Crítica: Feud mergulhou na essência de Joan Crawford e Bette Davis

Exibida no Brasil pelo Fox Premium, infelizmente, pouca gente assistiu a série antológica Feud, estrelada por Jessica Lange e Susan Sarandon, nos papéis de Joan Crawford e Bette Davis. Em oito episódios, ela contou o tumultuado relacionamento entre as duas Divas que dominaram a Hollywood dos anos 40.

Jessica Lange e Susan Sarandon em Feud @ Divulgação

Joan foi a grande estrela e Bette foi ‘a’ atriz. Para um bom cinéfilo, a separação entre o que seria uma e outra é muito clara. Uma representa a engrenagem de uma indústria que cria e destrói mitos – com a mesma facilidade. Nem precisa ter muito talento. Basta uma farta dose de carisma, fotogenia, simpatia e beleza. Metade da história do cinema é representada por esse tipo de gente. A outra… É a atriz.

Ilustração de Joan Crawford e Bette Davis @ Reprodução

Aquela pessoa que encarna ‘personagens’. Desperta emoções com o arquear de uma sobrancelha. Uma respiração revela um demônio. Um meio-sorriso conta uma verdade. Seu rosto é seu instrumento. Olhos, boca, nariz, testa, bochecha… Um bom ator transmite emoções nos mínimos detalhes.
Joan era uma estrela – eventualmente, saia do lugar comum e mostrava algum talento dramático, mas seu foco era outro. Bette, por outro lado, era uma atriz. Esse era o principal ponto de divergência entre ambas. Foi uma relação que mesclava emoções. Inveja e admiração na mesma medida.
Passando da casa dos 50 anos, as carreiras de ambas beiravam o fim. Numa indústria que sobrevive da beleza, charme e vigor da juventude eterna, uma mulher de meia idade não encontrava papel decente. De protagonistas, elas se tornavam mães, tias ou avós das novas estrelas que surgiam (se pensarmos bem, Hollywood continua assim). Um dia, por um acaso, o livro de terror chamado ‘O Que Terá Acontecido a Baby Jane’ cai nas mãos de Joan Crawford.
Na trama de suspense e melancolia, duas ex-atrizes que conheceram o sucesso dividem uma vida decadente, marcada por mágoas e ressentimentos. Jane, que só desfrutou a fama na infância, cuida da irmã, Blanche, presa a uma cadeira de rodas desde que um misterioso acidente interrompeu sua carreira de estrela hollywoodiana. É de Blanche, aliás, o dinheiro que sustenta o casarão em que elas vivem confinadas. Disposta a recuperar a fama de outrora, Jane traça um plano de vingança contra a irmã.

Susan Sarandon e Jessica Lange na capa da Entertainment Weekly @ Divulgação

Joan apostou suas fichas em Blanche. Para interpretar Jane, o nome de Bette Davis surgiu – ideia do diretor Roberto Aldrich, que precisava de uma atriz talentosa para equilibrar o jogo de cena. Apesar de relutante, Joan aceita. Entra em cena a ‘grande’ Bette Davis – ao lado de Katherine Hepburn, foi considerada a melhor atriz de Hollywood na primeira metade do século XX.
Apesar das diferenças, logo no começo, Joan e Bette firmam um pacto de sororidade. Elas entendem que o filme as colocará de volta na ativa em Hollywood. Mas… Por uma série de fatores externos aliados aos frágeis egos de cada uma, esse pacto foi quebrado. Desta forma, as filmagens decorreram num clima de guerra, no qual, cada uma usou a arma possível para atacar a outra.
No final das filmagens, começou outra guerra declarada quando Bette foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Nesse momento, a série de Ryan Murphy – o mesmo criador de American Horror Story, American Crime Story, Glee e Nip/Tuck, mostrou o quanto uma mulher ferida pode ser cruel com uma inimiga.
Sem medo do ridículo e do patético, Joan entrou em contato com as outras indicadas ao prémio, colocando-se como disponível para aceitar o prêmio, caso ocorresse algum imprevisto. A principal oponente de Bette, Anne Bancroft estava encenando uma peça na Broadway. Como a premiação aconteceria no mesmo dia da apresentação, ela não estava disposta a cancelar o espetáculo. Com pena do desesperado pedido de Joan, ela autoriza que a mesma a represente, numa eventual vitória.

