‘Qual a linha que separa um colecionador de um acumulador?’

Não lembro como começou, mas o assunto na mesa era café. A moça comentou que o marido comprou uma cafeteira x, mas ela não gostou. Ela resolveu comprar uma y, pois esta outra ‘fazia leite, cappuccino, etc’. Ela se virou para mim e perguntou: – Sabe quando você TEM QUE TER aquela cafeteira?
Respondi: – Não. Eu não tenho mais esse tipo de coisa.
Sem se abalar com meu comentário, ela continuou a falar sobre outro assunto e a conversa continuou.
Contudo, aquela expressão ficou martelando na minha cabeça ‘Tem que Ter’.
Não é nova, claro. As revistas de moda começaram a utiliza-la na primeira década. Em inglês, é o ‘Must Have’. Rapidamente, caiu na boca das blogueiras, que hoje se tornaram ‘digital influencer’. Tudo é publicidade…
Anyway… No meu caso, tentei me lembrar qual foi a última coisa que ‘Tinha Que Ter’? Na hora não me lembrei de nada. Depois, lembrei-me de um vaso que vi numa loja decoração de um shopping. Bem colorido, ele se parecia com colares africanos. Como adoro a cultura africana e as cores, fiquei encantado, mas o preço me afastou. Tempos depois, voltei a loja e ele não estava mais na vitrine. Fui procura-lo e o valor diminuiu. Porém, rapidamente, me perguntei: ‘Mas onde colocar?’
Pensei em alguns lugares na minha sala, mas, logo me lembrei da minha fase atual do menos é melhor. Além do mais, minha sala está recheada com almofadas coloridas. Inclusive, já estou sinalizando em muda-las para algo mais neutro. Cor intensa é linda, mas cansa. Mas uma coisa é trocar as capas de uma almofada, a outra é ter um vaso colorido. Na dúvida, descartei. Ele é lindo, mas está ótimo no seu lugar de origem: a loja.
Recentemente, Flávio montou uma estante na parede do meu Home Office utilizando portas de um guarda-roupa antigo. Em ordem alfabética, coloquei meu acervo de DVD, CD e alguns VHS (no passado, tive 400 fitas, hoje, 20, que estão aguardando seu momento de se tornaram digitais). No acervo de DVD contem alguns dos meus filmes preferidos e outros que comprei para ministrar workshops e cursos. O último que apareceu foi ‘Cabaret’, que comprei ano passado e, até hoje, não revi. Não sei ao certo quantos CD tenho, mas deve passar 300. O último que comprei foi há uns três ou quatro anos. Se não me engano, foi o penúltimo da Madonna.
Em outra parede, tenho uma estante de cubos branco com outro acervo de livros de moda, cinema, música, comportamento, militância LGBT. Até ano passado, existia o campo ‘outros’, de romances e contos, que doei. Do que sobrou, tenho uns 200 livros, ao lado de algumas pilhas de revistas importadas que, até o momento, resistiu a doação.
Nos primeiros dias, pós estreia da estante dos DVD, CD e VHS, senti um enorme prazer em ver tudo bonitinho e organizado. Um dia, porém, acordei e me perguntei: ‘Por que ter tanta coisa?’ e mais: ‘Qual a linha que separa um colecionador de um acumulador?’
Acho pouco provável que consiga assistir todos os filmes, séries e minisséries, principalmente em época de Netflix e outras Plataformas digitais. Por mais que tenho algumas obras que dificilmente encontrarei online, sinceramente, cada vez mais, entendo que isto é bobagem. Ocupa espaço e a energia não flui.
Durante anos, fui um comprador impulsivo. Entrava num shopping e rapidamente procurava as grandes livrarias. Sempre comprava alguma coisa, principalmente aos assuntos que gosto. Quando não nada de interessante, comprava uma meia. Exatamente isso: meia. Meia era o item que me relaciona a consumo impulsivo que fez parte da minha vida por longos anos.
Há um ano e sete meses, minha mãe morreu. Entre as mudanças que aconteceram em minha vida é entender o conceito da ‘praticidade’. Minha mãe tinha mais roupas do que usou em toda a sua vida. Fui responsável pela compra de metade do que ela usava. Dois dias depois de sua morte, com a ajuda do Flávio, enchi 10 sacos de 100 quilos com roupa. Por que uma mulher de 82 anos guardava tanta roupa? Pois é. Junto com as roupas, doei móveis, sapatos, bijoux, itens da maquiagem… Tirando fotografias, doei tudo relacionado a ela.
A fase seguinte foi a ‘limpeza’ na cozinha – outro espaço de acumulação. Tinha tanto ‘potinho’ de plástico que dá até preguiça de pensar. Depois, panelas, pratos, xícaras, formas de bolo, etc. Fiquei com poucas coisas. Depois, comprei e ganhei novas. Estipulei uma quantidade básica, que sigo fielmente. E nada de potinho de plástico.
Quando você se desfaz de itens que não utiliza, renova a energia da casa. Ficar preso a objetos não trará que morreu de volta. Não preciso de uma roupa, vidro de perfume ou qualquer produto para me lembrar. O que importa, isto sim, é a saudade.
Sinto que meus acervos estão com o tempo contado. Só gostaria de doa-los para uma instituição que cuidava, pois alguns itens são raridades. De qualquer forma, é uma das minhas metas para o futuro.
Não sou nostálgico e muito menos vivo preso ao passado. Valorizo o que foi filmado, gravado e escrito. Entendo sua importância, mas estou aberto a novas formas, resignificados e reinterpretações.
Em tempos de discussão sobre Consumo Consciente, é válido reavaliar nosso papel social. Por que ter 300 CD, 200 livros, 100 DVS, revistas, etc, se tenho certeza que não terei tempo de ler, assistir ou ouvir todos eles?
(Artigo escrito por Jorge Marcelo Oliveira)

2 comentários

  1. Marcelo
    Muito importante este seu texto. Prometo que vou pensar nisso.
    Se for doar seu acervo pense no Acervo do centro de Memória da Unicamp que vem retirar e preserva tudo certinho e catalogado.
    Doamos o acervo do meu sogro que era jornalista como você para lá e fica tudo disponível para consulta e pode ajudar muitas pessoas.
    Parabéns pelo desapego.

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  2. Achei bem interessante esse post Marcelo!
    É caso de se pensar mesmo sobre a acumulação q as fazemos.
    Como meu apto tem 72 metros quadrados então se aculumular aí não tem onde colocar rsrs então me desapego muito fácil.

    Ótima semana

    Bjs

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