‘Moonlight’ é a primeira obra com temática LGBT que vence o Oscar de Melhor Filme

Dividido em três atos, Moonlight – Sob a Luz do Luar é filme sobre medo, baixa autoestima, repressão, interiorização de sentimentos e solidão.
No primeiro, é apresentada a vida do menino Chiron (Alex Ribbert): negro, magro e gay, que mora com a mãe viciada em crack (Naomie Harris) num subúrbio pobre de Miami. Um dia, fugindo dos colegas que o perseguem com palavras como ‘viado’ ou ‘boiola’, ele conhece o traficante Juan (Mahershala Ali), que se torna uma espécie de protetor. Ele também é acolhido por Teresa, namorada do moço. Nessa fase, o medo o cala diante de qualquer atitude.

Mahershala Ali em Moonlight Sob a Luz do Luar @ Divulgação
Mahershala Ali em Moonlight Sob a Luz do Luar @ Divulgação

Anos depois, o adolescente Chiron (Ashton Sanders) continua sendo perseguido pelos colegas de escola, a mãe está mais surtada e a confusão sobre sua sexualidade é dolorida. Num dia, porém, ele encontra um amigo que se torna seu primeiro contato físico com outro homem. Sem tempo para avaliar o que aquilo representou, ele é violentamente agredido colegas de classe. Porém, revida e paga um preço bem alto por isso. O medo, aqui, o impulsiona a reagir, porém, com consequências drásticas.

Cartaz de Moonligth - Sob a Luz do Luar @ Divulgação
Cartaz de Moonligth – Sob a Luz do Luar @ Divulgação

O terceiro ato começa com uma mudança drástica na vida de Chiron (Trevante Rhodes). Adulto, ele se tornou um homem bonito e musculoso. E contraditório (ou sem opção, digamos). Na realidade, ele criou um personagem para viver a escolha que fez. Um dia, recebe um telefonema daquele amigo da adolescência. Eles não se veem há 10 anos, mas a ligação desperta algo. Ele vai visitar esse amigo. O amigo trabalha num restaurante oferece um jantar. Entre a comida e vinhos, sentimentos represados voltam à tona. O amigo questiona porque ele usa ‘aquela máscara’. Ele não sabe responder. Esse encontro o obrigará a enfrentar o medo, a insegurança e o desejo represado.

Dirigido com sensibilidade por Barry Jenkins, ‘Moonlight’ é um filme tocante. Apresenta uma realidade desconhecida no cinema americano (negro homossexual morador de periferia) de forma sincera, mas discreta.
Uma vez que seria impossível retratar Chiron de outra forma, apesar de parecer clichê, o diretor opta por construir um traficante de bom coração e sem cinismo. Mesmo sendo um comercial que vende um produto que desgraçada de seus clientes, ele não obriga ninguém a usa-lo. Numa cena chave, ele mostra toda sua sensibilidade contando uma estória – exatamente referente ao título de filme que tocará a vida do menino. Impressiona a cena final deste primeiro ato, quando é mostrado o confronto quase silencioso entre o garoto e seu protetor. Naquele momento, apesar do carinho entre ambos, a verdade dos fatos é inegável.
Jenkins optou por atuações sólidas, discretas e marcantes – principalmente Mahershala Ali, Naomie Harris e o garoto Alex R. Hibbert. Não tem a ‘cena’, aquela que é apresentada no anúncio do nome do concorrente a prêmios antes do anúncio do vitorioso. Alguns podem estranhar, mas, aqui, é uma escolha que funciona.
É um filme de meias palavras, gestos suaves e emoções contidas. Porém, muito verdadeiras.

Naomie Harris em Moonlight Sob a Luz do Luar @ Divulgação
Naomie Harris em Moonlight Sob a Luz do Luar @ Divulgação

Vencedor de 218 prêmios & 203 indicações, ‘Moonlight: Sob a Luz do Luar’ é a primeira obra com temática LGBT a levar o Oscar de Melhor Filme em 89 anos da história da Academia. Além disso, é a primeira obra com um elenco 100% negro. Tudo isso somado ao fato de vencer o suflê ‘La La Land’, preferido principalmente por fãs da Old Hollywood e mulheres românticas.
A vitória de ‘Moonlight’ sinaliza uma volta de obras adultas e politizadas, ausentes desde os anos 70, quando, obras como ‘Estranho no Ninho’, ‘Todos os Homens do Presidente’, ‘Um Dia de Cão’, ‘Poderoso Chefão’ e ‘Rede de Intrigas’ apresentavam histórias fortes e provocadoras.
Como um cinéfilo e fã da premiações (o primeiro Oscar que assisti foi em 1979, quando Kramer & Kramer foi o Melhor Filme), posso dizer com toda a certeza: foi a melhor escolha do ano!

Jorge Marcelo Oliveira @ Selfie
Jorge Marcelo Oliveira @ Selfie

Artigo assinado por Jorge Marcelo Oliveira