Artigo: Lembranças da minha infância

Sem irmãos e com pais que trabalhavam fora, minha infância foi solitária. Até meus cinco anos, eu morava numa movimentada avenida, portanto, as saídas eram supervisionadas por algum adulto por perto. Ou seja… Lembro-me de dois vizinhos, Carlos e Marina, que eventualmente brincavam na minha garagem, onde usávamos o cano da antena de TV para imitar o Batman. Mas na maioria do tempo, ficava sozinho com meus brinquedos. robo-da-estrela
Antes de completar seis anos, meus pais se mudaram para outra cidade e demorei um tempo para ter um novo amigo. Desta forma, novamente, meus brinquedos eram meus companheiros (eventualmente com a televisão). Eles tinham dupla função. Encantado com as luzes da discoteca da novela Dancin’ Days, usava os faróis de fusca vermelho de bombeiro para iluminar um canto ao lado da minha cama, que se transformava numa pista de dança. O Aquaplay, o Robô e o Macaco que andava com fricção eram parte da decoração. Na pista, as miniaturas da Disney, trocadas em alguma promoção da Coca-Cola, se tornavam personagens que dançavam. O som vinha de um gravador de fita K7 National com músicas que pegava das rádios. miniaturas-disney-da-coca-cola
Eu desenvolvia outras estórias para a Branca de Neve, a Sininho, os anões, o Mickey, o Peter Pan, entre outros. Eventualmente, usava um fósforo com um pedaço de algodão na parte de baixo, como se fosse um vestido volumoso de uma das atrizes de filmes de época (não tinha ideia de tempo, óbvio). Um dia, depois de devorar balas de coco de alguma festa de aniversário, descobri que o papel poderia ter outra função. Como as franjas lembravam longos cabelos, outros personagens surgiam na minha pista de dança. Foi demais o dia que surgiu um papel prateado.
papel-de-bala-de-cocoMeu quarto era um templo de consumo de cultura pop. Recheava as paredes com fotos dos atores de novela e cinema. Eram fotos que vinham no meio das revistas de telenovelas. A porta era reservada para as atrizes de ‘As Panteras’, ‘Mulher Biônica’ e ‘Mulher Maravilha’. Colava foto até no teto. Acredito que gostava da sensação de não estar tão sozinho. Importante observar que aquela profusão de imagens despertou, anos depois, meu interesse pelo minimalismo.

As Panteras 1976 - 1977 @ Reprodução
As Panteras 1976 – 1977 @ Reprodução

No aniversário de 10 anos, meus pais me deram uma Máquina de Escrever Olivetti cor laranja. Eles já sabiam do meu interesse em escrever. Esta lembrança é acompanhada por muito carinho. Era final da década de 70. Não sei dizer quantos pais tiveram tamanha sensibilidade para entender a importância que aquele objeto teria na vida de seu filho pelo resto da vida. É uma lembrança muito forte – assim como uma loção pós barba que uma vizinha deu de presente. Não lembro qual era, mas achava que cheirava gente velha (será que isto despertou minha paixão por perfumes?).maquina-de-escrever-olivetti
Sem saber como funcionava a máquina de escrever, usava apenas dois dedos. Aos 12 anos, fiz o curso de datilografia na escola Olivetti, que ficava numa sala de um prédio ao lado da Catedral, na Avenida Francisco Glicério, em Campinas. Foi um divisor de águas na minha vida.
A partir dali, escrevi uma peça teatral que seria encenada por meus coleguinhas vizinhos. Eu era o produtor, autor, diretor de cena e de elenco… Definidos os papéis, começamos os ensaios. Mas… O negócio desandou quando uma das atrizes (hehehe) se mostrou mais temperamental do que eu… E, aos 12 anos, só uma Diva era possível naquela produção… O negócio pegou fogo quando a ‘atriz’ levou um tapa na cara, motivando um grande stress na vizinhança… Assim, a peça foi cancelada.
Apesar da decepção, transformei a peça numa novela de 600 páginas, inspirada nas séries ‘Dallas’ e ‘Dinastia’. Infelizmente, graças a minha entrada em Jornalismo na Puc, com toda aquela ridícula ideia de ‘isto é cafona’, ‘cultura americana é para gente pobre’ e outras idiotices típicas de estudante de comunicação, a novela ‘Desencontros Amorosos’ foi para o lixo. Dynasty
Não sei ao certo, mas aquela máquina de escrever foi o anúncio do fim da minha infância. Em seguida, resolvi promover um concurso de miss (graças a visita de uma prima), que não deu certo, pois Lia Mara, uma nova vizinha resolveu me sabotar e fazer o concurso no quintal dela, vetando a participação de meninos.
Naquele momento, descobri alguns defeitos que me acompanhariam pelo resto da vida. Resolvi fazer outro concurso. Acionei meus coleguinhas para chamar todos os vizinhos, transformando minha garagem numa festa. Depois veio concurso de dança e de fantasia. Foram meus primeiros passos como Produtor. Quem diria?
Quanto a Lia Mara… Ela não foi convidada para nenhum evento…. Mas isto é outra estória.
(Artigo assinado pelo Editor do MONDO MODA, Jorge Marcelo Oliveira)