realidade: NÃO EXISTE MERCADO DE MODA EM CAMPINAS E NEM NA REGIÃO METROPOLITANA!

Interessados, entendam uma coisa: não existe. É muito simples. Vivemos numa cidade de quase dois milhões de pessoas, mas não existe mercado de moda. Ponto. Mercado, entenda, é um campo de atuação profissional, que você trabalha e é remunerado.  Entenderam?

Na área de criação, precisa ter um patrocinador para montar um ateliê e, mesmo assim, precisa ter muita, mas muita paciência para esperar algum resultado a longo prazo. E mesmo assim, isto não é garantia de nada.

As confecções precisam isto sim, de modelistas e costureiras. No campo de criação, eventualmente, quando precisam de estilistas, procuram em São Paulo.

Nos parcos eventos de moda, são contratados uma legião de alunos ou recém-formados nos cursos de moda para trabalhar de graça. Em alguns casos, nem água e muito menos comida, eles recebem. Você pode achar que estou exagerando, mas eu sei do que estou falando.

A alternativa para produtores, é se especializar em figurinos para atuar no mercado publicitário. Então… Mas agências de publicidade consideram produtores como ‘gado’ – palavra que ouvi de colegas que trabalham nestes locais!  Tudo piora, pois, além de pagarem porcamente, quando surgem trabalhos maiores, recorrem aos profissionais de São Paulo. Estes, sim, são respeitados.

Afirmo isto com a propriedade de 20 anos de atuação como Produtor e ter acompanhado diversas fases deste mercado. No momento, o cenário é caótico.

Outro dia, precisei montar um orçamento, liguei para um estúdio fotográfico e fui informado que, ‘tudo depende do trabalho’, ou seja, o cachê de um produtor de figurinos pode variar de R$ 500,00 a R$ 2.000,00. Oi? Quem criou esta tabela? Foi algum sindicado que desconheço?

Conto numa mão os colegas de trabalho deste universo que estão aí, há 200 anos, lutando dia-a-dia para ter uma vida razoável e, bem longe daquilo que seria dignidade profissional. E mesmo assim, precisam se virar em outras funções para não morrer de fome.

Portanto, se não tiver condições de se mudar para São Paulo, assim que terminar seu curso de moda, nem percam seu tempo! Façam história, letras, geografia, administração, direito, arqueologia, medicina…

(Artigo: Jorge Marcelo Oliveira)

10 comentários

  1. Esta corretissimo em sua colocacao. O mercado é explorador e esta quase desaparecendo, os profissionais sao desvalorizados e disputam trabalhos com os ” tipo sobrinhos” sempre dispostos a quebrar galhos, aprende-se a copiar e nao a criar.
    Quanto as outras areas de moda como visual merchandising, gestor ou consutor vejo apenas em grandes empresas como C&A, Renner, Canatiba entre outros e infelizmente nao atende a demanda de profissionais formados. Tive o prazer de coordenar por algumas vezes profissionais recem formados de diversas faculdades excelentes, e sua maioria nao tinha ideia do que estava fazendo.
    Fora isso sou responsavel por producao de elenco na regiao em pelo menos 80% do horario nobre da regiao e quem quer ser modelo ou ator morre de fome se depender dos trabalhos regionais.
    Nao somos um bando falando mal do mercado, somos pessoas que vivemos disso e estamos enfrentando dificuldades extremas por falta de valorizacao ou respeito. Eu tambem ja tive muita esperanca, mas ultimamente, acho que ela se foi.
    Alias Marcelo agradeço a você umas das minhas primeiras oportunidades como sua assistente ha 6 anos atras, alias aprendo sempre com você, obrigada.

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  2. Jorge, você precisa retornar a alguma sala de aula em alguma escola decente. Digo isso por três motivos: ver como o perfil dos alunos que buscam cursos de moda tem mudado e buscado essas profissões que citei; aprender um pouco mais sobre moda, pois você ainda vive conceitos que “aprendeu” há 20 anos e, acima de tudo, melhorar o seu português, porque como um jornalista você escreve como um aluno de escola pública.

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  3. Carlos, eu deixei bem claro que o artigo se direcionava a alunos de cursos de moda.
    Alunos não se tornam compradores, gestores, visual merchandising sem alguma especialização. Ninguém oferece vaga para qualquer um destes alunos. Tenho uma pasta com grande quantidade de currículos que recebo de ex-alunos de moda que estão desempregados.
    Quanto a questão dos vendedores, não acredito que um recém-formado em moda, por livre vontade, vá trabalhar no comércio. Até porque, em praticamente todas as lojas badaladas da cidade, sempre existe uma carência de profissionais – com ou sem experiência. O que dirá, um formado em algum curso de moda, que seria muito bem vindo.
    Consultor de imagem? Sério que existe mercado desta profissão em Campinas? Quantos, fora uma pessoa em especial, que não vou citar seu nome, trabalha e sobrevive desta profissão?
    Qual vasto mercado de moda existe em Campinas, que a legião de alunos que se forma anualmente não sabe que existe?

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  4. Olá Jorge. Entendo seu ponto de vista, mas acho que você limitou a moda a profissão de estilista. Campinas é uma cidade com perfil comercial e, por isso, tem mercado para outras profissões do vasto universo da moda como compradores, gestores, merchandisers, consultores de imagem e até vendedores especializados.

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  5. Não existe mercado de moda no Brasil. As poucas marcas que contratam pessoal de estilo pagam pouco e muitas vezes mandam copiar e fazer ficha técnica das peças europeias adaptadas.

    A área de modelagem sofre, existem poucas modelistas/pilotistas acostumadas a trabalhar com moulagem e Demi-Couture. Isso afeta diretamente a criação de coleção e trabalhos mais desenvolvidos.

    Boa parte das empresas são capital aberto, fato que deteriora o desenvolvimento artístico devido a busca por lucros e mais lucros. A Le Lis Blanc é um ótimo exemplo, quando não era da Restoque ainda possuia em certo desenvolvimento. Hoje suas peças são 80% importadas da China. No outro lado estão as marcas que “desenvolvem” o SPFW, se cartelizam e o espaço para novos estilistas fica extremamente restrito.

    Não obstante o mercado de tecidos sofre com as importações chinesas, mas poucas indústrias brasileiras procuram profissionais para desenvolver novas tecnologias e armações. Pois, este tipo de profissional é caro e se retorno muitas vezes é negativo (financeiramente).

    No último ponto do processo está o consumidor, que se apega a símbolos e propagandas, preferindo uma marca com produtos comuns e nada inovadores a outras que procuram desenvolver artisticamente e com embasamento seus produtos. Isso colocado na ponta do lápis, faz com que mesmo marcas como Osklen, Reinaldo Lourenço entre várias outras copiem desfiles internacionais e vendam o mesmo look mais barato. Portanto, quando um trabalho é mais autoral não se sustenta, veja a Neon, que fechou seu atelier e só licencia produtos hoje.

    O mercado de têxtil no Brasil ainda engatinha, infelizmente, se não for renovado, planejado, mesmo sendo a área que mais emprega (depois da construção civil) continuará feudal e pouco artístico.

    Ps: Quanto ao ponto da matéria que diz sobre abrir atelier e esperar retorno a longo prazo, realmente é uma das poucas soluções, mas é preciso muito capital, em uma estimativa real, para se iniciar uma empresa desse caráter e conseguir mantê-la funcionando, em um ponto comercial é preciso no total de aproximadamente 300 mil reais.

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