No dia do Oscar 1963, a contragosto da organização, Joan monta um lounge nos bastidores da cerimônia para receber com champanhe os premiados. Na realidade, ela prepara sua ‘vitória. Anne Bancroft venceu como Melhor Atriz por ‘O Milagre de Anne Sullivan’. Joan sobe ao palco para receber o prêmio e posar para todas as fotos de imprensa. Bette se sentiu duplamente derrotada. Naquele momento, ser uma ‘a’ atriz não significou nada diante da esperteza e falta de escrúpulos de uma ‘grande’ estrela.
Num jogo de máscaras que foram se desnudando a cada episódio, Feud intercalou diferentes empatias, principalmente por revelar o quanto frágil elas – apesar de posarem de ‘fodonas’. Na realidade, ambas foram mulheres manipuladas por um sistema – diretores, produtores, imprensa, publicitários, empregados e filhos. Pior de tudo: com egos inflamados pelo antigo sucesso, elas não percebiam isso.
Nos episódios finais (foram oito), a decadência profissional encontrou a física – principalmente na figura de Joan, que amarga a solidão num apartamento em Nova York. Bette, por outro lado, continuou buscando trabalhos na TV, teatro e cinema. Nesse momento, a ‘atriz’ supera a ‘estrela’, pois, no final, apesar de não ter sido tão bonita, glamorosa ou badalada pela imprensa, o talento dramático sobreviveu a falta de glamour e beleza da outrora linda estrela.

Feud é uma aula de história de cinema americano. Foi devorado com prazer por cinéfilos que elegeram essa forma de arte e diversão seu fanatismo. As míticas vidas dessas mulheres se revelaram muito mais interessantes do que qualquer livro ou filme anterior pudesse mostrar.
Hoje, entendo porque críticos e fãs de cinema detonaram ‘Mamãezinha Querida’, filme de 1982. Ele foi baseado no romance escrito por Christina Crawford, a primeira filha adotada pela atriz no auge de sua carreira que transformou Joan num espécie de ‘monstro’ sem alma. Entre as críticas, a falta de aprofundamento na veracidade e essência de sua personalidade. Do seu impactante lançamento, com o tempo, o filme ganhou status de ‘trash’, principalmente na atuação caricata de Faye Dunaway.
Feud redime Joan Crawford. Não que eu acredite que ela tenha sido uma coisa fofa e que, a filha, Christina, tenha mentido totalmente. Porém, entendo que ela foi uma mulher que teve que enfrentar diversos demônios em sua vida. Continuamente, ela teve que provar que era ‘relevante’ e não apenas uma boneca fabricada para ser sexy e glamourosa. Joan Crawford foi uma sobrevivente de um sistema industrial que transforma e mata mortais em Deuses. São relevantes na medida de sua popularidade.
Curioso é perceber o quanto Joan e Bette eram semelhantes. Ambas eram mulheres fortes e exigentes. Tiveram quatro casamentos e relacionamentos complicados com os filhos – naturais e adotivos. Ao mesmo tempo, também se tornaram amargas e cínicas.
Enfim… Apesar da excelência do trabalho de Susan Sarandon como Bette Davis (os primeiros episódios são dominados por ela), Jessica Lange rouba a cena. Sem se preocupar em apenas imitar Joan, ela mergulhou na essência conflituosa de uma alma torturada por diversos demônios que brigou por toda a vida. É um trabalho magnífico.
Oremos que a Netflix compre a série e exiba ainda esse ano. Merece ser conhecida.
(Artigo de Jorge Marcelo Oliveira)