Sobre o estupro e os direitos de ir e vir das mulheres

Simbolo do FeminismoNo filme ‘Acusados’, de 1988, Jodie Foster interpreta uma jovem de classe operária que, bêbada, é estuprada por vários homens num bar. Uma promotora acredita na garota e pega o caso, contudo, acha difícil convencer os jurados de que não houve um flerte – alegação usada pela defesa. Mesmo a contragosto da garota, a promotora aceita um acordo de condenação por agressão corporal. Acontecimentos posteriores, principalmente um acidente de carro provocado pela garota, levam a promotora a entrar com outro processo, mudando o tipo de acusação.
Fiquei com este filme na cabeça desde o momento que soube do estupro de uma garota no Rio de Janeiro cometido por 33 homens. Se não bastasse, eles filmaram, publicaram numa rede social e ainda zombaram do acontecido, como se fosse um mérito tal feito. A coisa piora com as reações posteriores vindas de pessoas que afirmaram: ‘deve ter sido a roupa que ela usou’, ‘onde ela estava para acontecer isto?’, ‘se ela estivesse em casa isto não teria acontecido’ e por aí vai.
“Não”. Basta esta palavra para uma mulher avisar que não quer fazer sexo. A negativa é muito clara, mas muitos homens não ouvem. Munidos de séculos de dominação machista que carregam no Dia, alimentam a ideia de que ‘mulher é meu patrimônio’. Sendo assim, eles se negam a ouvir um ‘Não’ e partem para o sexo não consentido. Isto é estupro.
Parece óbvio, mas não é. Existem variáveis sobre isto. Continuamente crianças, adolescentes, adultas e idosas são estupradas por maridos, pais, avós, irmãos, tios, padrinhos, vizinhos, colegas de classe, amigos e desconhecidos dentro de casa, no conforto do lar sagrado da família tradicional e cristã. Vestidas das mais variadas formas ou não, quando um agressor encontra sua vítima, nada disto o impede. E não se engane que isto é coisa de pobre, que mora em favela ou periferia. O estupro acontece em todas as classes sociais.
Fato 1: A mulher tem o direito de sair às ruas de shorts, saia ou vestido curto, sutiã, fio dental, tanga, usando apenas uma meia calça ou simplesmente pelada. Nada disto é um convite para ser estuprada. Qualquer pensamento contrário a isto é machismo.
Fato 2: A mulher pode estar numa balada, carro, clube, escola, supermercado, igreja ou puteiro. Se ela falar ‘Não’ basta para seu ficante, namorado, amigos, colega de escola ou trabalho não seguir em frente com sua intenção de sexo. Qualquer pensamento contrário a isto é machismo.
Fato 3: A mulher é a única dona de seu corpo. Ninguém, mas ninguém tem o direito de questionar isto. Automaticamente, novamente, se ela falar ‘Não’ é não.
Não bastam avanços sociais, tecnológicos, científicos e tudo mais, se, dentro de casa, os pais não ensinam seus filhos a respeitar o outro sexo. Não acredite que mães estão isentas destas. Elas são as primeiras a falar que ‘a vizinha usa roupa curta demais’, ‘que a sobrinha é muito namoradeira’ ou que ‘colega da academia de ginástica usa roupa muito vulgar’. Crianças ouvem e prestam atenção em tudo.
Mulher consegue ser péssima para falar sobre outra mulher, principalmente com aquela que chama a atenção. Elas adoram se referir a moça com títulos como ‘galinha’, ‘puta’, ‘biscate’ ou ‘prostituta’. Mulheres são implacáveis quando julgam outras mulheres que, por algum motivo, às incomodam. Triste, mas é um fato.
Homens adoram fazer piadas e brincadeiras machistas. É a significação do ser homem. Fazem cara de tesão quando surge alguma gostosa na televisão e tudo mais. Não se importam com a presença dos filhos ao lado.
Isto tudo é absolvido pela criança. Como ele vai lidar com isto no futuro pode ser muito triste.
Acredite: um daqueles 33 homens que estupraram a garota poderia ser seu filho. Ou você acha eles nasceram da cegonha ou do campo de couve-flor?
Finalizo com profunda tristeza por tudo o que garota passou. É de uma selvageria que me lembra o quão primitivo o homem continua sendo.

(Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira)

2 comentários

  1. Nossa a primeira coisa que me veio à cabeça foi justamente o filme “Os acusados”. Excelente texto!

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