Documentário ‘Paris is Burning’ retrata a ‘cena’ Vogue do final dos anos 80

Poucos documentários continuam a provocar discussões como Paris is Burning (1991), primeiro filme de Jennie Livingston, disponível no Netflix. Trata-se de uma empolgante máquina do tempo que retrata os Bailes (Balls) da subcultura LGBT dos anos 80. A produção levou sete anos para ser concluída e é uma das primeiras a retratar a gays, drag queens, travestis e transexuais negros e latinos do Harlem, bairro de Nova York.

Paris is Burning (1991) @ Divulgação
Paris is Burning (1991) @ Divulgação

Eles competiam nas pista de dança usando passos de Vogue – coreografia baseada na reprodução das poses das modelos dos editoriais de moda da Era das Supermodels. Uma das participantes, Dorian Corey, revela que, no passado, os gays imitavam estrelas de cinema e coristas de Las Vegas e hoje (no caso, a década de 80), eram as modelos.
Além das apresentações, eles integravam ‘Casas’, como Pendavis, La Beija e, a mais famosa, Extravaganza, que serviam como espaços de acolhimento para jovens eventualmente expulsos de casa pelos pais. Tipo o ‘gueto’ dentro do ‘gueto’, como se fosse uma forma de proteção dos problemas do mundo externo. Acredite: ‘gueto’ ainda é uma realidade em 2017!
O filme se alterna entre as empolgantes pistas de dança e entrevistas de rua com figuras chaves na cena, revelando complexos subtemas, como exclusão social, preconceito e racismo. Em diversos depoimentos, as séries de TV da época, como ‘Dallas’ e ‘Dinastia’ são citadas com símbolo do luxo e opulência que eles sonhavam. Além disso, apresenta a terminologia usada na comunidade LGBT (no Brasil, é conhecido como ‘pajubá’), desconhecida por quem é de fora – são formas de linguagem criadas como fortalecimento e empoderamento de minorias. O famoso ‘Shade’ (algo como ‘Veneno’ ou ‘Maldade’), usado em profusão no reality show RuPaul’s Drag Race, seria algo assim: “Eu não vou te falar que você seja feio, né, amore? Pois é uma coisa que você ‘já sabe’!”.

Se você usa ‘poderosa’, ‘lacrou’, ‘fechou’, etc, saiba que se apropriou do ‘pajubá’.

Paris is Burning (1991) @ Divulgação
Paris is Burning (1991) @ Divulgação

Uma cena, em especial, chamou minha atenção. Um gay montado (termo usado para se referir ao uso de roupas femininas ou exageradas) comenta que os termos que utiliza para se referir a outros gays no ‘meio’ não funcionam no universo hetéro. Ou seja, fora do contexto, ou seja, o ‘meio gay’, eles soam preconceituosos. Fica a dica.
O documentário levou o prêmio do grande júri no Festival de Cinema Sundance em 1991. Em seguida, ele foi distribuído pela Miramax e fez uma bilheteria de U$ 3.779,620, de um custo de U$ 500 mil. Também serviu de inspiração para o clipe ‘Vogue’, da Madonna, possibilitou a realização de ‘Priscila, a Rainha do Deserto’ e ‘Para Wong Foo, Obrigado por Tudo, Julie Newman’ e a mudança no conceito da Drag Queen na comunidade gay dos anos 90, anterior a aceitação das mesmas nas festas ‘caretas’, nos programas de televisão e nos palcos do teatro – principalmente dos stand-up comedy.

Mas nem tudo são flores. Na época de seu lançamento, surgiram acusações contra a diretora – uma lésbica branca e de classe média e vizinha de Calvin Klein, em Long Island – de brincar de voyeurismo num universo que ela desconhecia. Pior: e se apropriar de forma incorreta da uma cultura muito específica de um grupo social marginalizado socialmente. Num artigo ao New York Times, em 1993, o colunista revelou que diversos participantes do filme foram prejudicados financeiramente com a exposição do filme. Um deles, Paris DuPree entrou na justiça pedindo uma indenização de U$ 40 milhões (não deu muito certo, levando em conta que a bilheteria não chegou a U$ 4 milhões). Outra questão foi verossimilhança dos relatos. Embora todos terem assinado contrato autenticando a verdade dos relatos, os produtores distribuíram U$ 55 mil para 13 participantes, uma situação incomum para um documentário. “Um jornalista ético diz que não deveríamos ter pagado para eles. Por outro lado, aquelas pessoas estavam abrindo suas vidas! Como colocar um preço naquilo?”, explicou a diretora na mesma reportagem.

Polêmicas à parte, o filme manter sua força. Tanto o cinema quanto a televisão atual, com raras exceções, está povoado por dramas e comédias românticas assépticas, com gays e lésbicas brancos e de classe média vivenciando estórias de namoros impossíveis, projetos de adoção, rasos conflitos familiares, etc. É como se o mundo tivesse congelado num único flame lindo e cor-de-rosa e ainda repetindo como um mantra: ‘somos gays (ou lésbicas), aceitos e felizes’.

Casal gay de Modern Family @ ABC/PETER "HOPPER" STONE
Casal gay de Modern Family @ ABC/PETER “HOPPER” STONE

Veja bem: eu adoro ‘Modern Family’. Eu me diverto com o programa que mostra situações familiares de uma forma peculiar, entre eles, o casal gay. Logo na primeira temporada, eles adotaram um bebê oriental. Eles são tão fofinhos que se tornaram um estereótipo do tipo de gay que a classe média aceita: bonitos, bem-vestidos, casados, levemente sarcásticos, divertidos e… Higienizados! Não existe nada de nebuloso ou escondido neles. São assumidos e, fora um draminha com o pai de um deles (Mitchell), são aceitos por todos – no núcleo familiar, social e corporativo. Herdeiros dos tipos criados em ‘Will & Grace’, na década passada, eles não sofrem qualquer tipo de preconceito, violência ou discriminação. O conceito é claro: ‘Somos de uma classe social que nos protege’.

Enfim… ‘Paris is Burning’ pertence a outro mundo que pouca gente gosta: o real. Passados 26 anos, seus personagens parecem muito mais críveis do que as coisinhas fofas atuais.

Jorge Marcelo Oliveira @ Selfie
Jorge Marcelo Oliveira @ Selfie

(Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira)